AODISSEIA
Filmes

Crítica: Em Pedaços (In the Fade)

Perda, justiça, xenofobia, terrorismo e vingança em um filme só

16 de março de 2018 - 14:27 - Flávio Pizzol

O que uma mãe faria se perdesse toda a sua família de uma hora pra outra? E se tudo isso acontecesse em um brutal ataque terrorista com raízes nazistas? E se, pra piorar, os culpados fossem inocentados e ganhassem a chance de aproveitar algo que ela nunca mais poderia experimentar? Essas são algumas das perguntas que constroem a trama dolorosa do alemão Em Pedaços, o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro desse ano.

A história, como já é possível sacar desde a introdução, acompanha Katja Sekerci, uma mulher que perde o marido e o filho de seis anos quando uma bomba explode na frente do escritório que ele comandava. A partir daí, seu mundo vira de cabeça pra baixo enquanto enfrenta o luto, as acusações injustas da polícia, os olhares tortos e um julgamento parcial que tem tudo para levá-la ao limite da vingança.

E não pense que eu estou dando algum spoiler ao falar tudo isso: a trama realmente passa por todos esses estágios citados, mas a narrativa apresenta muito mais uma produção que não merece ser classificada como um mero drama sobre perdas ou um típico suspense de vingança. Na minha opinião, o mais justo seria dizer que o brilhante roteiro de Fatih Akin (Nova York, Eu te Amo) e Hark Bohm tem o objetivo – plenamente cumprido – de criar um estudo de personagem em cima dessa mulher que perde tudo, encara momentos de sofrimento extremos e, dentro disso, precisa fazer escolhas complicadas.

É exatamente por isso que o longa depende tanto da atuação avassaladora de Diane Kruger (Bastardos Inglórios). A câmera está sempre colada nela, trabalhando com close-ups sufocantes e esperando sua reação aos sofrimentos propostos pelo cenário, e o fato dela responder com tanta precisão e emoção é o motivo para o prêmio ser notoriamente merecido. É incrível como essa mulher transmite emoções que eu sequer conhecia apenas com o corpo ou o olhar, fazendo inclusive algumas linhas de diálogos soarem desnecessárias. Ela só precisa aparecer em cena pro espectador entender o que Katja está sentindo, resultando em cenas como seu primeiro encontro – amoroso e, ao mesmo tempo, desesperador – com o sobrinho recém-nascido.

Pra completar, Faith Akin se consagra aqui como um dos melhores diretores europeus do último ano. Ele transita com habilidade entre os tons propostos pela sugestiva divisão em capítulos, apresenta personagem uma eficiência absurda (observem como o garotinho e o pai criam conexões com a platéia em menos de cinco minutos), utiliza enquadramentos inusitados como forma de externalizar os sentimentos de sua protagonista, dita um ritmo extremamente preciso e, acima de tudo, amarra todas as suas ideias através das escolhas visuais firmes. Nada está ali por acaso (inclusive nos vídeos amadores da família) e a maneira como Akin decide conduzir sua história é decisiva para o funcionamento do mesmo.

A câmera tremida, as lentes desfocadas, o silêncio que atravessa todo o primeiro ato de maneira feroz e até mesmo o rock n’roll que explode as caixas de som quando a raiva de Katja atinge seu extremo: tudo está ali por um motivo, trabalhando em prol da evolução da história e das mensagens que precisam ser transmitidas. E, sem cair em clichês desnecessários e caricaturas, Faith ainda tem o prazer de inserir tudo isso dentro de vários gêneros – do drama de tribunal ao suspense de ação – que atravessam seu próprio roteiro a cada transição mais “tarantinesca”.

Além disso, ele faz questão de deixar claro que está contando uma história extremamente pessoal e reconhecível para um turco que, assim como os protagonistas, nasceu e mora em Hamburgo. Ao escolher falar sobre xenofobia em um momento onde a discussão sobre refugiados e imigrantes está pegando fogo, ele entrega uma obra-prima necessária e poderosa que captura os dilemas da sociedade alemã e as dores de uma mãe como poucas obras conseguiram fazer. E, antes que eu me esqueça, o final de Em Pedaços também tem potencial para esmagar o coração do espectador e deixar toda a sala no mais completo e doloroso silêncio.


OBS 1: Esse filme foi assistido pela primeira vez no 58º Festival Internacional de Cartagena.