AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Garota Desconhecida


24 de fevereiro de 2017 - 14:50 - Tiago Soares

Os Dardenne em mais um filme de tom naturalista


Vaiado no Festival de Cannes 2016, o novo filme dos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (Rosetta ,A Criança), foi criticado pela forte estética seca e sociológica dos belgas, que aqui seguem o mesmo estilo encontrado no seu mais recente sucesso (Dois Dias, Uma Noite) que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz a ótima Marion Cotillard em 2015. A câmera mais uma vez acompanha a protagonista em mais uma busca desesperada. Se em Dois Dias, Uma Noite, o desemprego é o grande foco, aqui a questão é a da imigração.

Certa noite a Drª Jenny Davin (Adèle Haenel), escuta a campainha do seu consultório, mas proíbe seu estagiário de atender, pois já tinha passado 1 hora de seu expediente. No dia seguinte Jenny descobre que a moça foi encontrada morta próximo dali, sem nenhuma identificação. Se sentindo culpada por não ter abrido a porta, a médica começa uma saga para descobrir quem era e o que aconteceu com a garota, para que a mesma não seja enterrada como indigente.

O cinema dos Dardenne está presente no seu tom mais naturalista e minimalista possível, algo refletido na ausência de maquiagem e figurino da protagonista, na fotografia sempre clara, mesmo a noite e na direção de arte simplista. A câmera na mão que “persegue” a doutora no seu consultório, nas visitas aos pacientes e em sua investigação, que faz a sensação de tensão aumentar a cada nova descoberta. É interessante a maneira como os diretores desconstroem a protagonista, nos fazendo ter uma visão completamente diferente dela no início, para depois sermos pegos torcendo pela mesma.

Talvez o grande problema dos belgas seja a sensação de repetição, quem conhece o cinema dos irmãos diretores, talvez mais conhecidos da Europa, sabe que já viu tudo aquilo antes e que poderia ser muito melhor. Outro defeito deles se repete aqui, o foco excessivo e até compreensível na protagonista (já que Adèle Haenel está ótima), acaba afetando os coadjuvantes que não são tão importantes assim. Em dado momento acabam ganhando um destaque desnecessário e se apequenam na frente de uma Adèle Haenel inspiradíssima, em momentos que não precisavam existir, já que talvez 15 minutos a menos de filme não o tornariam tão esquecível.