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O vibrante cinema de Spike Lee encontra a luta contra o passado e os traumas da guerra em ‘Destacamento Blood’


Se quisermos simplificar o cinema de Spike Lee podemos colocá-lo em três categorias, que se sobressaem na maioria de seus filmes: vibrante, situacional e épico. Vibrante porque é incrível a vida que emana de suas produções. Situacional pelo simples fato de seguir a maré conforme as coisas aparentemente banais vão acontecendo. Tornando-se em confrontos épicos.

Grandes em tamanho, escala e importância, os filmes de Spike Lee unem força e emoção de histórias pessoais, que ao mesmo tempo parecem ser nossas. Em Destacamento Blood ele une suas 3 características para acompanhar um grupo de quatro veteranos de guerra afro-americanos, que retornam ao Vietnã buscando os restos mortais do líder de seu antigo esquadrão e de um tesouro enterrado.

É claro que essa jornada não será um simples filme de assalto, ou limitado a uma caça ao tesouro. Lee traz um estudo sobre memória, traumas e sobre aquele passado que lutamos para esquecer, mas ele nunca morre. Co-escrito por ele ao lado de Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott (parceiro de Lee em ‘Infiltrado na Klan’), Destacamento Blood tem uma primeira hora arrastada, muito por conta da apresentação de seus personagens.

destacamento blood

Paul, Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.) são homens feridos, que parecem divertidos e completamente curados num primeiro momento. Numa ótima cena vibrante (olha a palavra aqui de novo), eles dançam em um bar do Vietnã. Ao entrelaçar a vida aparentemente boa destas pessoas a lembranças da guerra, Spike Lee acerta ao não mudar os atores, deixando-os com a mesma aparência atual nos flashbacks.

Ao mesmo tempo em que perde na velocidade da ação, o diretor mostra que aqueles homens na verdade nunca saíram de lá, e continuam com cicatrizes de uma guerra que não era deles. A questão racial aflorava ainda mais nos EUA, enquanto os Da 5 Bloods tinham que esquecer o assunto e focar em missões comandadas por seu falecido líder Stormin’ Norman (Chadwick Boseman).

Sabendo contar histórias como ninguém, Spike Lee sempre tratou de retratar homens quebrados e a margem da sociedade. Esse trabalho é feito aqui em Paul (Delroy Lindo), e apesar de Destacamento Blood não possuir um protagonista de fato, o ator é o principal combustível responsável por mover a narrativa, seja em seus surtos pós-traumáticos, na relação com o filho David (Jonathan Majors), e em seus monólogos poderosos.

A história se une a ganância do homem branco, que sempre habitou o mundo, e Spike Lee fala sobre isso como ninguém. Um confronto de minorias motivado por uma raça, seja ela americana ou europeia, que tenta se sobressair sobre os menos favorecidos. Críticas e piadas a Donald Trump, e como isso afeta a comunidade negra, seja em relação a sensação de comunidade em si e individualismo, são pontos chave da fita.

Historicamente oprimido, o povo preto segue sendo usado e muitas vezes se revolta contra essa ordem “natural” das coisas. Spike Lee traz esse toque a Destacamento Blood, não fazendo um filme de justiça, mas estendendo esse sentimento de contra-ataque ao espectador e aqueles que vivem essa opressão. Se um preto vencer, teoricamente todos vencem.

Ao mesmo tempo, o cineasta não trata seus personagens como santos e acima do bem e do mal. Lee não é unidimensional, não existe o preto contra o branco, e sim um conflito de ideais que muitas vezes atingem a própria comunidade negra por dentro, trazendo pensamentos reacionários, e gerando inúmeros preconceitos além do racismo.

destacamento blood

Lançado num momento crucial da história americana, Destacamento Blood também evidencia os males do capitalismo, do pertencimento,do imperialismo, e acima de tudo de um sistema fracassado, feito exclusivamente para ferrar os menos favorecidos. A camaradagem de uma viagem entre amigos, aos poucos se torna uma tragédia, e qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.


Destacamento Blood está disponível na Netflix!

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Destacamento Blood

9.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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