0

Um coadjuvante destruído durante um filme de origem, um ator rechaçado por dois erros consecutivos, um vídeo de produção “vazado”, uma estreia avassaladora, um nome marcado na cultura pop e uma continuação garantida com louros. Com toda a história resumida podemos, finalmente, falar que Deadpool 2 se aproveita da estrutura do original, expande seus níveis de absurdo para todos os lados e diverte ao extremo. Não consegue superar aquela jóia da coroa que surpreendeu o mundo há dois anos, mas ninguém disse que isso era realmente necessário.

Repetindo os formatos na cara dura, a continuação começa com o próprio mercenário tagarela saindo de alguma situação de risco e recapitulando sua vida do primeiro longa até ali. Após a libertação das amarras impostas pela introdução, a trama começa a expandir o universo do personagem através de uma disputa travada entre Deadpool e Cable pela vida de um jovem mutante que pode – ou não – acabar com o futuro da humanidade.

Os caminhos a serem percorridos a partir dessa premissa são bastante simplórios, mas o próprio filme deixa claro que sabe onde está se metendo quando tira sarro de si mesmo e polvilha o percurso com algumas surpresas que afastam o resuktado final da obviedade. E, nesse caso, repetir a estrutura narrativa do longa anterior não é um problema, e sim a solução que permite que o roteiro – escrito pelos veteranos Rhett ReesePaul Wernick (Zumbilândia) ao lado de um colaborador desconhecido chamado Ryan Reynolds – invista sem medo na expansão de tudo o que deu certo anteriormente. Logo, você já pode entrar no cinema esperando por diálogos ainda mais rápidos, muitas doses cavalares de violência e piadas sujas, uma quantidade incontável de referências diversas à cultura pop e até mesmo uma trinca de participações especiais que podem gerar orgasmos nerds.

Infelizmente, os mesmos acertos não são repetidos no desenvolvimento da história em si. O primeiro ato demora pra engatar graças a ausência do fator surpresa, as repetidas tentativas de criar momentos dramáticos que não possuem peso de verdade e a construção rasa das motivações de cada personagem. Existe sim um ponto decisivo onde o filme escolhe as saídas mais surtadas possíveis e se entrega novamente ao que faz de melhor, mas esses pequenos problemas continuam quebrando o ritmo (a realidade paralela dividida por Wade e Vanessa, por exemplo, só funciona em sua última aparição) e deixando marcas no desenrolar da narrativa.

O mais prejudicado nessa confusão toda talvez seja o Cable interpretado de maneira brutal por Josh Brolin (Vingadores: Guerra Infinita), mas a surpresa surge pelo fato da culpa disso não ser do longo e extremamente complexo background que acompanha o anti-herói nos quadrinhos. Pelo contrário: a adaptação dessa loucura futurista até que é realizada decentemente dentro das limitações do arco de coadjuvante, enquanto o texto sofre, na verdade, para mergulhar no aspecto emocional e explorar todo o potencial dramático do personagem. Deadpool 2 peca bastante nesse aspecto e acaba exigindo que o espectador tenha uma suspensão de descrença acima da média quando aposta em poucas visitas ao futuro distópico ou decide usar um fantasma genérico como guia que direciona a missão do protagonista.

Alguns podem comprar essas propostas, mas a chance dessas escolhas desagradarem principalmente a parcela dos espectadores que não sabe nada sobre essa galera é grande. Por sorte, como eu já disse, o filme sabe a hora de fazer as escolhas mais ousadas, criar uma espécie de paródia resumida da franquia Premonição (meu momento favorito da produção) e engatar de uma vez por todas. A partir daí, o comando das rédeas fica dividido entre a direção de David Leitch (Atômica) e um elenco que não precisa de muitos comentários, abrindo as comportas para um enxurrada de acertos narrativos e visuais.

O primeiro, mesmo sem chegar perto das cenas da qualidade impressa nas cenas de pancadaria dos seus trabalhos anteriores, consegue imprimir um pouco da sua identidade, fazer bom uso da câmera lenta e injetar dinamismo à ação. Enquanto isso, Ryan Reynolds (A Proposta) quebra a quarta parede com propriedade, leva as piadas com si mesmo ao extremo e usa seu carisma gigantesco para carregar uma produção que também sabe abrir espaço para que coadjuvantes de peso como Brolin, Julian Dennison (A Incrível Aventura de Rick Baker) e Zazie Beetz (Atlanta) brilhem mais de uma vez. E por falar na Domino, seus poderes pouco cinatográficos superam o exagero incoveniente na computação gráfica para criarem uma das melhores sequências de ação do longa.

Eles são a alma do filme e, consequentemente, o salvam nos diversos momentos onde o roteiro escorrega. Entretanto, a verdade é que esses erros são razoavelmente pequenos quando comparados ao fator diversão que carrega a franquia desde a estreia nas telonas e faz o valor do ingresso valer a pena. É dispensável, simplório, inferior ao seu antecessor e, se bobear, esquecível, mas continua sendo um exemplar típico do mercenário tagarela que nos aprendemos a amar. Ou seja, subversivo, absurdo, surtado, intenso e delicioso de assistir. E, no final, é isso que importa em Deadpool 2


OBS 1: Deixem as crianças em casa, porque esse filme é dez vezes mais violento, sanguinário e sexual que o anterior. No mínimo…

OBS 2: A segunda cena pós-créditos é uma obra-prima à parte. Começa meio questionável, mas se encerra com a melhor piada que Deadpool poderia fazer…

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Crítica: Barry (1ª Temporada)

Previous article

The Rain

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes