AODISSEIA
Filmes

Crítica: Demônio de Neon


4 de outubro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Verdades Secretas com neon e muito sangue


9a25b50e1d377b1774fc05c114ad8b46Imaginem: uma jovem muito bonita está passeando tranquilamente em um shopping até que chama a atenção de um improvável caça-talentos. Ele tira uma foto, fala que vai mandar para possíveis contratantes e promete uma vida de dinheiro e fama que, na maioria das vezes, vem acompanhada de doenças, drogas e muita inveja. Acreditem ou não, essa é uma situação muito comum que serviu como ponto de partida para Verdades Secretas, novela da Rede Globo indicada ao Emmy Internacional. Uma situação comum que também ocupa um espaço importante na premissa de Demônio de Neon.

A proximidade temática fez com que a comparação fosse inevitável desde os primeiros minutos do filme, mas eu preciso deixar claro os dois produtos são completamente diferentes, principalmente no contexto visual e poético que abriga o desenvolvimento do longa. Considerando que a direção é comandada pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, isso significa que Demônio de Neon vai estar recheado de uma morbidez extrema, momentos contemplativos, ideias quase experimentais que se repetem na sua filmografia e enquadramentos muito bem calculados que entregam um resultado absolutamente belo.

Pode parecer um pouco bagunçado e desconexo, mas quem já assistiu Drive e Só Deus Perdoa sabe que todos os elementos que ele utiliza possuem algum significado (na maioria das vezes, metafórico). É só observar a forma como ele aproveita cada um dos takes com os espelhos para gerar alguma ilusão de ótica, utiliza a fotografia cheia de luzes neon de Natasha Braier (The Rover – A Caçada) para mexer com a mente do espectador e dita o andamento das cenas com as composições sintetizadas de Cliff Martinez (Cães de Guerra). Até o flerte rápido com o terror nos últimos vinte minutos possui uma relação absurda com o canibalismo presente na indústria da moda e ajuda a encorpar as críticas pensadas pelo diretor.

O roteiro, escrito por Nicolas em parceria com Mary Laws e Polly Stenham, também acompanha exatamente esse espírito, brinca com os gêneros hollywoodianos e abusa das metáforas, ironias e tiradas sarcásticas para construir essa grande crítica sobre moda, inveja, sexualidade e predadorismo. Funciona muito bem até o momento em que começa a se arrastar mais do que devia, sendo que o texto poderia perder menos tempo algumas críticas rasas, divagações vazias e tramas paralelas desnecessárias. Apesar de ser divertida e importante no seu último instante, a participação de Keanu Reeves poderia ser quase toda retirada sem prejudicar o resultado do filme.

the-neon-demon-1-0-0

A grande sorte do diretor foi encontrar a sua musa perfeita na figura de Elle Fanning (Super 8). Ela tem beleza, presença, ingenuidade e talento de sobra para traduzir com perfeição a transformação da angelical Jesse em uma competidora perigosa e sensual, sempre focando nas mudanças de olhares, posturas e sorrisos sutis. Isso faz com ela seja a força que movimenta o filme desde o início, mas seria uma injustiça não falarmos da atuação dúbia e bastante assustadora de Jena Malone (Sucker Punch) como a sua maquiadora.

Apesar de comparação um tanto quanto ridícula com a novela da Globo, Demônio de Neon é um filme que merece sua atenção por ser completamente diferente de tudo que está passando nos cinemas. Ao mesmo tempo, ele foi feito para aquelas pessoas que acompanham – e admiram – a filmografia de Nicolas Winding Refn, já que o filme que tem a cara do seu diretor do início ao fim. Caso contrário, você provavelmente não vai gostar desse filme. Apesar de estiloso, ele certamente é arrastado, contemplativo, sensual, incômodo e bem perturbador. Um filme quase perfeito para quem tem estômago forte e gosta de pensar na sala de cinema.


odisseia-07