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Filmes

Crítica: Deadpool 2

Prato do dia: Dobradinha de Deadpool

17 de maio de 2018 - 02:10 - Flávio Pizzol

Um coadjuvante destruído durante um filme de origem, um ator rechaçado por dois erros consecutivos, um vídeo de produção “vazado”, uma estreia avassaladora, um nome marcado na cultura pop e uma continuação garantida com louros. Com toda a história resumida podemos, finalmente, falar que Deadpool 2 se aproveita da estrutura do original, expande seus níveis de absurdo para todos os lados e diverte ao extremo. Não consegue superar aquela jóia da coroa que surpreendeu o mundo há dois anos, mas ninguém disse que isso era realmente necessário.

Repetindo os formatos na cara dura, a continuação começa com o próprio mercenário tagarela saindo de alguma situação de risco e recapitulando sua vida do primeiro longa até ali. Após a libertação das amarras impostas pela introdução, a trama começa a expandir o universo do personagem através de uma disputa travada entre Deadpool e Cable pela vida de um jovem mutante que pode – ou não – acabar com o futuro da humanidade.

Os caminhos a serem percorridos a partir dessa premissa são bastante simplórios, mas o próprio filme deixa claro que sabe onde está se metendo quando tira sarro de si mesmo e polvilha o percurso com algumas surpresas que afastam o resuktado final da obviedade. E, nesse caso, repetir a estrutura narrativa do longa anterior não é um problema, e sim a solução que permite que o roteiro – escrito pelos veteranos Rhett ReesePaul Wernick (Zumbilândia) ao lado de um colaborador desconhecido chamado Ryan Reynolds – invista sem medo na expansão de tudo o que deu certo anteriormente. Logo, você já pode entrar no cinema esperando por diálogos ainda mais rápidos, muitas doses cavalares de violência e piadas sujas, uma quantidade incontável de referências diversas à cultura pop e até mesmo uma trinca de participações especiais que podem gerar orgasmos nerds.

Infelizmente, os mesmos acertos não são repetidos no desenvolvimento da história em si. O primeiro ato demora pra engatar graças a ausência do fator surpresa, as repetidas tentativas de criar momentos dramáticos que não possuem peso de verdade e a construção rasa das motivações de cada personagem. Existe sim um ponto decisivo onde o filme escolhe as saídas mais surtadas possíveis e se entrega novamente ao que faz de melhor, mas esses pequenos problemas continuam quebrando o ritmo (a realidade paralela dividida por Wade e Vanessa, por exemplo, só funciona em sua última aparição) e deixando marcas no desenrolar da narrativa.

O mais prejudicado nessa confusão toda talvez seja o Cable interpretado de maneira brutal por Josh Brolin (Vingadores: Guerra Infinita), mas a surpresa surge pelo fato da culpa disso não ser do longo e extremamente complexo background que acompanha o anti-herói nos quadrinhos. Pelo contrário: a adaptação dessa loucura futurista até que é realizada decentemente dentro das limitações do arco de coadjuvante, enquanto o texto sofre, na verdade, para mergulhar no aspecto emocional e explorar todo o potencial dramático do personagem. Deadpool 2 peca bastante nesse aspecto e acaba exigindo que o espectador tenha uma suspensão de descrença acima da média quando aposta em poucas visitas ao futuro distópico ou decide usar um fantasma genérico como guia que direciona a missão do protagonista.

Alguns podem comprar essas propostas, mas a chance dessas escolhas desagradarem principalmente a parcela dos espectadores que não sabe nada sobre essa galera é grande. Por sorte, como eu já disse, o filme sabe a hora de fazer as escolhas mais ousadas, criar uma espécie de paródia resumida da franquia Premonição (meu momento favorito da produção) e engatar de uma vez por todas. A partir daí, o comando das rédeas fica dividido entre a direção de David Leitch (Atômica) e um elenco que não precisa de muitos comentários, abrindo as comportas para um enxurrada de acertos narrativos e visuais.

O primeiro, mesmo sem chegar perto das cenas da qualidade impressa nas cenas de pancadaria dos seus trabalhos anteriores, consegue imprimir um pouco da sua identidade, fazer bom uso da câmera lenta e injetar dinamismo à ação. Enquanto isso, Ryan Reynolds (A Proposta) quebra a quarta parede com propriedade, leva as piadas com si mesmo ao extremo e usa seu carisma gigantesco para carregar uma produção que também sabe abrir espaço para que coadjuvantes de peso como Brolin, Julian Dennison (A Incrível Aventura de Rick Baker) e Zazie Beetz (Atlanta) brilhem mais de uma vez. E por falar na Domino, seus poderes pouco cinatográficos superam o exagero incoveniente na computação gráfica para criarem uma das melhores sequências de ação do longa.

Eles são a alma do filme e, consequentemente, o salvam nos diversos momentos onde o roteiro escorrega. Entretanto, a verdade é que esses erros são razoavelmente pequenos quando comparados ao fator diversão que carrega a franquia desde a estreia nas telonas e faz o valor do ingresso valer a pena. É dispensável, simplório, inferior ao seu antecessor e, se bobear, esquecível, mas continua sendo um exemplar típico do mercenário tagarela que nos aprendemos a amar. Ou seja, subversivo, absurdo, surtado, intenso e delicioso de assistir. E, no final, é isso que importa em Deadpool 2


OBS 1: Deixem as crianças em casa, porque esse filme é dez vezes mais violento, sanguinário e sexual que o anterior. No mínimo…

OBS 2: A segunda cena pós-créditos é uma obra-prima à parte. Começa meio questionável, mas se encerra com a melhor piada que Deadpool poderia fazer…