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Critica: Foxcatcher – A História que Chocou o Mundo


5 de fevereiro de 2015 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Não se preocupe se você não conhecer essa tal história que chocou o mundo, porque isso é só coisa que o subtítulo brasileiro botou na sua cabeça. A história, envolvendo os irmãos Schultz e John du Pont, só é conhecida nos EUA, onde realmente causou esse choque por envolver uma combinação estranha de dinheiro, esporte e nacionalismo barato. É essa combinação também que torna essa história tão merecedora de ser adaptada e acompanhada.

O longa conta a história de Mark, um lutador que entrou em decadência após ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984. Ele vive sua vida de maneira simples e solitária, enquanto faz treinos pontuais e dá palestras nacionalistas em troca de 20 reais. Tudo muda quando o milionário John du Pont, entusiasta da luta Greco-romana, convida Mark para vir treinar com ele em seu super equipado rancho, recebendo um salário gigantesco.

O desenvolvimento do roteiro, escrito por Max E. Frye e Dan Futterman, é extremamente lento e melancólico. Mas isso faz sentido e condiz com toda a relação criada entre Mark, John e Dave (irmão de Mark, treinador e também medalhista no mesmo esporte), que vai sendo traçada de maneira extremamente intricada e psicológica.

Esse tom impresso no filme também é acompanhado pela fotografia acinzentada, pelos cenários claustrofóbicos e pela a direção de Bennett Miller. Isso faz com que o filme fique ainda mais lento, mas também cria uma interessante tensão latente em torno de todos os acontecimentos. Assim o público fica com a eterna sensação de que algo ruim vai acontecer independentemente do título dizer que a história é chocante.

Talvez para nós, estrangeiros, esse clímax não seja tão chocante, mas isso não tira seu fator surpresa ou sua intensidade. Inclusive, se você não conhece a história, não entre no Wikipédia antes de assistir para que sua experiência seja mais interessante. Se você já sabe, apenas aproveite o caminho repleto de dinheiro e ciúmes até o final.

Bennett Miller tem papel importante na construção climática do filme, inclusive todos os seus trabalhos anteriores tem essa mesma construção lenta e intensa. Entretanto, eu acho que aqui ele pesou um pouco demais e deixou o longa mais arrastado do que o necessário. Existem, sim, momentos intimistas que justificam esse tom, mas alguns momentos podiam ter uma dinâmica mais cadenciada para dar um alívio momentâneo ao público.

Esse é o único erro de Miller que, em conjunto com o roteiro, trabalha incessantemente os detalhes, o espaço in off e o que está implícito no subtexto da história. É realmente interessante ver o quanto a sua direção é extremamente sensível e recheada de simbolismos, que criticam os EUA, desenvolvem os personagens ou até dão pistas do que está por vir. São cenas e diálogos que muitas vezes passam despercebidas, mas dão um sabor a mais ao todo.

Ele também realiza um trabalho belíssimo na inserção e utilização do silêncio para compor o clima da produção. Cada momento onde os sons são cortados tem a capacidade de passar uma sensação para o público e ampliar ainda mais aquela tensão existente entre todos os personagens.

E vários exemplos podem ser dados para evidenciar isso tudo. Já na primeira cena entre Mark e Dave, ele já deixa claro, sem precisar de nenhum diálogo ou narração in off, o quanto os dois confiam e precisam um do outro, mesmo com Mark tendo alguma espécie de ressentimento em relação ao irmão. Também temos vários momentos onde a cenografia ocupa o papel de um personagem ou onde um olhar vale mais do que três páginas de texto, sem que os planos sequência de Bennett deixem de registrar tudo.

Os atores principais, que são a grande força do filme, também tem grande participação nesse simbolismo representado por Miller. É só observar  como Channing Tatum anda na defensiva, enquanto Mark Ruffalo cria um Dave acolhedor que só recebe o irmão de braços abertos. Steve Carell, mesmo encoberto por uma maquiagem pesada e sem sentido, também revela muita coisa de John du Pont em sua fala pausada, seu jeito de sentar e na sua respiração pesada.

Todos os três tem seus momentos para brilhar e carregar o filme, merecendo todos os elogios recebidos. Carell faz um trabalho de criação de personagem minucioso e muito intenso, mesmo estando totalmente fora da sua zona de conforto. Tudo bem que eu acho que a maquiagem está ali para dar mais liberdade ao ator, já que não o deixa nada parecido com o verdadeiro John du Pont.

Tatum, mesmo não sendo indicado ao Oscar, faz um trabalho muito interessante em um Mark solitário, carente e completamente dependente dos outros. É uma atuação silenciosa e introspectiva, que também foge de tudo o que já vimos Channing fazer no cinema. E, por último, temos Mark Ruffalo, que está bem em qualquer papel que faz e não surpreende na criação do seu caloroso Dave.

Foxcatcher consegue contar uma história densa e complicada, através de um roteiro interessante, uma bela direção Bennett Miller e atuações fortes e inesperadas de seu elenco. É um filme muito bom, mas sua lentidão extrema prejudica o andamento da história e perde um pouco da atenção do público. O texto nada óbvio e as imagens extremamente simbólicas também devem afastar o grande público desse ótimo filme, mas não quer dizer que ele não mereça ser assistido.

OBS 1: Acho que o roteiro deveria ter investido um pouco mais de tempo na interessante relação entre John e sua mãe. Seria válido para os personagens e para o publico, que teria um pouquinho mais de Vanessa Redgrave em cena.

OBS 2: Esses são Mark e du Pont na vida real: