0

Power é um filme de super-herói que convence graças a realidade, mas não consegue seguir seus próprios conselhos


“Se você pudesse ter um superpoder, qual seria?”

Todo mundo já teve que responder essa pergunta alguma vez na vida. Seja pra si mesmo ou para um amigo. Se você for um interprete de super-herói então, com certeza já respondeu em alguma entrevista.

É uma das perguntas mais clichês do mundo, mas não é isso que importa aqui. O importante é que nós escolhemos a resposta de acordo com nossos desejos mais profundos. Desaparecer para não sofrer bullying, se teletransportar para viajar sem precisar de dinheiro, ter força para enfrentar o valentão da escola e por aí vai…

Agora pense como seria viver num mundo onde você poderia ter um poder, mas em troca não pudesse fazer essa escolha. Um mundo onde responder essa pergunta seria parecido com andar por um corredor com diversos pacotes de brinquedos secretos. Você escolhe um pacote sem saber o que tem dentro e recebe um superpoder de acordo com a combinação do seu DNA.

Power

É possível pegar, dependendo da sorte, um poder bom, ruim ou até mesmo aquele repetido que todo mundo da sala já tem… Você estaria disposto a assumir o risco?

Essa é a premissa por trás de Power. Ou, pelo menos, uma parte considerável da premissa de Power.

Tal dinâmica faz parte da mitologia do filme, funcionando como uma espécie de chamado que posiciona todos os personagens. A trama em si acompanha três pessoas completamente diferentes (Art, Frank e Robin) numa missão cujo objetivo é destruir a empresa nefasta que está testando os tais comprimidos de superpoder em Nova Orleans.

O longa é dirigido pela dupla Henry Joost e Ariel Schulman. O trabalho mais conhecido deles é Nerve – Um Jogo Sem Regras e as similaridades entre os dois projetos me chamaram muita atenção durante a projeção. Seja pelo visual que apela para o futurismo sem sair do presente ou pela maneira como eles lidam com as discussões temáticas propostas pelo roteiro de Mattson Tomlin (um quase novato envolvido com o próximo filme do Batman).

Logo de cara, dá pra perceber que tanto Nerve quanto Power transitam por universos marcados pela tecnologia onde pessoas comuns são controladas por outras que detém o verdadeiro poder (vulgo dinheiro). Mas, acima de tudo, ambos lidam com uma possibilidade de crescimento atrelada a riscos mortais.

Power

Em Nerve, a ideia girava em torno de um jogo em que os participantes cumpriam desafios bizarros por dinheiro. Aqui a ideia é oferecer poderes mais literais. No caso, ser maior, mais rápido ou simplesmente melhor por cinco minutos.

Isso é que o Projeto Power oferece. E, mesmo sabendo que as consequências podem ser mortais, isso é o que todos os personagens querem. Não importando se o objetivo final é ganhar dinheiro, enfrentar o sistema ou salvar um ente querido.

Joost e Schulman acertam na tradução dessa dinâmica pras telas, entregando motivações plausíveis, uma relacionamento interessante entre os personagens e um mundo que se equilibra muito bem entre a fantasia e a realidade. Eu gosto da maneira como os poderes são inseridos nesse universo que, graças a dureza da vida, não abre espaço para caricaturas próximas a Batman e Robin.

Power

É verdade que os vilões genéricos e unidimensionais se aproximam mais do que o necessário da ficção, mas não prejudicam tanto assim a dinâmica. Eles cumpre o papel simbólico de mostrar que vivemos num mundo onde quem tem poder manda.

E é legal notar que esse poder (que também dá nome ao filme, Power) assume significados diferentes durante o longa. É o dinheiro que permite aos “homens de terno” controlarem a polícia e quem mais eles quiserem; o superpoder que o coloca acima das pessoas normais no bem ou no mal; ou, quem sabe, uma versão metafórica onde você usa suas habilidades para seguir em frente.

Pegue isso e use a seu favor. Use seu poder para destruir o sistema.

Por mais que Power seja um grande blockbuster de ação, esse subtexto foi o que mais me agradou. E muito disso é “culpa” de um elenco que, mesmo sem desenvolvimento emocional merecido, dá conta do recado.

É fácil acreditar no amor do Jamie Foxx (Ray) pela filha e embarcar com ele na história, confiando em sua versão quando todo mundo tenta dizer o contrário. E, se você achou que existem similaridades entre esse pensamento e o da Robin, está mais do que certo. Afinal de contas, o papel de Dominique Fishback (O Ódio que Você Semeia) é ser o público dentro da história.

Power

Uma função padronizada que ela executa com talento suficiente pra roubar os holofotes e se afastar dos papéis genéricos que a cercam. Incluindo os vilões – representados pelo Rodrigo Santoro (Westworld), porque é quem mais aparece – e o policial honesto incorporado por Joseph Gordon-Levitt (7500).

Falta carga dramática e camadas em boa parte desses personagens, mas isso caba passando batido durante o filme. O que me incomoda mesmo são os momentos em que Power tenta crescer em tamanho sem se preocupar com a qualidade. Esse é o momento em que ele ignora realidade e quebra a imersão.

Não chega a tirar os pés do chão completamente, porém se apoia em momentos de explosão e grandiosidade que destoam do todo. O bonecão de CGI que acompanha a transformação de um dos traficantes, por exemplo, parece uma gigante de massinha sem expressão.

Power

O mesmo acontece com a sequência que revela o poder de Art. O filme cria suspense acerca desse instante, mas acaba cumprindo apenas uma parte dessa antecipação. Motivo: é um momento poderoso que possui alguma beleza, no entanto não consegue fugir dessa construção visual genérica. É idêntica a outras quinhentas coisas que todos nós já vimos no cinema.

E esse não é o ponto forte de Power. Sua força (pra mim, pelo menos) está na maneira equilibrada com que personagens com superpoderes se chocam com uma realidade sem heróis ingênuos que fazem apenas o bem.

Claro que estamos falando de um blockbuster que precisa de algumas grandes cena de ação pra sair do papel, mas Power poderia fazer isso de um jeito menos megalomaníaco. Esse talvez fosse o caminho pra deixar sua marca em um sistema que foi projetado para mantê-lo preso em certos padrões.

Quando escolhe o caminho da grandiosidade sem peso dramático, Power permite que o público pense que ele mesmo não conseguiu seguir a mensagem do seu protagonista, perdendo a oportunidade de “descobrir o que faz melhor do que os outros e mandar ver“.

o filme Power está disponível na Netflix

Gostou desse conteúdo? Então nos ajude a manter o site vivo entrando para o Odisseia Club. Seja um apoiador da Odisseia e acompanhe tudo sobre filmes, séries, games, músicas e muito mais.

product-image

Power (2020)

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

11 séries sobre amizade disponíveis na HBO GO

Previous article

Glow Up | Saiba tudo sobre a 2ª temporada da série na Netflix

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes