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Filmes

Crítica: Felicidade Por Um Fio – Um romance entre uma mulher e seu cabelo

Netflix traz representatividade ao seu catálogo.

1 de outubro de 2018 - 15:55 - Tiago Soares

Conviver com traumas de infância é uma pauta que ultimamente e felizmente tem ganhado a nossa atenção. A maioria dos nossos pais não fizeram terapia por considerarem “frescura”— e justamente por isso, as vezes — somos nós que precisamos. Felicidade Por Um Fio vai direto no passado de Violet (Sanaa Lathan) e toda sua relação abusiva com a mãe Pauletta (Lynn Whitfield) e seu cabelo.

Sim, o filme é um romance entre Violet e seu cabelo e como isso implica na sua vida pessoal, familiar e profissional. Desde criança ela sofre com a ausência de autoaceitação capilar e isso implica diretamente no modo como ela se relaciona com as outras pessoas. Violet não se diverte, não se entrega totalmente em nada do que faz e está sempre de olho numa possível nuvem chuvosa.

A direção fica por conta de Haifaa Al-Mansour que é segura na maioria das vezes, falhando apenas em já retratar clichês exaustivos, muito por culpa do roteiro de Adam Brooks e Cee Marcellus, baseado na obra de Trisha R. Thomas que eu particularmente já quero ler. Desde já ela brilha numa cena à la Carolina Dieckman em Laços de Família — simplesmente deixando acontecer — tornando-a emocionante.

Nossa protagonista passa por uma crise de identidade e a edição dividida em etapas capilares de sua vida deixa isso muito mais claro, além de visualmente interessante. Ao mesmo tempo em que entra em algumas fórmulas prontas, o filme foge delas — ao retratar uma pessoa quebrada, tentando se reconstruir. Alguém que precisa primeiro se encontrar e ser feliz sozinha, para que possa ser feliz com outras pessoas.

Nesse sentido Felicidade Por Um Fio foge das obviedades e está longe de ser uma produção piegas. Aliás o filme retrata muito bem um cenário machista ao colocar Violet como uma publicitária, num lugar aonde as campanhas se repetem e estão longe de pregar a aceitação, apenas ressaltando padrões pré-estabelecidos com a desculpa de que “não se mexe em time que está ganhando” — bem, se este time for o da busca por mais representatividade — a Netflix começou bem.