AODISSEIA
Séries

Crítica: Dois Irmãos

Intensa nas atuações, no visual e no texto. Uma obra intensa.

22 de janeiro de 2017 - 11:00 - Tiago Soares

A Globo vem acertando demais em suas séries, minisséries e até em algumas novelas, principalmente aquelas da faixa das 11h. O Rebu, Amores Roubados, Amorteamo, Verdades Secretas, Justiça, Nada Será Como Antes e por aí vai, são muitos acertos, apesar de alguns erros (sim, estou falando de você Supermax). A anunciada Dois Irmãos, trazia uma curiosidade e alta expectativa, tanto pela riqueza da obra original de Milton Hatoum, até pela prévia exibida com exclusividade na Comic Con Experience 2016. Com o trailer, essa expectativa aumentou, e víamos muito da intensidade das obras anteriores de Luiz Fernando Carvalho, o que acabou se tornando a principal questão da série, tanto pro bem como pro mal.

Dois Irmãos é inspirada na obra de Milton Hatoum, e foi adaptada pra TV por Maria Carmargo (Nise – O Coração da Loucura) e conta a história de Zana (Gabriella Mustafá/Juliana Paes/Eliane Giardini) e Halim (Bruno Anacleto/Antonio Calloni/Antonio Fagundes), dois imigrantes libaneses que se apaixonam e tem dois filhos, algo que sempre foi o desejo de Zana, mas desprezado por Halim. Os gêmeos Omar (Enrico Rocha/Matheus Abreu/Cauã Reymond) e Yaqub (Lorenzo Rocha/Matheus Abreu/Cauã Reymond) nasceram e cresceram causando desafetos na família e com uma forte rivalidade, já que Omar nasceu com problemas respiratórios, com sua mãe sempre mimando-o, o que gerou um rancor por parte de Yaqub. Nael (Theo Kasper/Ryan Soares/Irandhir Santos), filho de Domingas (Sandra Paramirim/Zahy/Silvia Nobre), a empregada indígena que serve a família desde criança, é quem narra a história e se torna uma espécie de testemunha privilegiada. Além dos gêmeos, o casal também tem a jovem Rânia (Letícia Almeida/Bruna Caram), que tem um certo destaque,de forma mais pessoal do que envolvida na disputa diretamente.

A forma como Luiz Fernando Carvalho (Hoje é Dia de Maria,/Lavoura Arcaica/Velho Chico), conduz algo para a TV, é alvo de muitos elogios, pela forma como traduz o barroco, fugindo muito do realismo frequente em obras comuns. A imagem é o que ele tem de mais poderoso, e a utiliza de forma lírica e orquestral. É como se fosse o maestro de uma ópera a cada frame, a cada simples cena, a cada diálogo infame. Ao mesmo tempo é alvo de muitas críticas, pois não há um ápice, tudo é extremamente exagerado, cada imagem é de esbaldar os olhos e a poucos surpresas, já que as surpresas percorrem cada tomada dos 10 capítulos da minissérie.

Tudo é muito intenso, além da já citada imagem, as atuações, todas elas, tem caráter de urgência, tudo tem que ser proclamado, chorado ou em forma de poesia, o que é facilitado pelo texto rico e cheio de metáforas, além é claro da narração em off, recurso considerado preguiçoso por alguns, o que não é caso aqui, já que Nael é um personagem incrível e narra com emoção. Cauã Reymond encabeça a lista se mostrando muito mais que um galã global, Juliana Paes e Eliane Giardini passam todo o amor, desespero e força de uma mãe, o Halim de Antonio Calloni despensa apresentações, enquanto Antonio Fagundes entrega uma atuação diferente de um ator que parecia não sair da zona de conforto, além disso Irandhir Santos faz um Nael que com pouco texto, mas que consegue passar tudo o que sente, através do olhar.

Uma das ressalvas e pontos fracos da produção, é a passagem de tempo, apesar de um cast excelente, com atores bastante parecidos e passando o bastão pra outros em igual excelência, o tempo é muito mais evidenciado pelas notícias (a séria se passa entre os anos 20 e 80), como o bicampeonato mundial do Brasil, Brasília, a nova capital do país e a ditadura militar, do que pelo envelhecimento dos seus atores. Por exemplo, Irandhir Santos é mais velho do que Cauã Reymond, mesmo assim seu personagem é filho/sobrinho dele. Outro ponto que podia ser melhor trabalhado é a mixagem/edição de som, as vezes os personagens estão ao ar livre e é difícil ouvi-los nessas cenas, principalmente porque eles sempre mencionam palavras em libanês, o que pode confundir a maioria do público médio.

Falando nisso toda a estética de Dois Irmãos não deve agradar a todos, Luiz Fernando Carvalho não é para todos. Desde as sequências bem filmadas de perspectivas diferentes  (como todas as cenas de chuva, que não são poucas) até na personagem cartunesca de Maria Fernanda Cândido, a minissérie não deve agradar todos os públicos.

Spoilers

Os surtos de Omar infelizmente tomaram muito tempo da obra, o que não atrapalhou sua condução, sendo o melhor deles o da morte de Halim, em uma cena linda e ao mesmo tempo triste. A sexualidade também foi explorada com belas cenas de sexo, sendo uma delas de Halim e Zana seguida de uma discussão, sem cortes. A presença de Bárbara Evans e Jimmy London, que não são necessariamente atores, não compromete a obra e são gratas surpresas.

O fim de Omar, ao mesma tempo que pouco sofrido, foi satisfatório, a morte de Zana e a solidão seguida por ele, praticamente abandonado, serviu para ensinar. Nael foi sem dúvida foi um dos melhores personagens, e teve um fim digno, seguido de uma trilha sonora louvável que permeia toda a minissérie. A rivalidade entre os irmãos nunca acabou, o que só enriqueceu a obra, aumentando a tensão a cada capítulo, a Globo acerta de novo, e esse ano promete muitas obras maravilhosas.