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Filmes

Critica: Dois Caras Legais

Tiros, risadas, mulheres e baladas. Bem-vindo aos anos 70!

26 de julho de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Por mais que muita gente acredite nisso, na maioria das vezes, trabalhos interessantes não nascem de insights sobrenaturais. É fruto de muito esforço, suor, pesquisa, tormento e repetições de temas que já funcionaram (os temidos clichês). É basicamente isso que Shane Black faz aqui, afinal de contas Dois Caras Legais não é nada mais que uma simples mistura de elementos consagrados anteriormente, apresentados em uma trama complexa e extremamente divertida com a cara dos anos 70. O resultado é uma maravilhosa reunião entre nostalgia, adrenalina e muitas risadas.

A história do longa segue um mistério envolvendo assassinatos, filmes pornôs e motores de carros que reúnem o “batedor de aluguel” Jackson Healy e o detetive particular Holland March, após um breve desencontro de opiniões e trabalhos. Apesar das óbvias diferenças de temperamento, atitude e conhecimento policial, eles são obrigados a se juntar para entender porque estavam sendo enganados, salvarem suas próprias vidas e, logicamente, impedir que uma grande conspiração saia vitoriosa mais uma vez.

O roteiro, que foi escrito por Black (Homem de Ferro 3) ao lado do praticamente novato Anthony Bagarozzi, não esconde em nenhum instante o seu desejo de ser uma grande homenagem ao filmes policiais que marcaram a década de 60 e 70, reunindo todas as características e arquétipos necessários com uma pitada de noir e buddy cops movies (incluindo o clássico Máquina Mortífera que mudou a carreira do até então novato Shane Black no final dos anos 80). O resultado tinha tudo pra ser um belo tiro no pé, mas uma boa parte do longa acaba valendo a pena justamente por trazer essa bela sensação de nostalgia e revitalização, da mesma forma como aconteceu com Stranger Things.

Claro que isso só é possível graças a todo o esmero técnico encontrado no trabalho de direção de Shane. Tudo que envolve a história se encaixa muito bem na época e na temática abordada pelo texto, principalmente a trilha sonora, a fotografia levemente granulada e o design que adiciona um perfil vintage muito interessante ao filme. Da mesma forma, Black sabe como usar sua câmera para emular ângulos comuns aos filmes homenageados, brincar com o exagero permitido pela computação gráfica e tirar ótimas piadas visuais de lugares realmente inesperados. Provavelmente o trabalho mais inventivo, energético e maduro do moço como diretor.

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Entretanto, a principal prova de sua evolução criativa está na agilidade e no senso de humor que marcam presença durante o decorrer de todo o texto. É algo tão vigoroso e divertido que o texto só perde alguns pontinhos quando tenta abordar um drama que se alonga demais e adiciona muito pouco aos protagonistas. Um escorregão que incomoda, mas acaba completamente ofuscado pela ótima dinâmica entre personagens completamente opostos, a criação de diálogos absurdamente recheados de humor negro, a resolução de muitas subtramas de forma simples e, principalmente, o aproveitamento do potencial cômico de todas as situações. É incrível como até algumas piadas idiotas, repetidas exaustivamente, acabam funcionando muito bem!

E uma boa parte dessa responsabilidade vai para a entrega de todo o elenco aos seus papéis, independente dos momentos ridículos ou das piadas físicas. Russell Crowe abandona as vaidades, aceita a barriguinha saliente e se encaixa muito bem no perfil de Jackson Healy, sempre querendo salvar todo mundo e preparando o terreno para as piadas de Ryan Gosling, que mostra todo o seu potencial para interpretar sujeitos exagerados e galhofas. Seu Holland March possui todas as características exaustivamente usadas nos anos 70, incluindo o lado beberrão e mulherengo, e o trabalho de Gosling é reunir tudo sem soar tão idiota, mesmo com todas as quedas e relações bizarras que parece possui com Hitler.

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Além deles, a jovem Angourie Rice (que também vai estar no novo filme do Homem-Aranha) merece todos os elogios pela sua ótima interação com o Ryan Gosling. Ela participa intensivamente do desenvolvimento da trama, faz parte de muitas piadas e gera ótimos momentos, enquanto o longa passa por boas participações de Matt Bomer, Margaret Qualley, Beau Knapp, Kim Basinger e Ty Simpkins (apenas uma cena muito engraçada) e Keith David.

O resultado é uma comédia inspirada, um longa de ação eletrizante e uma homenagem elegante ao passado do cinema que comprova o talento de Shane Black como roteirista e diretor. Perde um pouquinho da inspiração nas partes emotivas, mas elas tem sua importância e não atrapalham os momentos de diversão e risos que realmente são arrancados da plateia durante a projeção. Um trabalho surpreendente de Crowe, Gosling e toda a equipe que deixa todo mundo com aquela vontade de ver um pouco mais desses dois caras legais.