AODISSEIA
Filmes

Fora de Série, a irmã mais nova de Superbad

A melhor comédia do ano está aqui!


14 de junho de 2019 - 01:43 - Tiago Soares

Uma das estreias da semana, “Fora de Série” é uma comédia ousada e autoral dirigida pela estreante Olivia Wilde, em um trabalho de amadurecimento fora dos padrões.

A juventude é uma fase de responsabilidades e durante muito tempo o jovem foi tratado como sendo o completo oposto de alguém compromissado com o que deseja pra si e para os outros. É difícil que os adultos percebam que durante a juventude, é que se escolhe o que quer fazer e até aonde deseja ir. Algumas escolhas serão sábias, outras nem tanto, muito devido a pressão dos pais, dos amigos e de possíveis relacionamentos. O peso de ser bem sucedido cai muito cedo perante nossos ombros e é aí que um nasce um estilo cinematográfico que felizmente tem ganhado inúmeros exemplares: o “coming of age”.

O estilo não é novidade; John Hughes já brilhava com seu “Clube dos Cinco”, mas exemplos recentes como Lady Bird” (que figurou no Oscar 2018) e “Quase 18″, tem dado um olhar feminino a este “cinema de amadurecimento”. Nos exemplos citados, vemos mulheres que ainda não sabem bem o que querem para suas vidas. São confusas, mas tem personalidade. São fortes, mas se arrependem de algo logo em seguida. São humanas. Aqui em “Fora de Série” (Booksmart, no original), todo o peso do crescimento é potencializado quando Amy e Molly descobrem que seu amigos do high school entrarão em universidades iguais ou melhores do que as que escolheram, mesmo sendo extremamente estudiosas, e os amigos nem tanto.

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Cabe as duas descontar todo o tempo perdido em apenas uma noite antes da formatura, recheada de loucuras, auto-descobertas e segredos revelados. A direção é da estreante e famosa atriz Olivia Wilde e ela não poderia ter começado melhor. O filme emana o já clássico da comédia “Superbad – É Hoje” com um plot parecido e uma amizade tão forte quanto a dos garotos. Amy e Molly são interpretadas respectivamente por uma competente Kaitlyn Dever e Beanie Feldstein (coincidentemente a irmã de Jonah Hill). A primeira é uma tímida garota lésbica interessada em uma das meninas mais populares do colégio, a outra é uma líder de classe cercada de confiança, mas por estar fora dos padrões de beleza, às vezes é ridicularizada.

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É interessante notar que o texto escrito a oito mãos femininas por Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel e Katie Silberman abre mão de obviedades ao trazer estudantes bem longe dos padrões atuais. Temos desde um jovem asiático, até um homem sensível, passando por uma garota gorda, além de um interesse amoroso e desejo sexual que não é um esportista branco. O filme segue numa crescente e surta totalmente no segundo e terceiro atos, que vão desde o uso de drogas de forma involuntária, até alucinações que desafiam a lógica. Olivia trata suas protagonistas com respeito e naturalidade, nunca esquecendo que elas são mulheres, mas que ainda estão crescendo.

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Mulheres podem se divertir, podem gritar, podem se masturbar e gostar de sexo e também podem chorar quando sentem vontade. Amy e Molly não se importam se serão julgadas (e nem devem) por seus feitos naquela noite, elas só querem viver tudo aquilo que não viveram de forma intensa e um pouco irresponsável. Apesar de sua importância, se engana quem acha que a produção é um discurso ambulante, longe disso, a parte cômica é hilária e sutil ao mesmo tempo, desde piadas com sub-textos até situações insanas. “Fora de Série” faz rir não só pelo desconforto, mas é uma comédia feita para gargalhar, muito pelo seus coadjuvantes em sintonia total com Denver e Feldstein.

Billie Lourd (a filha de Carrie Fisher) inclusive, teve cenas aumentadas por conta de sua divertida e onipresente Gigi, além do riquinho Jared (Skyler Gisondo, de “Santa Clarita Diet”), que prova ser alguém muito além da casca do menino mimado. Aliás, a maioria dos personagens de Booksmart não são superficiais, o que enche de riqueza sequências pontuais como a da festa, desde um mergulho (literalmente) pela frustração de uma das garotas, até a cena de discussão da dupla, forte e sem cortes, bem dirigida e melhor ainda atuada (Alô Oscar 2020!). A trilha sonora também ajuda a contar a história, desde a empolgante Nobody Speaks de DJ Shadow (que também encerra o filme), à melancolia de Unchained Melody na versão de Lykke Li.

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Ao externalizar os anseios mais profundos de parte da geração atual, “Fora de Série” tem tudo para se torna um clássico e particularmente já o considero o “Superbad” desta década, é claro que com as devidas e necessárias atualizações. Empolgante, a comédia é um respiro ao coming of age e traz diálogos precisos sobre drogas e sexualidade, cercada de personagens memoráveis.