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Poética, última temporada de ‘Dark’ se encerra de maneira melancólica e prova que o tempo é implacável


“O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”

  • Arthur Schopenhauer

As três temporadas de Dark valorizaram a cultura alemã como ninguém. A citação acima é do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que era extremamente pessimista. Para ele, o amor não significava a felicidade e era apenas um meio para reprodução, e porventura mais sofrimento. Amar é a fuga da vontade insaciável que temos de querer algo.

O sofrimento é o estado natural do ser humano, que é de certa forma “atrapalhado” por poucos momentos de felicidade. Em outras palavras, o homem nunca está satisfeito com nada. Dark sempre foi uma série sobre existencialismo, e sobre a pequinês do homem perante o universo.

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“Somos apenas uma pequena parte de um intricado nó”, é uma frase repetida diversas vezes em Dark. Nesta terceira e última temporada, o nó é estendido a outro universo, e mais uma vez o espectador se sente confuso e até enganado de certo modo, já que o próprio se considera insignificante perante os mistérios da série.

Muito mais complexo, o terceiro ano de Dark completa os 3 ciclos da série, sempre pegando conceitos de outras obras e inserido-os em sua própria mitologia. O pessimismo de Schopenhauer e a percepção de que tudo está conectado trazem a ideia de que o tempo é imutável. Mas será que é mesmo?

Vimos na segunda temporada que Jonas se tornou Adam justamente por tentar impedir tudo que acontecia com ele e com Winden. Será que nossas ações ou a ausência delas, ditam nosso destino? Tentar mudar tudo, pode causar aquilo que mais tentamos evitar?

A nova temporada responde todas essas questões. Aliás, se tem uma coisa que o terceiro ano de Dark faz bem, é responder. Mesmo com os 4 primeiros episódios lentos e com uma trama arrastada, os 4 derradeiros conseguem entregar a qualidade vista nas temporadas anteriores. É uma overdose de respostas (com um episódio praticamente feito para preencher essas lacunas).

O Outro Mundo

Após o iminente apocalipse no dia 27 de Junho de 2020, Jonas (Louis Hofmann) tenta salvar Martha (Lisa Vicari), todavia, Adam (Dietrich Hollinderbäumer) acaba ceifando a vida da jovem. Entretanto, uma outra versão de Martha leva Jonas para um novo lugar, fazendo-o questionar não em qual tempo eles estão, e sim, em qual mundo.

Já visto nos trailers e em fotos divulgados no instagram do criador Baran bo Odar, o outro mundo é um pouco diferente daquele que conhecemos. O choque é imediato, já que nada é o que parece neste outro universo. A começar pelo visual dos personagens, seja eles com os cabelos mais escuros ou com partes importantes faltando em relação ao universo “original”.

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O visual da outra Winden também é mais nebuloso e os cenários são um show a parte. Não vou estragar as surpresas, mas a direção de arte foi primorosa aqui, além da forma inventiva de transitar entre os mundos.

Teorias

O problema de ver inúmeros vídeos de teorias e acompanhar as maluquices do Reddit é que algumas delas poderiam estar certas, e de certa forma, algumas estão. Sendo assim, em vários momentos, o fator surpresa se perde. Mas Dark é tão cativante, que seus mistérios são mero detalhe em meio ao debate filosófico, sociológico e existencialista da série.

Existem muitas pistas falsas e também piadas dos roteiristas. Os velhos, os novos e as outras versões dos mesmos personagens são tão ricos quanto os que já conhecemos. Não existem vilões e mocinhos. Apenas tons de cinza. O erro às vezes é querer salvar apenas uma pessoa, quando se pode salvar o mundo inteiro.

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+++ 5 filmes para entender melhor DARK e seu final

A Temporada

Sem decepcionar, a série dos criadores Baran bo Odar e Jantje Friese desenvolve e encerra seus conceitos, mistérios, e a saga de todos os seus personagens, que fazem parte de um grande emaranhado de famílias complexas.

Isso não quer dizer que Dark não cria novas perguntas, mas como prometido, fecha a jornada de três ciclos de forma corajosa e bastante dramática. Em certo momento você até compreende e aceita que tudo é um looping, que o começo é fim e o fim é o começo, mas de novo a produção surpreende.

O protagonismo pode até ser mais de Martha neste ano e a luta entre dois grupos pelo controle do tempo ganha desdobramentos apocalípticos, mas, o amor (ironicamente tão rebatido por Schopenhauer na frase de abertura da temporada), parece querer vencer.

Mesmo com um foco maior em Jonas e Martha, as famílias Nielsen, Doppler, Kanwhald, e Tiedemann são honradas. Aliás, falando em Tiedemann, Claudia (Lisa Kreuzer/Julika Jenkins) é peça chave, seja de qual universo for. Porventura, alguns personagens que tiveram destaque antes, são esquecidos no churrasco para servir a história.

O Fim de DARK

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O todo não é tão magnífico quanto os anos anteriores, mas o fim é tão simbólico e significativo como o tempo. Grande personagem da série, o tempo coloca as coisas em seu devido lugar. Terminar uma obra cercada de mistérios não é fácil, mas parece que tudo foi pensado desde o início, e de fato foi.

Planejada para ter apenas 3 temporadas, Dark surfa na onda do próprio sucesso e acaba por cima, respeitando tudo que foi apresentado em seu universo, ao mesmo tempo em que não é monocromático e robótico, pelo contrário, o fim é extremamente emocionante, sentimental (e chuvoso).


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DARK 3ª Temporada

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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