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Critica: Creed – Nascido para Lutar

16 de janeiro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

A luva em uma mão e o lenço na outra

321418id2c_Creed_FightForBlack_48x70_WildPostingsTenho certeza que todos os fãs de Rocky se perguntaram pelo menos uma vez sobre a necessidade de ressuscitar a franquia depois de dez anos e uma conclusão agradável. Eu também fiz essa pergunta, mas abandonei todas as dúvidas no momento em que o gongo soou, as luvas se tocaram mais uma vez e a primeira lágrima escorreu do meu rosto.

O filme, idealizado por Ryan Coogler nos bastidores de Fruitvale Station, apresenta Adonis Johnson, um filho de Apollo Creed nascido fora do seu casamento, que decide largar tudo o que conquistou para seguir a carreira de lutador profissional. Para isso, ele sai de Los Angeles e vai para a Filadélfia procurar Rocky Balboa, o antigo adversário e amigo de seu pai, para que ele possa treiná-lo para enfrentar o atual campeão mundial.

É muito fácil perceber que a trama inicial de Creed tem muitas semelhanças com os outros filmes da franquia, entretanto isso não quer dizer que o longa se prende nisso por muito tempo. A ideia principal e o grande acerto do roteiro, escrito por Ryan Coogler e Aaron Covington, é utilizar esse passado com uma espécie de alavanca para criar um novo filme que seja algo realmente novo dentro da franquia, assim como Jurassic World e O Despertar da Força fizeram no ano passado.

Pensando nisso, o roteiro faz um ótimo trabalho na apresentação de um protagonista crível, no desenvolvimento de relações cercadas por um humor muito forte e na construção de um dilema pessoal que tem tudo a ver com as histórias de superação de Rocky sem esquecer de dar espaço para o antigo brilhar e se desenvolver de uma maneira diferente. Isso é perfeitamente retratado na presença de Balboa, porque ele realmente tem importância na história e sua própria luta pessoal enquanto acompanha o treinamento de Donnie.

Além disso, o tratamento dado para a nostalgia é muito sutil e consciente. Quem já assistiu todos os seis filmes vai acabar percebendo pequenas referências a momentos e frases marcantes em todo lugar (incluindo a camisa do protagonista em uma cena de treinamento), mas também vai ver que tudo aquilo está conectado ao desenvolvimento da narrativa. É só lá no terceiro ato que o roteiro se entrega de vez ao fan service ao trabalhar com duas visões diferentes da clássica cena da escadaria e fazer a platéia vibrar com a utilização brilhante da música-tema.

Enquanto isso, o trabalho de Coogler na direção é muito mais focado na atualização da franquia, inclusive porque o seu estilo de direção é completamente diferente do de Sylvester Stallone e John G. Avildsen. Assim, ele apresenta uma Filadélfia muito mais urbanizada, uma batida marcante e muito mais ligada à cultura negra e um ritmo mais ágil que faz bem para o filme, que é o mais longo da franquia. Mesmo assim, Coogler aproxima a câmera dos personagens e aproveita os planos-sequência no máximo para dar – com sucesso – uma fluidez maior ao andamento do filme.

E para a nossa alegria, o ápice do seu trabalho chega exatamente nos momentos mais marcantes do filme: as lutas. Todas elas tem um estilo próprio que consegue trabalhar de alguma forma a emoção, o suspense e a visão do público em relação aos lutadores, mas o destaque certamente fica com a primeira luta profissional de Adonis. E não podia ser diferente, afinal é toda filmada em único take que explora a coreografia de maneira brilhante e incluí até truques de maquiagem.

E para fechar, logicamente, temos um elenco principal que só não está perfeito porque o vilão do filme e o seu interprete são muito fracos. O jovem Michael B. Jordan (que já trabalhou com o diretor no próprio Fruitvale Station) carrega o filme nas costas em muitos momentos, contribuindo para desenvolvimento aprofundado do protagonista e alcançando um trabalho físico digno durante os treinamentos e lutas. Ao seu lado, temos Tessa Thompson, que interpreta de maneira decente a sua versão mais independente e atual da Adrian.

Mesmo assim, a grande estrela de Creed acaba sendo Sylvester Stallone, que aproveita a transformação do seu personagem em uma espécie de Mickey para entregar sua melhor interpretação de Rocky Balboa de todos os tempos. É difícil saber quem é o lutador e quem Stallone, mas o ator demonstra uma entrega total pelo papel, possui muita química com Jordan, passa todas as dores de um personagem que realmente sente o peso do passado nas suas costas, arranca lágrimas de boa parte do público em um monólogo avassalador e mostra que é merecedor do Globo de Ouro que recebeu na última semana.

Para finalizar, eu tenho que admitir que Creed não é um filme perfeito, mas os pequenos erros são facilmente perdoados pelo espectador quando o filme demonstra todo o seu amor pela franquia, faz a platéia vibrar e arranca lágrimas de muitos marmanjos. É um filme que sabe reverenciar o passado como poucos e ainda marca o início de uma nova franquia que pode aproveitar os nossos personagens favoritos sem ser dependente deles. No fim das contas, Creed é o melhor filme da franquia desde o original e merece ser assistido o mais rápido possível.

OBS 1: Eu não assisti o filme na CCXP ou em alguma sessão especial e mesmo assim a platéia realmente vibrou quando a música-tema ressoou.

OBS 2: Falando nisso, é realmente interessante a maneira como eles misturam algumas notas dessa música ao hip-hop durante todo o filme para só no final utilizá-la. E o melhor, de maneira inesperada e divertida.

OBS 3: Estou oficialmente torcendo para o Stallone levar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para casa!