AODISSEIA
Filmes

Era Uma Vez em Hollywood é uma deliciosa viagem pelo cinema

Um passeio verdadeiramente tarantinesco pelos bastidores da indústria...


17 de agosto de 2019 - 01:50 - Flávio Pizzol

Um tour estrelar e “tarantinesco” por sets de filmagem, bairros famosos e fatos históricos que marcaram um época… Essa é a alma de Era Uma Vez em Hollywood.


Como falei nesse texto sobre a estética tarantinesca, Quentin Tarantino já alcançou o status de lenda do cinema graças a sua identidade própria, aos clássicos instantâneos e a mitologia criada em torno de sua aposentadoria – adiantada – após um futuro décimo filme. A contagem dessa filmografia continua um pouco confusa, mas, caso a promessa seja verdadeira, cada filme lançado pode ser visto como uma pequena carta de despedida direcionada a tudo que o formou artisticamente. Dentro disso, Era Uma Vez em Hollywood acerta ao escolher a sétima arte como palco para uma das homenagens mais amorosas e divertidas que Tarantino poderia fazer.

Para isso, o diretor e roteirista viaja até o finalzinho da década de 60 para contar a história do possível fim da carreira de Rick Dalton e seu dublê Cliff Booth. Abalados com tal queda, ambos vagueiam pelas ruas da cidade em meio a compromissos, sets de filmagens, lembranças e personalidades como Bruce Lee, Charles Manson e uma jovem estrela de cinema que ficaria marcada por ser vítima de um dos casos de homicídio mais brutais do mundo.

Para a surpresa de um total de zero pessoas, esse é o cenário perfeito para Era Uma Vez em Hollywood ser um típico filme de Tarantino. Isso significa que, mesmo passando longe de ser o melhor trabalho do diretor, o longa não falha na hora de completar o bingo de características que compõem a citada estética tarantinesca. Ou seja: é uma produção – incluindo roteiro e direção – cheia de histórias paralelas, quebras narrativas (algumas funcionam, outras nem tanto), diálogos marcantes, ângulos inventivos, personagens complexos, canções escolhidas a dedo, sequências de pura violência gráfica, misturas de gêneros e inúmeras referências à cultura pop. Tudo que os fãs esperam alguns anos para rever na telona a cada lançamento.

Dito isso, a principal diferença desse filme está na maneira como ele escolhe retratar o cotidiano com mais proximidade que o normal. Ao contrário dos outros filmes do diretor, tanto o texto quanto a câmera acompanham, propositalmente, o dia-a-dia dos personagens através de uma narrativa que não parece estar contando uma história com começo, meio e fim. Uma decisão que pode incomodar muita gente por apostar numa dinâmica mais lenta, solta e consideravelmente incomum que, de certa forma, se aproxima do ritmo divisivo de Os Oito Odiados. Apesar desse combustível para reclamações, a ideia encontra sim abrigo na proposta sessentista do longa, conquistando principalmente os verdadeiros apaixonados por cinema em geral. Afinal, esse é o momento que o diretor usa para mergulhar – como nunca pode fazer antes – em uma viagem metalinguística que reúne citações diretas, visita aos bastidores que funcionam quase como uma aula de cinema, críticas à própria industria e até uma espécie de autoparódia que deve mexer com os espectador mais atentos.

Entretanto, em tempos de 8 ou 80, vale deixar claro que defender os caminhos escolhidos pelo filme não anula uma série de escorregões que não costumam fazer parte dos filmes de Tarantino. É o caso aqui de uma narração in off completamente redundante que surge apenas começo do terceiro ato, algumas barrigas desnecessárias que incham o segundo ato do filme e, no mínimo, uma mudança de foco que que pode afastar o espectador do processo de imersão promovido pelo filme. Uma trinca de coisas que só não incomoda mais porque, mesmo não parecendo, todos os elementos apresentados aqui servem a um propósito muito específico: pavimentar a estrada que leva Era Uma Vez em Hollywood para dois momentos de pura genialidade. O primeiro pode ser classificado como um exemplo do que seria ver Tarantino comandando um filme de terror que explorasse a tensão presente em locais afastados e misteriosos. Já o segundo é aquele bom e velho final de filme onde ele permite que o barril de pólvora exploda da maneira mais tarantinesca possível.

Inclusive, deixando de lado as vísceras e os jatos de sangue, essa é a sequência que entrega um outro diferencial do longa: ser uma produção revisionista. Isso significa que, mesmo com a teatralidade de Oito Odiados impressa no seu ritmo, o conceito de Era Uma Vez em Hollywood se aproxima muito mais de Bastardos Inglórios e sua ânsia de “brincar” com fatos históricos. É um filme que flerta com a possibilidade de mudar algo marcado na história e o final é justamente o momento onde Tarantino pega os fatos, joga no liquidificador com sua identidade e gera algo novo (e original) que certamente pega o espectador desprevenido.

Não cabe a mim dizer nesse texto do que se trata esse revisionismo (como eu vi muita gente idiota fazendo em críticas antecipadas), mas colocar esse elemento na mesa ajuda a justificar alguns pontos que podem enganar dentro do filme. É claro que o longa tem muita coisa relacionada aos bastidores da indústria, passa pela história da Sharon Tate e mais um monte de coisa presente nos trailers, mas vale ressaltar que muitos desses elementos podem surgir de maneiras inesperadas. Uma situação que se reflete, por exemplo, no ótimo trabalho da Margot Robbie (O Lobo de Wall Street) e suas poucas falas que geraram tanta polêmica antes do lançamento. Não posso negar que ela realmente fala pouco, mas isso não significa que a personagem é uma protagonista proibida de falar ou qualquer coisa do tipo. O filme não é uma biografia da atriz, logo não existe problema no fato dela ser uma coadjuvante de luxo que aparece pontualmente e possui basicamente uma grande cena de homenagem onde qualquer diálogo seria quase um desrespeito.

Seus outros momentos estão ali para compor o cenário midiático da época, desviar a atenção do público e movimentar a história dos dois verdadeiros protagonistas de Era Uma Vez em Hollywood. E, nesse caso, o filme completa a escalação certeira de Robbie com um time dos sonhos que inclui Leonardo DiCaprio (O Regresso) brilhando em uma paródia de si mesmo, Brad Pitt (Deadpool 2) aproveitando que interpreta – ironicamente – um dublê em foco para roubar os holofotes com sua presença de cena absurda, uma cachorra extremamente talentosa que mexe com o coração de qualquer indivíduo e algumas participações menores de nomes como Al Pacino (Não Olhe para Trás), Emile Hirsch (Killer Joe), Margaret Qualley (Dois Caras Legais), Timothy Olyphant (Santa Clarita Diet), Julia Butters (Transparent), Bruce Dern (Nebraska), Maya Hawke (Stranger Things), Kurt Russell (Velozes & Furiosos 8), Michael Madsen (Cães de Aluguel) e um irreconhecível Damian Lewis (Billions).

Eles seguram a peteca dentro de um filme que talvez não tenha o impacto que as pessoas esperavam. Não posso afirmar se isso é necessariamente bom ou ruim, mas posso garantir uma coisa: Era Uma Vez em Hollywood é um longa original e maduro que destoa positivamente do restante da carreira de seu realizador, porém não tem aquela energia insana que fazia os fãs saírem vibrando do cinema. Eu comprei a pegada desde o início e enxerguei tudo como algo coerente em relação a proposta de uma produção que, acima de tudo, oferece doses gigantescas de diversão, fala sobre muita coisa nas entrelinhas, subverte expectativas com uma maestria que poucos estão preparados para aceitar e entrega muito mais do que poderíamos esperar de uma obra onde Quentin Tarantino pode usar toda a sua bagagem cinéfila como combustível de um belíssimo lança-chamas.


OBS 1: Uma frase de pura apreciação por Brandy, a maravilhosa cachorra de Cliff Booth!