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Filmes

Crítica: Dumbo – Um voo repleto de magia e emoção

Adaptação live-action joga no seguro, mas acerta na expansão divertida da história original


29 de março de 2019 - 05:05 - Flávio Pizzol

Todo mundo já está cansado de saber que a Disney tem investido pesado nas adaptações live-action dos seus clássicos animados, buscando tanto atualizá-los para o nosso tempo, quanto encontrar novas gerações de fãs. Uma tática de revisitação que tem conquistado público, crítica e bilheterias com folga suficiente para justificar, por exemplo, o lançamento de três produções do tipo somente em 2019. E a primeira dessas investidas ser a versão de um dos trabalhos mais antigos do estúdio é mais do que justo, visto que, mesmo sendo reconhecida até hoje, a história emocionante e mágica de Dumbo merecia sim alcançar um público ainda maior.

A trama segue os mesmos passos da animação lançada em 1941: um elefantinho que nasceu com com orelhas gigantes é tratado como uma aberração da natureza até mostrar ao mundo que tal “deficiência” o permite voar. A partir daí, Dumbo encontra conforto na ajuda de uma família humana, luta contra a discriminação das pessoas que só querem se aproveitar do seu potencial midiático e reúne forças para reencontrar sua mãe após uma separação dolorosa.

Como a premissa do novo longa aproveita o potencial da versão clássica sem grandes surpresas, o maior desafio deste roteiro acaba sendo expandir uma trama simples e direta – que possuía pouco mais de 60 minutos – para esse formato mais “tecnológico” e consideravelmente longo. Mesmo sem assumir nenhum grande risco, o texto comandado por Ehren Kruger (dono de um filmografia duvidosa que inclui vários filmes da saga Transformers) abraça e cumpre tal objetivo com louvor, acertando em cheio na construção de relacionamentos honestos e na maneira incomum como distribui pequenos arcos para quase todos os personagens.

Um caminho narrativo bastante rico que não só oferece mais desafios para o personagem-título, como explora, através dos protagonistas humanos, temáticas mais complexas que envolvem família, guerra, traumas e os lados nada mágicos do entretenimento. A encheção de linguiça e o melodrama contidos na proposta inevitavelmente passam um pouquinho do limite em algumas sequências, mas é impossível negar – com alguma surpresa – que as várias subtramas funcionam na maior parte do tempo como peças importantes para o desenvolvimento do próprio Dumbo e do background como um todo. A mensagem de aceitação, por exemplo, deixa o foco nos animais para se espalhar por todos os cantos da trama.

Mas não se engane: por mais que o tempo de tela dos humanos seja bem grande, o elefantinho continua sendo a força motriz do longa graças tanto ao jeito eficiente como o texto trabalha sua fofura e determinação, quanto a concepção visual quase perfeita do personagem. Mais do que isso, a maneira como o design equilibra o realismo do animal e o traço mais leve que obviamente percorre seus movimentos estabanados, suas orelhas e suas feições é decisiva para a conexão do público com a produção. Dumbo é o coração da trama, e os acertos concentrados em tudo que o cerca fazem com que o público releve alguns escorregões em troca da possibilidade de ficar mais um pouquinho com ele.

Ao mesmo tempo, o elenco humano também cumpre seu papel e completa as lacunas restantes com mais algumas doses de fofura e carisma. Colin Farrell (O Sacrifício do Cervo Sagrado) se encaixa no papel de um pai solitário e melancólico que aprende a acreditar mais nos filhos e na vida. Eva Green (Penny Dreadful) usa o seu exagero típico como combustível para dar vida ao arco funcional de Colette. Danny DeVito (O Método Kominsky) conquista o espectador imediatamente como um líder divertido e ingênuo. E as crianças E as crianças, mesmo sofrendo com a inexperiência dos iniciantes Nico Parker e Finley Hobbins, fecham o combo com uma mistura razoável de sagacidade e doçura.

Enquanto isso, no lado negro do picadeiro, os vilões deixam um gostinho mais questionável por conta de um tratador do circo (sem nome) cuja motivação é a mais batida e monocromática possível. Suas ações rolam sem um plano de fundo bem arquitetado, mancham parte do primeiro ato e só não se tornam um problema maior porque o personagem em si é um mero gatilho pro restante da história. Pra sorte do filme, Michael Keaton (Homem-Aranha: De Volta ao Lar) assume as rédeas do antagonismo a partir do segundo ato e faz as coisas fluírem de maneira bem mais interessante. Afinal de contas, apesar do visual absurdamente caricato, V. A. Vandevere apresenta algumas camadas que vão além da vilania simples e pura.

Tudo na medida certa pra unir aquela típica lição da Disney com os pequenos toques de Tim Burton (O Lar das Crianças Peculiares). Na real, pode-se dizer inclusive que todos os elementos narrativos citados até então – incluindo erros e acertos – formam a base perfeita para o diretor aplicar seu talento e versatilidade de maneira competente. Um terreno sólido onde o diretor pode deixar para trás todos os seus vacilos recentes e mostrar que sabe lidar como poucos com produções que misturam magia, surrealismo e vida real. Um equilíbrio que o filme precisava, levando em conta até mesmo a proposta das revisitações em live-action.

Isso significa que ele sabe capturar a realidade de traumas, solidão e pouco luxo do circo com uma combinação entre verdade e melancolia que o roteiro pede, mas nunca esquece de balancear tudo com a vibe cartunesca que parece ser inerente ao longa. Essa harmonia abre espaço para Dumbo incluir atualizações importantes em relação ao mundo atual (como a proteção aos animais) sem perder o estilo e o encantamento que surgem tanto em pequenas referências ao filme animado, quanto no visual como um todo. E, dentro disso, é natural que as cenas de voo do elefantinho – muito bem acompanhadas pela trilha do Danny Elfman – sejam os pontos altos da projeção,  representando inclusive uma sensação de liberdade que percorre os personagens e o diretor com uma intensidade bem parecida.

Infelizmente, o nosso herói enfrenta seu maior problema quando o terceiro ato decide concentrar muitos vacilos de uma vez só. A conclusão acelerada, as soluções narrativas simplificadas e os personagens jogados em situações exageradas (principalmente o vilão) com o objetivo de criar as citadas lições tiram o espectador do transe num momento onde não deveria. Mesmo assim, vale ressaltar que Dumbo consegue se recuperar a tempo de cumprir sua proposta, expandindo a história, lançando novos olhares sobre os clássicos e apresentando tudo para essa geração com os toques de diversão, magia e emoção que nosso querido elefante voador merece.


OBS 1: A animação empaca um pouquinho nos planos mais abertos de voo, mas não é nada que estrague a experiência ao ponto de ser citado na integra da crítica.

OBS 2: Como sempre, o 3D não é tão importante assim…

OBS 3: Prestem atenção nas referências ao longa original. São muitas e um bocado incríveis…