AODISSEIA
Filmes

Critica: Filhos da Esperança (2006)

A primeira incursão de Alfonso Cuarón no mundo da ficção científica.

15 de julho de 2014 - 16:00 - Flávio Pizzol

 

A primeira incursão de Alfonso Cuarón no mundo da ficção científica é um filme seco e pesado, mas, ao mesmo tempo, consegue ser tocante e critico na medida certa. Já podemos até imaginar a maneira como esse filme abriu a mente do diretor mexicano e resultou em Gravidade e um Oscar de Melhor Direção.  Filhos da Esperança se passa em 2027, onde encontramos um mundo à beira do colapso, porque nenhum bebê nasce há 18 anos. A população está envelhecendo, a mão de obra está ficando escassa, a comida está acabando e esse efeito dominó está levando o planeta para o ralo. Tudo pode mudar quando Theo, um homem com muita amargura e pouca fé, é envolvido em uma missão para salvar a única mulher grávida do mundo.

O filme é ambicioso tanto em sua história humanista e globalizada quanto em suas escolhas estéticas. Vamos começar falando do roteiro que é escrito pelo próprio Cuarón junto com Timothy J. Sexton, David Arata (Jogo de Espiões), Mark Fergus e Hawk Ostby (ambos de Homem de Ferro) com base no livro de P.D. James.

Como o filme é uma adaptação parte desse frescor e dessa ambição deve ser atribuída ao autor do livro, mas não podemos deixar de dizer que a transposição é muito bem feita. Eu acho que eu não conseguiria imaginar todos esses problemas acontecendo ao mesmo tempo em um mundo em ruínas, mas a equipe do filme consegue captar com precisão tudo o que precisa ser passado para o público, que vai se deparar com um futuro horripilante, mas muito próximo do nosso. Afinal, as grandes ficções científicas são feitas para espelhar a nossa realidade. Os filmes futuristas foram as maneiras encontradas para criar metáforas em torno do presente que atingissem o público de uma maneira que a informação simples não consegue

Por isso, a grande e única novidade desse planeta registrado por Cuarón é misteriosa infertilidade, que, assim como a epidemia zumbi de The Walking Dead, nunca é explicada. Existem dois motivos principais: 1) os próprios habitantes parecem desconhecer as causas do problema; e 2) o filme não é sobre isso. Assim como a já citada série de zumbi da AMC, o filme não é sobre os problemas biológicos que assolaram o mundo e sim sobre os habitantes que tem que conviver com as consequências apocalípticas. E é essa história mais próxima da humanidade que me aproxima mais desse filme do que de Gravidade.

Assim somos apresentados à história de Theo, Julian e os imigrantes que estão conectados com Kee, a menina grávida, cujo bebê é a esperança da humanidade. O desenrolar dessa teia repleta de boas reviravoltas é guiado por um texto simples e certeiro. O drama, a emoção, a tensão, a ação, as criticas socio-políticas e até as metáforas, recorrentes no texto de Cuarón, encontram seu espaço pontual sem que nada se perca. Observem a genial piada feita pela jovem grávida em relação ao pai da criança. Mesmo com tudo isso, o que chama mais atenção são as escolhas feitas por Alfonso Cuarón.

O principal – e recorrente – aspecto da direção de Cuarón são os longos planos-sequência. Ainda que não tenhamos algo tão grande quanto a abertura de Gravidade, o diretor cria cenas mais do que complexas, recheadas de acontecimentos em segundo plano e que consegue atingir os mesmos efeitos que qualquer cena bem editada. Os planos que envolvem a guerra, como o do clímax, recriam cenas de ação de maneira inovadora gerando até mais tensão e urgência do que a edição veloz que geralmente é utilizada para prender o público na cadeira. Já outros planos, como o do parto, conseguem ser brilhantemente emocionantes sem serem piegas.

Logicamente, vocês já devem ter percebido que sou fanático pela complexidade e genialidade necessária para dirigir um bom plano-sequência, logo fiquei insanamente feliz quando vi essa ideia sendo usada sendo usada em vários momentos, em larga escala e com várias finalidades. Cuarón mostrou que os planos sem cortes podem ser usados para criar tensão, emoção ou qualquer outra coisa que for do desejo do diretor.

Esses planos-sequência, que geralmente seguem o ponto de vista do protagonista, ajudam a mostrar em mínimos detalhes tudo o que acontece nesse mundo caótico, desde a tristeza até a violência iminente. Mas para isso funcionar Cuarón contou com uma cenografia espetacular e uma fotografia pontual que transforma Londres nesse local enevoado, cinzento, triste e frio. Assim vamos vendo o sofrimento de uma população pobre e oprimida que convive com a precariedade, o terrorismo e o fim iminente ao lado de animais soltos na rua.

Ao lado do roteiro, essa cenografia dá um toque especial as criticas feitas no decorrer do filme. A desigualdade social é evidente através de uma espécie de apartheid que separa os “cidadãos” dos imigrantes e o desleixo do governo é mostrado através da insatisfação, da destruição e da utilização de dinheiro para salvar obras de arte amputadas.

Já a fotografia dá seu toque nos movimentos de câmera livres de Cuarón e na paleta de cores que dá o tom melancólico que o filme precisa ter. Observe como o azul gélido que tomou conta do planeta só é abandonada na casa simples e alegre de Jasper. De resto, tudo é caos, tristeza e violência.

Tudo é coroado com atuações bem interessantes que não são perfeitas, mas fazem com que todos os personagens sejam reais e palpáveis em suas jornadas próprias. Logicamente, os melhores exemplos disso são Clive Owen e Clare-Hope Ashitey, respectivamente Theo e Kee, que tem jornadas particulares marcantes. Nele temos o caminho da redenção através da proteção a qualquer custo da garota, que vê uma esperança pessoal de que sua vida pode mudar com o nascimento dessa criança.

Ambos estão muito bem, mas Clive chama a atenção por não chamar a atenção. Toda a construção do personagem é feita em segundo plano, de maneira simples e introspectiva, como o próprio personagem é. Theo é amargurado e desesperançoso com o mundo, mas não expõe isso, preferindo guardar todas as suas mágoas e liberá-las às escondidas. Mas é particularmente interessante acompanhar as mudanças que a jornada causa no personagem bem interpretado por Owen.

Nos coadjuvantes podemos destacar as boas participações de Julianne Moore, Chiwetel Ejiofor, Pam Ferris, Peter Mullan e Michael Caine, que rouba algumas cenas do filme para ele. Sir Michael Caine definitivamente chama a atenção, mas, ao contrário de Theo, Jasper é um personagem aberto, divertido e extravagante. mas o que é mais foda é ver como Caine torna o exercício de atuação ridiculamente fácil, desenvolvendo seu personagem de maneira singular.

Criticas, momentos emocionantes, tensão e um futuro preocupante marcam esse ótimo filme. Tudo isso ainda é acompanhado por uma violência gráfica chocante e planos complexos e belíssimos. Uma história inteligente e humana que ganha contornos de obra de arte nas mãos de Alfonso Cuarón. Sem dúvida merece ser visto o mais rápido possível.