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Séries

Crítica: Um final maduro para nossas Desventuras em Série

A conclusão do grande duelo entre Conde Olaf e os Baudelaire...


4 de janeiro de 2019 - 10:24 - Flávio Pizzol

Após um filme de relativo sucesso que não conseguia fazer jus aos treze livros escritos por Lemony Snicket (heterônimo usado pelo americano Daniel Handler), a Netflix adotou a grandiosa saga das Desventuras em Série com a proposta de adaptar a trama em sua completude, dividindo cada livro em dois episódios que funcionariam como filmes a cada ano. A ideia fez sucesso e chegou com fôlego, muita glória e um muito bem-vindo amadurecimento ao seu clímax dramático nessa terceira e última temporada.

No entanto, o principal acerto é abraçar o estilo do livro e reviver a maior parte das características estabelecidas anteriormente, dando justamente a sensação de conclusão que a série precisava ter para saciar a expectativa dos fãs. Então, a terceira temporada de Desventuras em Série passa por lugares e situações novas, como a Gruta Gorgônea, as Montanhas de Mão-Morta e o Hotel Desenlace, mas não deixa que o espírito se perca enquanto o passado vai se revelando, as subtramas vão se juntando e os segredos descobertos.

Dessa forma, independente de qualquer coisa, o visual continua sendo o grande destaque da série, graças a mistura perfeita entre Wes Anderson, um toque de surrealismo e o exagero teatral que permeia todos os elementos. É uma combinação ora grotesca, ora extremamente simpática e melancólica que acompanha a triste história dos órfãos Baudelaire através dos cenários gigantescamente maravilhosos, dos figurinos exuberantes (dignos de Oscar, se estivéssemos falando de cinema), dos efeitos especiais recheados com alguma loucura e até mesmo dos fundos que parecem pintados a mão para contrastar o novo com o velho (relação também presente com muita força no roteiro). E a maneira como tudo isso se conecta é que resulta em cenas que exploram o máximo do estilo e ainda o utilizam como recurso narrativo, como acontece por exemplo nas telas divididas marcadas pelo relógio no quinto episódio.

Ao mesmo tempo, o nível das atuações também estão na lista de coisas que Desventuras em Série consegue manter com louvor, incluindo um Neil Patrick Harris (How I Met your Mother) cada vez mais inspirado como Conde Olaf. E por mais que as crianças sejam as protagonistas da história, ele merece o destaque maior porque rouba a cena e se torna o condutor espiritual da narrativa. É ele que encabeça a forma como a série lida com o humor negro e com música, leva diversão pra tela através das fantasias mais caricatas do planeta, brilha ao interpretar com perfeição um ator muito ruim e ainda apresenta um daqueles vilões cheio de camadas e emoções complexas que amamos odiar. E eu já vou adiantar sem dar nenhum spoiler que tais camadas são ampliadas com algumas doses de emoções reais nessa temporada.

Porém, mesmo sendo complicado chegar aos pés de Neil, é óbvio que os órfãos Baudelaire não ficam pra trás quando o assunto é atuação. Afinal de contas, eles são o centro de boa parte da trama e só tem a ganhar com a evolução de seus personagens após tantos infortúnios e desafios. E Malina Weissman (Supergirl), Louis Hynes (O Santo) e a pequena Presley Smith (destaque total com a linguagem de bebê) conseguem juntar o seu crescimento como atores – algo que os deixam mais confortáveis nos papéis – com o desenvolvimento de Violet, Klaus e Sunny, dando cada vez mais credibilidade para a inteligência, a perspicácia e o humor que cercam suas personalidades.

Por fim, o último grande condutor dessas Desventuras em Série continua sendo o bom e velho narrador-personagem: o próprio Lemony Snicket em carne, osso e pessimismo. Ele continua ditando o tom da narrativa com perfeição, quebrando a quarta parede nos momentos mais inesperados, explicando suas frases com sutileza e servindo como ótima ferramenta, enquanto acaba ganhando mais espaço quando finalmente entra em cena na trama regular. Isso permite que Patrick Warburton (Ted) apresente mais facetas do personagem e cresça ao lado de outros coadjuvantes, incluindo o capanga interpretado por Usman Ally (Suits), a vilã fashionista de Lucy Punch (Cake: Uma Razão para Viver) e a salvadora da pátria encarnada por Allison Williams (Corra!).

Mesmo assim, Lemony ainda é quem mais se destaca desse grupo secundário, porque representa um truque que reflete exatamente a brincadeira metalinguística que o livro escolhe fazer quando cria um narrador tão ativo. De certa forma, ele acaba funcionando como um garoto-propaganda de como roteiro entendeu esse espírito e o desenvolveu com muito louvor, extrapolando as referências e os easter-eggs sem motivo pra existir. Na verdade, a adaptação de Desventuras em Série merece sua atenção exatamente por construir um universo rico e cheio de detalhes com a atenção de quem sabe que tudo precisará ser conectado no final. Nada é aleatório e o terceiro ano faz questão de deixar isso claro através de episódios mais maduros e recheados por um senso de conclusão (acompanhados por certa urgência) muito claro.

Digo isso com certo destaque porque é nesse momento que a série realmente se abre e mostra como tudo foi planejado minuciosamente, incluindo a divisão em atos. A primeira temporada foi pensada para ser uma apresentação brilhante, a segunda funciona como a transição onde os personagens são desenvolvidos e conflitos evoluídos, e a terceira é o final onde todas as pontas são amarradas. E eu sei que muita gente não gostou do segundo ano por conta do caráter passageiro, mas todas as peças posicionadas ali fazem total sentido dentro da estrutura que a temporada assume agora. É justamente essa pegada mais urgente que faz os episódios crescerem com mais fôlego e surpreenderem com a sobriedade como as revelações são tratadas.

O texto ainda mantém alguns toques de surrealismo, canastrice e teatralidade (afinal, essa é a identidade do show), mas eu preciso admitir que a ausência de grandes sequências musicais, a seriedade com que os roteiristas decidem revelar algumas coisas e até mesmo o jeito como eles falam, entre tantas coisas, do amor não só me pegaram desprevenido, como me deixaram mais interessado no que a série tinha pra dizer. No entanto, repito que são mudanças sutis que fazem pleno sentido no todo, ajudam na amarração complexa das peças e direcionam Desventuras em Série para o final completo, emotivo e metalinguístico que ela sempre mereceu.