AODISSEIA
Filmes

Critica: Ex-Machina


21 de dezembro de 2015 - 14:00 - Flávio Pizzol

O poder da manipulação

Em um tempo onde ficar 48 horas sem o Whatsapp gera uma espécie de desespero nacional, assistir um filme com Ex-Machina pode ser tanto esclarecedor quanto perturbador. Afinal de contas, você já parou para pensar até que ponto você deixa a tecnologia controlar a sua própria vida?

Essa é uma das principais perguntas que movimentam a trama desse longa independente que começa com Caleb, um programador avançado, descobrindo que foi o vencedor da loteria realizada na empresa onde ele trabalha. O grande prêmio é passar uma semana na casa totalmente isolada do seu chefe, enquanto ele está testando uma revolucionária tecnologia de inteligência artificial.

E acredite que essa é só a ponta do iceberg de uma ficção científica que usa alguns aspectos futuristas para fazer a sua própria análise do nosso tempo, principalmente na relação estreita que o homem mantém com a tecnologia. O roteiro, escrito pelo iniciante e promissor Alex Garland, explora esse lado de forma segura, responde seus questionamentos iniciais aos poucos e encontra espaço para críticas a nossa dependência e a nossa ingenuidade quando se trata de novas tecnologias.

No entanto, Ex-Machina é muito mais do que uma simples ficção científica. Na verdade, o filme é um suspense extremamente inteligente sobre a paranoia e a manipulação da ciência, da tecnologia e do próprio ser humano. E é exatamente nesse terreno que o roteiro de Garland encontra mais espaço para crescer e adicionar muitas camadas de tensão durante o desenvolvimento do filme.

A maneira como ele constrói, paralelamente, uma espécie de disputa velada entre os dois protagonistas e entre o homem e as máquinas permite que o roteiro divulgue novos detalhes de uma maneira bem homeopática e se sustente através de reviravoltas brilhantemente posicionadas, prendendo assim a atenção do espectador cada vez mais até chegar ao encontro de tudo isso em um clímax poderoso. Infelizmente, o final se alonga um pouquinho mais do que deveria e o momento em que esses confrontos deixam de ser apenas sugestões para ganhar forma tira um pouco da força do que estava sendo desenvolvido, por mais que as resoluções façam total sentido dentro do contexto trabalhado.

Isso só não prejudica o filme, porque Alex Garland também faz um trabalho visual bem interessante como diretor e compensa alguns do seus pequenos tropeços no texto. É muito interessante observar a maneira como ele usa a própria tecnologia para contar algumas partes da história e controla os movimentos de câmera de uma forma calculista para criar um jogo de ilusões cheio de cenas realmente tensas.

Entretanto, o que mais chama atenção nesse trabalho do diretor é a maneira como ele consegue controlar o ritmo do filme, que se desenvolve de uma forma bem lenta sem deixar o público perder o foco. É claro que parte desse mérito, como eu já disse, está em um roteiro que consegue apresentar novidades de forma pontual, mas os movimentos de câmera calculados, o uso dos espelhos, a fotografia, a direção de arte e a edição são muito importantes na hora de dar vida aos cenários e criar as cenas mais intensas.

Além disso, o filme também acerta em cheio na escolha de um elenco pequeno, mas perfeito. Domhnall Gleeson e Oscar Isaac (ambos de Star Wars – O Despertar da Força) usam os diálogos incríveis de Alex Garland para dar vida a dois protagonistas fortes e fazer com que cada conversa entre eles seja cercada por uma tensão sufocante. Também podemos dizer a mesma coisa (e até mais) sobre a ótima Alicia Vikander que interpreta Ava com a mistura perfeita entre mistério, inteligência e sexualidade. São eles que dão voz ao roteiro e colocam o espectador dentro de um jogo onde nunca se sabe quem é o mais inteligente, quem está certo e, principalmente, quem está controlando o tabuleiro.

A união entre esse ótimos trabalhos resulta em um filme tenso, inteligente e muito surpreendente. Ex-Machina tem a incrível capacidade de prender o seu público dentro de uma história forte, usar somente diálogos para criar um clima diferenciado e ainda trazer à tona questionamentos muito importantes para os dias de hoje. Não é perfeito, mas é filmaço que merecia ter tido um reconhecimento maior e um lançamento nos grandes cinemas.

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