AODISSEIA
Filmes

Crítica: Eu Não Sou Um Homem Fácil

Uma comédia importante e infelizmente escondida no catálogo da Netflix.

30 de maio de 2018 - 17:28 - Tiago Soares

Um filme tem a primeira função de entreter. Ele é feito pra isso. Quando ultrapassa a barreira do entretenimento, e chega a fase de discussão, ele consegue transpor a primeira barreira. Quando ele incomoda, vai além e quebra uma segunda barreira, fazendo com que a discussão dure, se tornando importante.

Essa é a pegada dessa produção. Ela quer incomodar você, te fazer pensar, e é uma pena que esse filme esteja tão escondido no catálogo da Netflix. A comédia francesa conta a história de Cristophe (Pierre Benezit), um homem bem sucedido e que tem as mulheres aos seus pés. Não tem limites em humilhar ou caçoar dos amigos e nem na arte da sedução, a ponto de abusar físico e psicologicamente de mulheres, é um babaca escroto.

Quando sofre um acidente despretensioso, acorda num mundo dominado por mulheres. Elas estão no poder, seja em cargos maiores no mercado de trabalho, seja na vida sexual. São elas que mandam. Por ser uma comédia, Je ne suis pas un homme facile (no original), te faz rir pelo absurdo, ao mesmo tempo em que implanta na sua mente o quão absurdo é o mundo machista atual.

A primeira sensação é a de estranhamento. Como homem (e não sei se sou suficientemente digno para escrever isso), o sentimento inicial ao ver tudo que acontece é o de incredulidade. Ao permitir que o sentimento de empatia pelas mulheres tome conta – é que vemos o quanto isso, infelizmente, é real – até porque empatia é o máximo que podemos ter, já que nunca seremos e nem sofreremos tal repressão desse modo.

O que paira sobre a produção são momentos divertidos, mas repletos de crítica, tanto a sociedade patriarcal, como a própria aversão ao feminismo (ou masculinismo se tratando do filme), seja dos homens ou das próprias mulheres. Quando há uma subversão de posições, é quando notamos o quanto o mundo foi feito para os homens.

Ao mesmo tempo a diretora e roteirista Eléonore Pourriat, alerta sobre o exagero e a falta de diálogo em ambos os lados da luta, mesmo que na maioria das vezes, essa luta não seja a mesma. O elenco, repleto de nomes não muito conhecidos – está muito bem – com destaque para a Alexandra de Marie-Sophie Ferdane que praticamente entrega dois personagens distintos numa mesma casca.

Eu Não Sou Um Homem Fácil, mostra o qual nocivo é vivermos numa caixinha do nosso mundo particular, não ligando e nem dando importância para causas que já viraram do nosso interesse a muito tempo. É um filme feminista, mas você não precisa ser mulher pra parar, pensar  e evitar aquela piadinha machista no almoço de domingo em família ou na mesa do bar com os amigos.