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Filmes

Estrada Sem Lei – Uma rajada de balas revisionistas

Novo original da Netflix acerta ao dar um novo ponto de vista à icônica história de Bonnie & Clyde.


2 de abril de 2019 - 17:43 - Flávio Pizzol

Responsáveis por inúmeros assaltos e 13 mortes confirmadas, Bonnie Parker e Clyde Barrow ganharam fama durante seu auge no mundo do crime e, desde então, foram representados diversas vezes no cinema ou na televisão, incluindo o clássico “Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas”. Eles são parte considerável de uma passagem histórica batida que acaba de ganhar um novo olhar sob a tutela da Netflix, transformando o pacote num típico faroeste revisionista chamado Estrada Sem Lei. Ou seja, um filme que bebe da fonte de Clint Eastwood (A Mula) para retratar velhos heróis americanos que caem na estrada em busca de um último trabalho, alguma redenção ou qualquer coisa do tipo.

Nesses caso, tais são Frank Hamer e Maney Gault. Dois Texas Rangers aposentados – e super famosos – que são retirados de sua suposta (ou não) vida pacata com o objetivo de parar a dupla de criminosos apaixonados que aterrorizava cidades na mesma intensidade com que deixavam fãs bizarros para trás. Eles recebem uma espécie de carta branca para fazerem o que fosse necessário e começam a refazer as rotas de Bonnie e Clyde com o objetivo de cumprir sua missão, enfrentando lembranças dolorosas e suas próprias limitações no percurso.

Como a personalidade dos protagonistas e as características do longa em si deixam claro desde o início, Estrada Sem Lei não foge da cartilha do gênero. É um road movie motivado por uma perseguição policial que flerta com o drama e a comédia sem fugir dos estilos consagrados justamente nos faroestes revisionistas que ganharam às telas a partir da década de 60. O grande diferencial dele está na maneira como o roteiro escrito por John Fusco (Mar de Fogo) usa essa proposta de “revisar a história” para explorar um novo ponto de vista, dando voz aos caçadores com intuito de falar sobre traumas ou, pelo menos, criar camadas diferentes em uma trama onde bem e mal não estão necessariamente divididos dentro das perspectivas clássicas. Por sinal, outra característica recorrente em filmes tratados como revisionistas…

Isso faz com que, mesmo sem surpreender dentro do subgênero em que encontra abrigo, a produção consiga entregar uma abordagem diferente para um período que já foi revisitado inúmeras vezes sob a ótica do casal de assassinos que mexeu com os EUA. Dessa vez, o que temos aqui não é uma biografia deles ou sequer um filme sobre a perseguição, visto que as cenas de ação são escassas e os supostos “vilões” mal mostram seus rostos até o final. Estrada Sem Lei é, sem nenhuma dúvida, um filme sobre os dois ex-policiais e a própria missão não passa de um mero gatilho para trazer à tona essa trama sobre pessoas amarguradas e solitárias que precisam conviver com suas decisões do passado.

A direção de John Lee Hancock (Um Sonho Possível) segue a mesma cartilha em comunhão com a proposta do longa, contando principalmente com um ótimo timing por trás das câmeras. Entre as boas escolhas que mais se destacam está um ritmo moroso que quase “obriga” o espectador a acompanhar os diálogos banais que constroem os protagonistas e suas motivações, enquanto contribui efetivamente com o estabelecimento contemplativo dessa sensação de demora, peso, solidão, afastamento que aumenta cada vez mais a necessidade que ambos sentem de concluir a missão custe o que custar. É um trabalho louvável de tensão e drama crescentes que, apesar do uso incomum, se encaixa perfeitamente com a história que o longa quer contar.

Infelizmente, por mais inteirado que Fusco e Hancock estejam com o tema, Estrada Sem Lei ainda apresenta alguns problemas de inchaço. É um longa se estende mais do que o necessário graças a uma porção de personagens secundários que são apenas pontos de partida para subtramas que não levam a lugar nenhum. A governadora, por exemplo, manda um dos seus agentes ficar na cola dos protagonistas para roubar sua glória por motivos políticos, mas isso resulta em um único confronto até ser esquecido completamente com menos de uma hora de projeção. Depois, Lee Simmons (outro dos personagens em posição de poder) sugere que não pode mais proteger eles, porém a história continua com tal senso de perigo sendo um alarme falso que sequer precisaria ter sido citado. São pequenas sequências que vão superlotando o filme com coisas que poderiam ser retiradas para lapidar a narrativa, enxugar um desenvolvimento que já se apropria de um ritmo que muitos considerariam lento.

Além disso, esse pouco cuidado com as sobras do texto faz com que os já citados coadjuvantes sofram com seus textos fracos e pouco efetivos. Kathy Bates (Feud), por exemplo, até descola uma boa cena como a governadora, mas está bastante abaixo do que poderia fazer. E o mesmo merece ser dito sobre os competentes John Carroll Lynch (Fome de Poder) e Thomas Mann (Kong: A Ilha da Caveira). Esse último, inclusive, fica mais tempo servindo como fonte de didatismo do que como alguém que de fato influencia a trama com seus arcos. Talvez o único secundário que tem o direito de ser salvo nesse contexto é William Sadler (Homem de Ferro 3), considerando o fato de que sua única cena é um diálogo memorável que não só entra na lista de melhores momentos do filme, como também ajuda na ideia de nublar as linhas que dividem heróis e vilões.

Por outro lado, os protagonistas realmente tem espaço, tempo de tela e um bom texto para entregarem o desenvolvimento que um filme sobre os dois precisa para funcionar. Com isso em mãos, Kevin Costner (Dança com Lobos) e Woody Harrelson (Três Anúncios para um Crime) assumem de maneira eficiente seus postos como homens da lei velhos, cansados e traumatizados que acreditam, não ter outra opção a não ser partir para a missão em questão. Harrelson pode acaba se destacando graças a pinceladas que remetem a depressão de Maney, mas a verdade é que ambos tem química e talento suficiente para carregar esses personagens que são contidos por natureza.

Fora que eles também são ótimos fios condutores para uma produção que, apesar das linhas narrativas desnecessárias, encontra um final que consegue impactar até mesmo que já conhece as imagens reais tanto da emboscada, quanto dos velórios de Bonnie e Clyde. Sem dúvida nenhuma, um final digno de um faroeste revisionista. É verdade que o ritmo um tanto quanto atípico e a exaltação de policiais que matam sem dó podem afastar algumas pessoas do longa, mas, como obra cinematográfica, Estrada Sem Lei acerta na construção desse ponto de vista guiado pelos policiais, apresenta personagens sólidos e termina com mais acertos do que erros. Uma aposta válida da Netflix…