AODISSEIA
Filmes

Crítica: Estrelas Além do Tempo


6 de fevereiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Superação e boas vibrações na corrida espacial


A relação entre cinema e história existe desde sempre e já resultou em uma infinidade de longas que ocuparam pelo menos uma vaguinha no Oscar. São tantas produções sobre batalhas medievais, invasões ao Vietnã e guerras mundiais que novos pontos de vista podem ser sempre ótimas formas de injetar mais fôlego em cada um desses contextos históricos. Estrelas Além do Tempo (ou Hidden Figures, no original) faz exatamente isso ao explorar uma história muito pouco divulgada e decisiva para o sucesso dos americanos durante a corrida espacial.

O diferencial aqui está justamente nas protagonistas dessa história real: três mulheres negras que enfrentaram todos os preconceitos possíveis, se destacaram em suas respectivas funções dentro da tão poderosa NASA e foram decisivas – do seu próprio jeito- para o sucesso da primeira missão espacial a ver as estrelas de perto e completar uma volta inteira na Terra.

É uma história muito forte e importante que o roteiro de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho) e Allison Schroeder (Meninas Malvadas 2) conduz sem apresentar nenhuma grande novidade narrativa. Ele possui a mesma estrutura básica de todo longa sobre superação, repete os mesmos problemas da narrativa episódica em biografias com muita informação e se contenta em cumprir essas regras. Entretanto, isso não impede que a história ainda seja bem contada e completa dentro do seu contexto.

O desenvolvimento é ágil, os momentos dramáticos estão bem posicionados, o humor funciona como uma zona de escape que mantém a leveza do filme, o preconceito (velado ou descarado) gera muita indignação e a cultura negra aflora em todos os momentos que lidam com a vida pessoal das protagonistas. Inclusive, todas as três possuem arcos bem definidos e promovem, com o seu próprio jeitinho, discursos sobre identidade e persistência que podem ser aplicados hoje nas mesmas palavras. Algumas são um pouquinho bregas (admito…), mas a atualidade e o conteúdo ficam acima disso na maior parte delas.

A direção do mesmo Theodore Melfi também segue a risca a cartilha da simplicidade. Ele sabe como conduzir a história, mas abre mão de qualquer firula ou novidade ao optar por enquadramentos comuns, cortes comuns e diálogos filmados de forma comum. Tudo está posicionado para deixar o filme fluir e, assim como o roteiro, a mensagem ocupar o seu espaço de direito depois de tanto tempo escondida dos livros de história.

Assim como aconteceu na sua estréia na direção em Um Santo Vizinho, ele deixa claro que seu maior talento está na condução de um elenco que realmente mereceu o SAG pelo conjunto da obra. Taraji P. Henson (Person of Interest) possui mais tempo de tela, assume o papel de protagonista e esbanja inteligência como Katherine, enquanto Octavia Spencer (Expresso do Amanhã) e a cantora Janelle Monáe (Moonlight – Sob a Luz do Luar) encontram seu espaço como coadjuvantes e brilham dentro dos objetivos de suas personagens. Inclusive, a última briga muito mais para alcançar os seus direitos e poderia ter muito mais espaço na trama.

Todas elas exalam força, vontade de vencer e persistência de uma forma que a maior parte dos coadjuvantes ficam simplesmente apagados perto das três. Kevin Costner (Dança com Lobos) e Mahershala Ali (Luke Cage) acabam sendo os principais destaques em um grupo que ainda inclui outros talentos como Jim Parsons (The Big Bang Theory), Kirsten Dunst (Homem-Aranha) e Glen Powell (Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge).

Apesar das escolhas simples e clichês, o resultado cumpre a proposta de apresentar essa história desconhecida de uma forma divertida, leve, emocionante e extremamente motivadoraEstrelas Além do Tempo não tem nada demais e seria fácil dizer que sua presença no Oscar pode ser uma verdadeira – e belíssima – resposta ao famigerado Oscar So White, no entanto também é impossível não abraçar uma temática tão necessária, se apaixonar pelo carisma do elenco e sentir um pouquinho das boas vibrações emitidas pela história.


OBS 1: A trilha composta por Pharrell WilliamsHans Zimmer e Benjamin Wallfisch é um deleite a parte!