AODISSEIA
Filmes

Dois Papas: Surpreendente desmistificação

Humor eclesiástico com toque brasileiro.


5 de novembro de 2019 - 13:04 - Tiago Soares

“Surpresa!” é a expressão usada quando queremos surpreender alguém seja num aniversário, num anúncio importante ou numa notícia que pega todos despreparados. Esta também é a melhor palavra para definir “Dois Papas”, novo filme do brasileiro Fernando Meirelles para a Netflix. Afinal, o que poderia sair de bom de um filme que aborda quase que inteiramente uma conversa entre dois representantes de Deus (segundo os católicos) na terra? Um deles, o austríaco Joseph Ratzinger ou Papa Bento XVI, que subiu ao pontificado em 2005 após a morte de João Paulo II, e o outro, o ainda cardeal argentino Jorge Bergoglio, que viria ser o Papa Francisco futuramente.

Fernando Meirelles tinha o caminho burocrático para seguir, mas resolve ir numa grandeza inversamente proporcional. Ao abrir seu filme com uma piada, dita o tom que vai percorrer boa parte da produção. O magnífico roteiro de Anthony McCarten (que anteriormente tinha escrito “A Teoria de Tudo” e “Bohemian Rhapsody”) humaniza estes dois homens sagrados e os deixa comuns perante nossos olhos. Anthony Hopkins faz um frágil Bento XVI, ao mesmo tempo que o torna mais simpático. Jonathan Pryce vira um argentino e faz com que o espectador acredite nisso, seja pelo excelente domínio do espanhol ou até pelas expressões características de Vossa Santidade.

A direção nos aproxima dessas figuras. Com cortes rápidos e dinâmicos, Meirelles filma cada um deles a sua maneira e quando estão juntos o resultado é espetacular. O conservadorismo entra num embate apoteótico com uma visão mais liberal e abrangente. O futuro do catolicismo está nas mãos de dois homens que confessam os mais íntimos segredos um ao outro, em grandes monólogos que mostram um total domínio dos atores. Suas determinadas forças e fraquezas são postas em jogo, em uma conversa por vezes descontraída, cercada de piadas pontuais.

A câmera quase observadora abusa dos closes-ups, alternando tudo com flashbacks em preto e branco de Jorge Bergoglio e sua juventude. O vemos renegando os prazeres ao mesmo tempo em que conta os seus maiores pecados, no momento onde a obra perde um pouco a mão. As imagens de arquivo também tiram um pouco da atenção, já que o grande chamariz está justamente no simples diálogo dos dois, que vira noites e lugares. O amor de Jorge pelo futebol e o de Joseph pelo piano ajudam a enriquecer a narrativa, que discute a fé de maneira pessoal e intimista.

dois papas

“Dois Papas” se pergunta “onde está cristo?” em meio as injustiças do mundo, à medida que fortalece a união entre os dois, que começa como uma disputa por território. As pouco mais de 2 horas de produção passam voando, enquanto o Vaticano se torna um personagem importante visualmente, assim como a trilha sonora incomum que começa e encerra com ‘Dancing Queen’ do ABBA, passando por ‘Besame Mucho’ de Andrea Bocelli e ‘Bella Ciaou’. Detalhes que nem imaginávamos querer saber, são revelados ao som de um italiano forte, um latim pouco usado e um tango argentino.

 


Obs: O filme chega a Netflix no dia 20 de dezembro de 2019.


*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo