AODISSEIA
Séries

Euphoria é a prova de que não podemos fugir da realidade

A tristeza da juventude sem precedentes


6 de agosto de 2019 - 20:07 - Tiago Soares

Nova série da HBO, Euphoria é tudo que outras séries com a temática teen queriam ser: relevante, responsável e com diferentes pontos de vista.

Antes de começar cada episódio, “Euphoria” possui um aviso de gatilho, falando que a série vai tratar de assuntos pesados envolvendo drogas e sexo e ao final, um número é deixado, além de um website, caso alguém precise de ajude. Tamanha responsabilidade não é em vão, já que a série acaba sendo uma viagem profunda e translúcida a mente do jovem (americano), mas que não deixa de ter atitudes parecidas com todos os outros. A nova produção da HBO em parceria com a A24, vai um pouco na contramão de recentes pesquisas americanas que informam que os jovens estão a cada dia mais tímidos, devido o advento da tecnologia e portanto fazem menos sexo e usam menos drogas.

Mas se engana quem acha que isso garante a totalidade, e que todos os lugares e pessoas pensam da mesma forma. A cabeça do jovem é complexa, e talvez por isso a escolha de Sam Levinson em trazer a série para uma cidade pequena dos EUA tenha sido acertada. Fazendo de tudo um mundo particular, aparentemente não existe a megalomania das baladas, shoppings ou horas de trabalho. São adolescentes, no auge do high school, da exploração do seu corpo e do corpo que os interessa, experimentando aquilo que vêem pela frente, sem qualquer espécie de filtro. É claro que os pais são importantíssimos nessa fase da vida, e eles respeitosamente também dão as caras aqui, mesmo que o foco maior seja o drama da maturidade.

Acompanhamos Rue (papel da carreira de Zendaya), uma jovem viciada em drogas, que tinha acabado de sofrer uma overdose (em cena fortíssima), e está voltando da reabilitação. Rue acaba conhecendo Jules, (a excelente Hunter Schafer), uma jovem trans que gosta de transar com desconhecidos, ao mesmo tempo em que sonha em encontrar alguém. Rue acaba se apaixonando por Jules, mas precisa enfrentar as dificuldades de uma relação, a medida que enfrenta as fraquezas de sua vida e também as dela. Paralelo a história de ambas, temos Kat (Barbie Ferreira), que sofre com problemas de peso e acaba dando a volta por cima ao fazer chamadas como cam girl, de forma anônima. Nate (Jacob Elordi), um rapaz egoísta e extremamente prejudicado pela figura paterna Cal (Eric Dane) e a masculinidade tóxica presente em sua vida, carrega o peso de sempre ter que ser o melhor, ao lado da namorada Maddy (Alexa Demie), com quem é extremamente abusivo.

Cassie (Sydney Sweeney), que também faz parte do grupo, cresceu ouvindo que era linda, e viveu com a responsabilidade de ser perfeita em tudo que faz, mesmo que as pessoas ao seu lado fossem lotadas de defeitos. Ela acaba se envolvendo com Mckay (Algee Smith), um jogador de futebol americano em potencial, treinado desde a infância para ser o melhor e não o homem sensível que aparenta ser. Estes jovens e suas apoteóticas realidades são narrados por Rue no começo de cada episódio. Fazendo um paralelo com a adolescência, o visual de Euphoria é repleto de cores vibrantes, maquiagens esvoaçantes e neon – que pode parecer exagerado – mas combina perfeitamente com a intensidade deste período conturbado.

É intenso – tudo parece ser o fim do mundo e a fuga da realidade combina perfeitamente com o drama de cada um. Jovens, ainda no início de suas vidas, mas que já sofreram bastante e precisam arrumar uma saída, por mais estranha e proibida que ela seja. Talvez por isso, texto e direção fujam tanta assim do ideal de veracidade ao colocar Rue e sua amiga Lexi (Maude Apattow), como detetives em busca de solucionar um caso alá Seven, ou Rue e Jules dando uma aula de nudes masculinos, até mesmo o espetacular musical que encerra o primeiro ano.

Euphoria podia muito bem tratar de esteriótipos, já que temos líderes de torcida desejadas, esportistas babacas e outsiders indies conceituais, mais vai além, ao focar cada um de seus episódios em uma dessas pessoas, tornando-as mais profundas e dignas de nossa atenção. Mesmo com outras séries fazendo isso antes (13 Reasons Why, por exemplo), existe um respeito pela figura do personagem, que mais do que um mero pião no tabuleiro, não está servindo a um grande propósito, apesar do protagonismo latente de Zendaya. Sua Rue é sensível, compreensiva, dependente e forte na medida certa. Atrai toda a atenção, e potencializa aqueles ao seu redor. Tem atitudes questionáveis, mas é impossível não sentir empatia por ela, em outras palavras, amaríamos Rue se ela fosse de verdade.

euphoria zendaya

Sam Levinson, showrunner, roteirista e também diretor de cinco dos oito episódios , encontra algo para chamar de seu, e Euphoria navega na sutileza – mesmo extravasando, como no excelente episódio 4 no parque de diversões (o melhor da temporada na minha opinião). Além disso, os outros três episódios não comandados por ele, são dirigidos por mulheres, trazendo a visão feminina e o empoderamento, seja da protagonista ou das meninas ao seu redor. Nos vibrantes oito episódios, há espaço para a discussão de relacionamentos cercados de diferenças, influência da tecnologia, e até um humor nonsense, que fazem com que a série melhore com o passar dos tempo, se tornando um dos produtos audiovisuais mais originais de 2019.


Obs: Euphoria é uma série para maiores de 18 anos.

Obs 2: A trilha sonora da série é magnífica. Inclusive, a música que termina a temporada “All For Us” é um duo entre Labrinth e Zendaya. Ouça!