AODISSEIA
Séries

Disque Amiga Para Matar, a sororidade de Thelma & Louise

Mulheres fortes estão em alta. Ainda bem!


5 de junho de 2019 - 16:18 - Tiago Soares

A Netflix tem se tornando uma especialista em comédias sádicas, abordando assuntos sérios e pesados com um bom humor, digamos, peculiar. After Life, série de Ricky Gervais vai (e anda muito bem) por esse caminho e agora é a vez de “Disque Amiga Para Matar” (Dead to Me, no original) trilhar por vias semelhantes, mas trazendo um suspense ao seu enredo, já que se trata de uma trama policial. Nela, o marido de Jen Harding acaba de ser atropelado de forma súbita e violenta, procurando apoio em grupos de luto ela acaba encontrando Judy Hale, e ambas se tornam amigas, apesar de serem bem diferentes uma da outra.

Se Jen parece mais centrada e focada naquilo que deseja, se fechando totalmente após a perda, Judy é o total oposto, sempre animada e com uma ideia mirabolante na cabeça. À medida que o tempo passa, Jen vai percebendo que Judy não é nada daquilo que disse que era, e um leque de possibilidades se abre a cada mentira revelada nos 10 episódios. Contar mais do que isso seria spoiler, mas é importante afirmar que as surpresas ocorrem desde o início. A série de Liz Feldman (que já tinha trabalhado a interação entre mulheres em “2 Broke Girls”) e a produção de Will Ferrel e Adam Mckay permitem que a série seja recheada de piadas rápidas, ácidas e completamente longe do lugar comum.

Há espaço para falar de morte, religião, controle de armas, descaso policial e vários outros assuntos que ajudam a manter a tensão de uma história que sobrevive não apenas por fazer rir ou por seu clima investigativo, mas por suas reviravoltas cada vez mais ousadas. Sem dúvida, as grandes responsáveis por fazer este um roteiro divertido ganhar vida são Linda Cardellini e Christina Applegate que além de serem as grandes protagonistas, produzem a série. As duas possuem uma química absurda e se juntas funcionam como ninguém, separadas parassem ainda melhores, com atuações soberbas que mudam da água pro vinho. Na mesma medida que fazem rir em momentos saídos diretamente dos filmes de besteirol americano, fazem chorar em dramas existenciais sentimentalistas.

A entrega das duas é evidente, assim como a presença da sororidade e girl power, fazendo com que a afinidade e identificação do espectador seja quase imediata, mesmo mediante a atitudes questionáveis. A comédia vai construindo duas mulheres que já eram fortes antes do ocorrido, e que precisam se tornar mais ainda devido a presença de homens e situações que querem impedi-las de chegar ao topo, seja se tratando do sucesso, ou da saúde mental e para isso o ex-marido de Judy, Steve (James Marsden), dá uma “ajudinha”. O relacionamento abusivo de ambos é tratado de forma sutil e inteligente, para que o público perceba que nas pequenas nuances das atitudes de Steve é que mora o problema.

Crua, Disque Amiga Para Matar segue até sua eficaz catarse sem abandonar o conceito de irmandade feminina e mesmo com as diferenças, Jen e Judy jamais fazem um pré-julgamento das motivações uma da outra. Felizmente já renovada para sua segunda temporada, resta saber por se pode se tornar uma comédia de absurdos ou continuar na estrada de carros movimentados.