AODISSEIA
Filmes

Democracia em Vertigem – “São tempos sombrios, não há como negar”

Um retrato de afetividade num dos momentos mais tensos de nosso história.


21 de junho de 2019 - 16:24 - Tiago Soares

Novo documentário de Petra Costa, “Democracia em Vertigem” usa da sensibilidade da diretora para mostrar a selvageria da política brasileira.

 

Petra Costa é uma diretora sensível. Falo isso não apenas pelo fato dela ser mulher, mas sim pela característica de trazer toques pessoais e únicos aos seus documentários. Em “Elena” por exemplo, ela mostra seu talento intercalando a emocionante narração em primeira pessoa com imagens de arquivo, o que qualquer documentário hoje em dia faz, ou poderia fazer, mas seu talento está no texto forte, preciso e no encaixe que faz com imagens repletas de afetividade. É compreensível que seu filme anterior nos emocione, pois é uma história de cunho pessoal e a identificação com a família de Petra e por conseguinte a nossa, é imediata.

Aqui em “Democracia em Vertigem”, acompanhamos a história de políticos e suas tramas cercadas de reviravoltas, mas mesmo assim a cineasta consegue trazer uma sentimentalidade ímpar, graças a um texto manso, uma narração que tem uma voz ora embargada, ora questionadora, e imagens de um país que já ensaiava sua divisão em dois pólos. Petra acompanha a era do ex-presidente Lula, desde a formação de alianças que se mostrariam não tão benéficas assim, os desafios de Dilma no poder, os protestos pelo Brasil em 2013, o impeachment (ou golpe como queira chamar) da ex-presidenta, desde os trâmites que levaram a derrocada do PT, a prisão de Lula e a polarização atual.

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A diretora nunca escondeu seu lado desde o início do filme, mas a produção é muito menos partidária do que se imagina. Ela toma um lado para falar de outro, afinal ela precisa estar dentro de um deles, para mostrar o que de fato aconteceu, já que essa é a função do documentário. Não deduzindo nada e apenas mostrando os fatos, Petra mantém uma relação mais íntima com Lula e Dilma, sendo que a câmera acompanha o primeiro até no dia de sua prisão, além de mostrar conversas íntimas da segunda, incluindo até a própria mãe (de Petra) no relato, pois ambas (mineiras e vítimas da ditadura) têm muito em comum.

Em termos de história, Democracia em Vertigem não traz nada de novo para quem já acompanha a política brasileira. Mesmo assim, existe uma espécie de didatismo, já que o filme está disponível na Netflix em mais de 190 países, e faz-se necessário explicar todos os emaranhados que fizeram nosso país chegar em seu estado atual. “O Processo” de Maria Augusta Ramos e “Excelentíssimos” de Douglas Duarte são outros documentários atuais que abordam o mesmo tema, mas a diferença deste é humanizar a selvagem política brasileira. Em certo momento, Petra afirma que aqueles senhores (políticos), que viviam à porta pedindo pra entrar, agora tem total acesso a todos os lugares. Tal fala, sintetiza os tempos de intolerância e de dar voz a quem já tinha há muito tempo.

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É uma espécie de regresso, não aos tempos áureos da nossa política, mas sim aqueles que nos envergonham. De Dilma, sai um dos monólogos mais poderosos da produção. A ex-presidenta afirma que sente falta da clandestinidade e do privilégio de ser anônimo. Ela diz que nada voltará a ser como antes e que gostaria que a liberdade do anonimato voltasse. Também diz que Lula antigamente não falava sobre política, ele fazia política, e é daí que Petra arranca as grandes falhas do PT e sua busca pelo poder. O partido que chegou para mudar tudo, mas que acabou se tornando apenas mais um em meio ao Congresso e Senado. Dentro do lado escolhido, existem críticas e a necessidade de um diálogo com o lado oposto, que acaba não acontecendo devido a ausência e rejeição as câmeras da cineasta.

Em uma conversa despretensiosa com umas das funcionárias do Palácio do Planalto, ela afirma que “existe muita sujeira a ser revelada”, e os recentes vazamentos de supostas conversas de Moro com procuradores da Operação Lava-Jato, publicadas pelo site “The Intercept”, mostram que ela estava correta. Mesmo sem a influência de novos materiais (já que o filme foi exibido em Sundance em janeiro), é perceptível notar que tudo foi arquitetado e continua sendo. Os poderosos ainda estão no poder, alguns presos, outros com cargos públicos, mas a sensação de viver tempos sombrios é a mesma, refletida na fotografia de João Atala, que vai perdendo seu brilho no decorrer dos eventos.

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A ironia presente em falas de Lula e Dilma, já evidenciava que eles sabiam o que ia acontecer. Lula ainda afirma que é uma “covardia” o que estavam fazendo com a primeira presidente mulher do país, e é impossível terminar a produção sem exaltar a dona dos discursos peculiares e toda a sua força, sem dúvida, a admiração por ela aumenta. Culminando na primeira semana de governo de Jair Bolsonaro, “Democracia em Vertigem” chega ao fim com duas frases que falam por si: “O juiz Sergio Moro é ministro do atual governo” e “Lula continua preso”. Bom, tirem suas próprias conclusões.