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Filmes

Critica: Expresso do Amanhã (2013)


27 de março de 2014 - 12:00 - Flávio Pizzol

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Vítima de mais uma briga entre produtores e diretores por um corte final específico, Expresso do Amanhã, primeiro filme em inglês do ótimo Bong Joon Ho, já teve sua estréia adiada diversas vezes. Eu assisti o corte do diretor na internet e posso dizer que essa é uma das estreias mais esperadas desse ano.

O filme pós-apocalíptico se passa em 2031, dezessete anos depois da realização de uma ação para controlar o aquecimento global que fez com que o planeta congelasse. O únicos sobreviventes estão dentro de um trem chamado Snowpiercer, onde um ricos tem vidas de rei e os pobres vivem na cauda esperando o momento da revolução, liderados por Curtis, um homem com um passado problemático.

Não dá pra explicar muito bem a história do filme sem estragar as muitas reviravoltas que acompanham as 2 horas de filme, mas posso dizer que a história é construída de maneira interessante e original. O espectador se sente na pele dos mais necessitados, comendo barra proteicas (esperem para ver a cena onde descobrimos como estas são produzidas) e vivendo com pouquíssimo espaço.

A HQ francesa “Le Transperceneige”, que deu origem ao filme, é extremamente interessante e Joon Ho, junto com a roteirista Kelly Masterson, é muito feliz na transposição quase perfeita. As criticas que vão surgindo por causa da segregação social são incríveis e fazem o espectador parar para pensar enquanto curte um ótimo filme de ação.

A construção dos personagens também é muito importante, já que todas as características mostradas anteriormente vão ser reunidas no último ato do filme, que ainda tem uma ótima reviravolta em torno de Curtis. É por isso que o diretor e os atores compraram briga com o todo poderoso Harvey Weistein, que quer cortar cerca de 20 minutos de filme para lançar nas Américas, por que, segundo ele, o público não seria capaz de entender muita coisa do filme. A mutilação seria feita principalmente nas partes de desenvolvimento do elenco coreano, mesmo que um desses seja um dos personagens principais do filme.

O único problema do filme é que ele enfraquece no finalzinho da projeção. Até Curtis contar sua história para Nam, o filme funciona, mas perde força no confronto entre o revolucionário e o tão comentado Wilford, sendo que esse seria o momento para a história crescer. Os diálogos existentes nesse ponto da trama reforçam as criticam expostas e até chocam, mas, infelizmente, não correspondem a atmosfera de suspense criada em torno desse encontro.

A direção de Bong também merece destaque. Munido de ótimos diretores de arte e editores, o coreano cria cenas de ação bem produzidas e impactantes, com destaque para a cena da briga no túnel, onde ele usa uma câmera em primeira pessoa que prende o público na cadeira. São cenas de ação estilizadas, como é normal no cinema asiático, que vão seguindo o caminho dos vagões, como se seguíssemos Dante em sua viagem para o inferno  ou jogássemos um jogo com fases distintas recheadas de ação.

É interessante como Bong separa as classes com sua direção. O inicio se passa quase totalmente na cauda e a câmera do diretor acompanha os mais necessitados e sua história com uma proximidade incrível, para afastar-se no decorrer do filme, enquanto nos aproximamos do condutor do trem. Observe como sua câmera não repousa nos ricos que estão cuidando dos cabelos ou fazendo tratamentos dentários e nem se preocupa em conhecer a história dessas pessoas. Nunca nos é mostrado o passado de Mason, por exemplo.

O elenco merece destaque pela quantidade de estrelas que Joon Ho conseguiu reunir para sua primeira empreitada internacional – vulgo falada em inglês. Temos Chris Evans, Tilda Swinton, Jamie Bell, Ed Harris e John Hurt, além do eterno colaborador de Bong, Kang-ho Song.

Chris Evans, Jamie Bell e Kang-ho , os protagonistas, tem mais destaque nas cenas de ação, mas não decepcionam nos momentos mais introvertidos e nas reviravoltas mais intensas. Ed Harris, que faz o já citado Wilford, tem um personagem interessante, mas que não tem a força necessária para manter o final do filme. M.as isso não é culpa do ator, que não decepciona com o texto que tem em mãos.

Os destaque ficam com os sempre ótimos John Hurt e Tilda Swinton, personagens interessantes em lados opostos da briga. Tilda destrói nos seus discursos para a cauda, revelando, de maneira sórdida, o desprezo que a camada mais rica sente pelo resto da população. Já Hurt não tem tantas cenas, mas marca presença como um personagem dúbio que lidera o povo mais necessitado e serve como um pai para muitos personagens.

Um filme que consegue misturar bons momentos de drama, ação, suspense e criticas sociais, conseguindo vencer a irregularidade do final com uma direção sensacional e uma originalidade interessante que permeia toda a trama. Com certeza merece ser assistido quando chegar ao Brasil, mesmo que seja na versão mutilada do Sr. Weistein.