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Séries

Crítica: Escape at Dannemora – Uma Fuga Imperdível

Minissérie é uma mistura certeira de drama, tensão e manipulação.

13 de fevereiro de 2019 - 20:28 - Flávio Pizzol

Não sei se todo mundo para pra pensar nisso quando pega o controle remoto, mas é incrível como o investimento em produtos audiovisuais para a televisão (pode incluir o streaming nessa conta) cresceu assustadoramente nos últimos anos. Orçamentos cada vez maiores, envolvimento de nomes consagrados da indústria por trás das câmeras, contratação de atores de calibre e um visual muito próximo daquele que podemos encontrar nas telonas. Um movimento sem fim aparente que ganhou mais um nome expressivo com nova produção da Showtime: Escape at Dannemora.

Baseada em fatos reais, a minissérie de sete episódios acompanha a saga de dois presos que fogem de uma penitenciária nos arredores de Nova York com a ajuda de uma funcionária com quem trocavam cartas, presentes e outras coisas a mais. Os meses de manipulação e trabalho árduo de Richard Matt e David Sweat resultaram tanto em uma longa caçada pelas florestas da região, quanto na revelação de um esquema de corrupção e privilégios que ditava as regras em Dannemora.

Considerando que a série aproveita elementos muito parecidos com os de Um Sonho de Liberdade e outras produções sobre o sistema prisional, ninguém pode negar que Escape at Dannemora não tem a premissa mais inédita do mundo. No entanto, a proximidade com outras histórias não significa que os roteiros escritos pelos criadores do projeto Brett Johnson (Mad Men) e Michael Tolkin (O Jogador) ao lado de Jerry Stahl (Bad Boys II) possam ser ignorados. Muito pelo contrário, visto que eles acertam no tom da narrativa, deixam sua marcar no ritmo dos episódios, apresentam algumas ideias muito boas em relação ao tempo da trama e, logicamente, tem uma participação muito importante na evolução dos personagens.

Ainda assim, mesmo chamando muita atenção, nenhum dos elementos tem força suficiente pra fazer com a minissérie seja de fato surpreendente. E você pode começar sem esperar nenhuma grande reviravolta, porque a própria série vai prender sua atenção instantaneamente e mostrar que seu valor está muito além disso. O valor dela está na minúcia de como os prisioneiros são tratados, no desenvolvimento de vários ciclos de manipulação, nas particularidades de cada pessoa envolvida na história e na maneira como toda a parte técnica trata esses detalhes com cuidado. O truque aqui é apreciar uma história que ganha mais força a cada episódio, enquanto tudo o que cerca a narrativa vai compensando a simplicidade da história.

E, dentro disso, a direção comandada por um Ben Stiller (Trovão Tropical e A Vida Secreta de Walter Mitty) totalmente fora da sua zona de conforto é um dos aspectos que mais chamam atenção. Ele surpreende ao demonstrar ter muita maturidade na construção de sequências que se dividem entre o drama e atenção, usando um catálogo de enquadramentos e movimentos de câmera muito bem orquestrados pela fotografia de Jessica Lee Gagné (Doce Virginia). Entre os melhores momentos de Escape at Dannemora estão desde o contraste criado pelo uso de planos muito abertos combinados com o áudio próximo e até praticamente todo o trabalho realizado no quinto episódio. Nesse caso, tudo que o público precisa fazer é se deleitar com um show de planos-sequência que apresentam o espaço pouco antes da fuga, marcam o tempo com realismo e aproveitam o máximo do suspense.

No meio disso tudo, também se destacam a edição inventiva e a trilha sonora completamente inesperada. O primeiro aspecto – dividido por Geoffrey Richman (Cavaleiro de Copas) e Malcolm Jamieson (Marco Polo) – tem uma importância gigantesca nessa questão do tempo narrativo que já foi citada algumas vez, enquanto a música pode ser um fator decisivo na relação do espectador com a história justamente por fugir dos clichês mais do que o próprio texto. Afinal de contas, o padrão sonoro de filmes ou séries ambientados em cadeias está entre o rock, o hip hop e as melodias instrumentais que acompanham  drama mais pesado. Tudo isso tem seu lugar em Escape at Dannemora, mas o truque está na maneira como diversos momentos da trama acabam usando (e muito bem) a música pop dessa última década como tema, indo de Ed Sheeran até Nick Jonas sem nenhum filtro.

E, acima de tudo, essa grande quantidade de acertos serve como suporte para os ótimos personagens e seus interpretes ainda melhores. Tanto protagonistas quanto coadjuvantes possuem características marcantes, arcos que chamam a atenção e, pelo menos, um ou dois momentos de destaque, ganhando força na evolução que a trama gera neles. Dentro disso, o destaque vai para a frieza de Benicio Del Toro (Star Wars: Os Últimos Jedi), o carisma ingênuo que faz qualquer um torcer por Paul Dano (Okja), os trejeitos manipulados de Eric Lange (Narcos) e a montanha-russa de emoções que dá vida ao trabalho de Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude). Ela, inclusive, abriu mão da vaidade pra dar vida a essa mulher manipuladora que acaba sendo manipulada quando acha que está no controle, mostrando que merece todos os prêmios recebidos desde a primeira cena.

O resultado é simplesmente imperdível. Uma fuga de prisão clássica e comum que ganha muito com o texto certeiro, a direção madura, a trilha incomum e os personagens completamente acinzentados. Ninguém é simplesmente bom ou mal, culpado ou vítima, nessa parte da cidade e a mistura de “tonalidades” só prende o espectador cada vez mais em uma trama que, mesmo sem grandes viradas, está entre as mais hipnotizantes dos últimos anos. Escape at Dannemora é, sem dúvida nenhuma, uma grata surpresa dessa temporada de premiações que não merece ser esquecida na sua lista de próximos.