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O cinema em sua forma menos sutil


Cartaz_Em-nome-da-lei Já estou mais do que cansado de começar esses textos falando sobre o quanto o cinema brasileiro é repetitivo e estagnado, então que tal falar sobre as tentativas de mudar um pouco a cara do cinema nacional? Novos projetos realizados sob as perspectivas do chamado cinema de gênero estão surgindo com cada vez mais frequência, mas cada nova oportunidade deixa claro que falta muito chão para mudarmos esse status. Inclusive, um pouquinho de sutileza.

Inspirado na história real do juiz Odilon de Oliveira, o filme segue Vítor, um jovem juiz federal (Mateus Solano) que aproveita uma oportunidade de mostrar seus serviços e ideais em uma pequena cidade de divisa comandada por um chefão do tráfico (Chico Díaz). Ao lado de uma promotora (Paolla Oliveira) e de um delegado da Polícia Federal (Eduardo Galvão) que já atuam na região há mais tempo, ele demonstra ter muita força de vontade e conhecimento até perceber que colocar isso em prática naquele local é outra história.

Se pararmos pra pensar, o longa possui uma história interessante e foi lançado em um momento propicio onde juízes são donos de manchetes todos os dias, mas nada disso consegue salvar o péssimo roteiro de Sergio Rezende e Rafael Dragaud. O texto é fraco, o desenvolvimento é apressado e recheado de clichês, os diálogos beiram o ridículo, o romance principal é extremamente forçado, a maior parte das tramas paralelas não adicionam nada ao todo, os flashbacks entram na hora errada, o humor involuntário arranca risadas onde não deveria e tudo isso ainda desemboca em uma mudança de gênero brusca e bizarra nos minutos finais.

É um roteiro cercado de problemas que desperdiça quase tudo que propõe e mesmo assim piora tudo quando esbarra no didatismo e na falta de sutileza que já foi citada ali em cima. Por conta da clara necessidade de falar muita coisa em pouco tempo, o filme acaba optando por sempre ir direto ao que interessa, mas faz isso do jeito mais errado possível. A ânsia de explicar tudo faz com que o texto não deixe nenhuma margem para interpretação do público, queima as motivações de cada um ali e ainda jogue as discussões sobre justiça e corrupção para o segundo plano.

E, ao meu ver, esse é o maior problema do filme, porque também atrapalha (e muito) o bom elenco que tem que lidar com personagens unidimensionais, diálogos fracos e arcos que não levam a lugar nenhum. Mateus Solano está extremamente caricato, inseguro e apoiado em caguetes que não fazem sentido, Paolla Oliveira só existe para fazer o par romântico ameaçado, Eduardo Galvão não faz nada demais, Sílvio Guidane é desperdiçado em uma trama paralela ruim, Gustavo Nader se assume como o alívio cômico que conquista a platéia pelos motivos errados e Emílio Dantas fica preso à figura de um vilão sem nenhum peso. O mexicano Chico Díaz é o único que se salva desse desastre e criar sua mistura latina entre Al Capone e Pablo Escobar para entregar um vilão de peso com um final horrível.

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Apesar de ter vários problemas e se apoiar em uma direção de fotografia falha, a direção do veterano Sergio Rezende (responsável por grandes filmes, como O Sonho não Acabou, O Homem da Capa Preta, Guerra de Canudos e Zuzu Angel) também não merece ser completamente jogada no lixo. Ele escolhe alguns ângulos interessantes e conduz algumas sequências com altivez, mas permite que o longa continue errando na sutileza quando utiliza os cortes mais óbvios possíveis para, por exemplo, traçar os futuros relacionamentos na primeira oportunidade. É uma atitude um tanto quanto preguiçosa que também se reflete nas cenas de ação sem energia e muito senso de localização.

O resultado de tudo isso, obviamente, é desastroso. Em Nome da Lei erra na construção de todo o seu roteiro, desperdiça uma história que poderia funcionar na telona, não consegue prender a atenção do espectador por muito tempo e ainda se presta ao favor de encerrar tudo entre uma lição de moral e uma cena cafona de romance. É o tipo de filme que faz com que eu volte a ter um pouquinho de vergonha do cinema nacional, pense em como os longas argentinos evoluíram nos últimos anos e, principalmente, fique me perguntando porque eu ainda pago para ver certos filmes brasileiros no cinema.


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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1 Comment

  1. […] Um filme brasileiro de “gênero” que se apoia em um roteiro sem sutileza nenhuma, que desperdiça vários conceitos supostamente interessante e desenvolve tramas paralelas sem função nenhuma. Um grandioso problema que atrapalha um diretor talentoso, um elenco recheado de estrelas e uma boa premissa de resultar em um produto de qualidade. Corram para as colinas e não vejam esse filme! Só a crítica aqui. […]

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