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Critica: Clube de Compras Dallas


20 de fevereiro de 2014 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Clube de Compras Dallas é um filme surpreendente. Sua aparência documental e simples esconde um drama poderoso, com um roteiro espetacular e um elenco sublime.

O filme conta a história de Ron Woodroof, um cowboy preconceituoso, mulherengo e homofóbico que descobre ser portador do vírus HIV, em uma época onde a doença era quase restrita aos homossexuais. Os médicos dão a Ron apenas 30 dias de vida e ele inicia uma jornada improvável guiada pela vontade de viver.

O roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack acerta em quase tudo e ofusca a também boa direção de Jean-Marc Vallée. O roteiro acerta desde o início, quando usa uma notícia sobre a morte do ator Rock Hudson para estabelecer a personalidade de Ron e seus amigos em poucos minutos. É essa personalidade que vai ser desconstruída nas próximas 2 horas de filme.

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Também acerta em usar esses personagens para abordar temas interessantes como a homofobia e o machismo que faziam parte da sociedade americana nos anos 80 (não estou dizendo que esse preconceito acabou, mas ele era relativamente maior nessa geração). Preconceito esse que Ron também começa a sofrer depois que descobre ser portador do vírus.

O roteiro também mostra em poucas cenas como a doença era pouco conhecida. O próprio Ron duvida que o resultado do exame esteja correto, já que ele era macho e não podia pegar uma doença ligada aos “chupadores de pinto”, como ele mesmo diz. Não se conheciam os sintomas e nem as maneiras de contrair a doença. Tem uma cena no bar, onde os “amigos” de Ron o hostilizam e ele cospe neles. É interessante ver um desses correndo para se limpar por que acredita que pode contrair a AIDS através do cuspe.

A maneira como a medicina americana está atrasada em relação ao tratamento também é retratada. As indústrias farmacêuticas usam um antigo remédio usado para tratar o câncer na luta contra AIDS (sem grandes estudos ou testes) para aproveitar a crise e fazer algum dinheiro, tendo o apoio do governo para isso.

Essa relação entre governo americano (representado pelo FDA), indústrias farmacêuticas e os portadores aparece na metade do filme e vira um dos temas principais da história.

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É verdade que Ron começa toda a briga por que quer viver e depois ele enxerga uma maneira de ganhar dinheiro traficando remédios alternativos e criando um clube para os portadores se tratarem. O que era fruto de um certo egoísmo e da vontade de lucrar, se torna uma briga ativa em prol dos portadores e do tratamento da doença. A guerra contra o governo faz com que Ron se torne um ativista não proposital.

A história é bonita e interessante, já que a luta de Ron o torna uma pessoa melhor e molda os coquetéis que são usados atualmente no tratamento da AIDS.

A direção de Jean-Marc é ofuscada por outros elementos do filme, mas não deve ser desmerecida. Ainda que a direção não apresente nenhum aspecto sensacional ou inovador, Jean fez um ótimo trabalho na direção dos atores (que estão espetaculares) e no ritmo do filme. Sua câmera de mão dita um tom documental e aproxima o público dos personagens. O ritmo do filme também é importante. Mesmo que a edição tenha alguns problemas, Clube de Compras Dallas passa muito rápido.

Boa parte desse ritmo foi preparada pelo diretor em conjunto com os roteiristas. Observem como o filme tem algumas tiradas irônicas que servem como respiro. O filme trata o tema de uma maneira leve que o difere de outros filmes sobre a AIDS, como Filadélfia.

Parte dessa leveza está atrelada aos ótimos personagens do longa. Ron é carismático, mesmo com sua personalidade deturpada. Seu sarcasmo peculiar deixa um sorriso rosto do espectador. Rayon também leve a vida de maneira leve nos intervalos entre o drama vivido por causa da AIDS.

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Se falamos dos personagens, temos que falar das atuações. Como eu já disse várias vezes, um personagem complexo pode ser facilmente estragado por uma atuação. Por sorte, isso não acontece aqui. Matthew McCounaghey e Jared Leto estão geniais. Os atores compraram a história e assumiram os personagens de maneira sublime. Acreditem quando digo que até a sem sal Jennifer Garner está bem no filme.

McCounaghey é o destaque do filme e aparece como favorito ao Oscar de Melhor Ator por sua sensacional transformação física e psicológica. É interessante perceber como a carreira desse ator fez uma curva fechada nos últimos anos e mudou de direção completamente. Aquele ator contestado que só vivia sem camisa, fazendo comédia românticas horríveis como “Um Amor de Tesouro”, agora aceita papéis densos e complexos em produções espetaculares, como “O Poder e a Lei”, “Killer Joe”, “Mud”, “Magic Mike”, “O Lobo de Wall Street” e a série “True Detective”  da HBO.

Depois desse filme posso dizer que Matthew é o ator certo para qualquer papel. Os esforços feitos para emagrecer 21 Kg e interpretar Ron valem um Oscar (sem nenhuma dúvida…). Além do físico transformado, McCounaghey interpreta muito bem todas as facetas de Ron, esteja este em seus momentos bad-ass ou em seus momentos de sofrimento.

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Jared Leto também é um ator contestado que tem bons filmes na carreira e está entre os favoritos ao Oscar de Ator Coadjuvante. Sua transformação em Rayon é magnífica. Comentários de bastidores dizem que Leto, que também emagreceu muito, não saiu do personagem em nenhum momento dos 25 dias de filmagens. Ele chegou a ir ao supermercado travestido de Rayon.

Um filme espetacular. Boas atuações e uma ótima história marcam Clube de Compras Dallas na história dos filmes sobre luta pela vida. Mesmo que o filme seja simples, ele não pode deixar de ser conferido, seja por suas atuações ou por seu tema interessante e importante.

Por Flávio