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Séries

Crítica: Demolidor Chega ao Ápice em sua 3ª Temporada

Uma temporada pé no chão, incrivelmente próxima da nossa realidade. A melhor de todas

24 de outubro de 2018 - 10:51 - felipehoffmann

Demolidor foi a primeira série da parceria Marvel/Netflix e, por sua importância, a mais relevante desse universo criado para o serviço de streaming. Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Os Defensores vieram na sequência, mas nada que se igualasse ao nível daquela primeira temporada do Demônio de Hell’s Kitchen.

Na verdade, a realidade foi inversa. A qualidade das produções despencaram, com histórias ruins e repetição de uma fórmula que saturou-se em pouco tempo, culminando no fracasso da segunda temporada de Punho de Ferro e no cancelamento da mesma, seguido por Luke Cage.

Precisava de um enredo muito forte pra manter a excelência de Demolidor e Erik Oleson, novo showrunner da série, o fez com maestria. Rei do Crime (Vincent D’Onofrio) ressurge da prisão e vai, aos poucos, galgando seu status quo se colocando, como o próprio Matt Murdock (Charlie Cox) diz, a cinco passos de qualquer outra pessoa.

O que impressiona aqui é que a terceira temporada de Demolidor é completamente desgarrada das outras séries feitas para Netflix e isso foi fundamental para seu sucesso. Uma história pé no chão, que usa a corrupção, chantagem, politicagem, jornalismo investigativo num nível muito próximo da realidade e essa verossimilhança consegue criar um elemento de proximidade com a série.

 

 

O fortíssimo discurso do Rei do Crime, colocando Demolidor contra a sociedade é uma alegoria clara de qualquer político que empurra o outro contra o olhar julgador da população. Wilson Fisk evita sujar suas mãos e atribui a Poindexter (Wilson Bethel), um agente da FIA, a tarefa de derramar o sangue que ele mesmo não quer derramar.

“Eu sei que muitos de vocês acham isso difícil de aceitar. É só porque vocês foram manipulados, envenenados para acreditar nas mentiras da mídia de que eu sou mau, que eu sou um criminoso. Na verdade, eu sou o oposto. Porque eu desafio o sistema, eu falei a verdade e tentei fazer dessa cidade um lugar melhor, as pessoas no poder decidiram me derrubar. Me derrubar com alegações falsas. Eles mandaram alguém pra tentar me pegar. Demolidor. O assassino que agora está mostrando sua verdadeira face, que tentou matar pessoas em redação de jornal e igrejas, atacando nossas instituições sagradas. Acreditem em mim. O Demolidor é o nosso inimigo”.

Esse discurso te lembra alguma coisa? Sim, O Rei do Crime é um fascista.

A figura do Demolidor funciona bem demais quando é exposta ao extremo. Matt Murdock reage à vida quando se encontra numa situação completamente perdida. Sua crença em Deus, sua capacidade de proteger pessoas próximas e os dilemas de matar ou deixar a justiça cuidar permeiam isso e, quando botados à prova, criam um estímulo para o personagem desenvolver sua história.

Que é bem amarradinha por sinal.

 

 

Por mais que ainda sejam excessivos episódios, a tal fórmula de correr com as coisas no início, plot twist na metade da temporada, outro lá pro final e cliffhangers ao fim dos episódios é um pouco esquecida. Erik Oleson pega várias referências das HQs de Demolidor e vai construindo, sem pressa, sua história, dando importância para ação onde precisa e criando um drama da melhor qualidade.

As subtramas ajudam a contar o passado dos personagens, com coadjuvantes tendo realmente motivações claras para suas ações. Seja na fuga do passado de Karen Page (Deborah Ann Woll) e seu medo real de morrer ou mesmo o agente do FBI que entra na chantagem de Fisk e cai num dilema moral entre ética e prestígio profissional. É tudo muito pé no chão e isso é bom demais. Os elementos sobrenaturais são totalmente esquecidos, sem aqueles malditos ninjas que mal posso ver seus movimentos, comandados por uma organização oriental ou uma ressurreição e paixão exacerbada por Elektra.

Demolidor consegue não só entregar sua melhor temporada, mas também a melhor dentre todas desse universo na Netflix. Longe de cancelamentos e com um gancho FODIDO para uma nova temporada, a série é um retrato bem semelhante à nossa realidade. A presença de um Wilson Fisk entre nós é real e talvez isso que nos assusta mais.