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Filmes

Crítica: Círculo de Fogo – A Revolta

Uma versão mediana e sem emoção de Círculo de Fogo

23 de Março de 2018 - 00:59 - Flávio Pizzol

Criado como a grande homenagem de Guillermo Del Toro (A Forma da Água) ao universo dos monstros asiáticos que tanto inspiraram sua carreira, Círculo de Fogo chegou de mansinho aos cinemas, fez cada nerd do mundo vibrar enlouquecidamente, conquistou a crítica e, mesmo sem alcançar o sucesso merecido, ganhou dinheiro suficiente para render uma continuação. Estreando depois de muita enrolação e dúvidas, Círculo de Fogo: A Revolta não é um longa necessariamente ruim, mas se torna uma experiência decepcionante quando cai nas comparações com seu antecessor.

Desde a campanha de divulgação, os trailers coloridos e recheados por robôs esportistas plantaram algumas dúvidas sobre as escolhas estéticas da continuação e deixaram os fãs com um gostinho amargo na boca. No entanto, ao contrário do que era esperado, a ausência de Del Toro do seu posto atrás da câmeras passa longe de ser o maior problema desse longa. A agilidade com que os novos Jaegers conseguem correr e realizar acrobacias aéreas realmente me incomodou bastante, mas Steven S. DeKnight – diretor de televisão que aceitou a difícil missão de comandar o longa – imprime sua identidade sem perder a oportunidade de homenagear o original, consegue explorar as dimensões de uma maneira particular e foge, com sucesso, dos principais erros que poderia cometer.

O principal desses escorregões seria, na minha humilde opinião, permitir que Círculo de Fogo: A Revolta virasse uma cópia barata de Transformers. DeKnight investe na velocidade dos combates físicos, abusa das câmeras lentas desnecessárias e repete alguns recursos estilísticos que tem a cara de Michael Bay, porém acerta em cheio na montagem e nos efeitos especiais. As sequências de ação acontecem em ambientes claros e, mesmo sem ter o peso do primeiro longa, nunca chegam a soar confusas. As similaridades com outros sucessos recentes estão ali e possivelmente acompanharam a necessidade de transformar tudo em franquia, mas o diretor merece algum mérito por impedir que o caos visual acompanhasse a destruição do mundo.

Por outro lado, o roteiro escrito pelo próprio Steven S. DeKnight (que foi showrunner da segunda temporada de Demolidor para a Netflix) em parceria com Emily CarmichaelKira Snyder (The Handmaid’s Tale) e T.S. Nowlin (Maze Runner: A Cura Mortal) sente falta de seu criador apaixonado e surge como o grande problema do longa. A premissa de situar a história dez anos depois da guerra apresentada no primeiro longa, dividindo a atenção do público entre o filho do grande Stacker Pentecost (Idris Elba) e uma jovem fã dos Jaegers, é razoavelmente boa, entretanto tudo aquilo que vem depois disso representa um problema muito maior que os Kaijus modificados geneticamente que brotam do Oceano Pacífico.

Pra começo de conversa, todas as tramas e subtramas que acompanham as quase duas horas de projeção são absurdamente clichês e isso transforma Círculo de Fogo: A Revolta em uma grande colagem de acontecimentos que podem ser facilmente previstos por qualquer espectador atento. Como se isso não fosse o bastante, os roteiristas repetem incansavelmente o nome dos robôs como estratégia de marketing, apostam em reviravoltas um tanto quanto questionáveis, reduzem a participação dos cientistas a explicadores de conceitos científicos que “expandem” o universo da franquia e entregam diálogos que só podem ser classificados em duas categorias: expositivos ao extremo ou apenas ridículos. Os momentos vergonhosos que acompanham esse último tópico são tantos que eu já aproveito o momento para sugerir (por experiência própria) que você vá ao cinema em grupo, porque as piadas que podem surgir entre vocês amenizam a maior parte desses problemas e dificultam que alguém saia correndo cinema antes da última cena.

Apesar de sofrer nas mãos de um texto tão pobre, o elenco carismático pode ser considerado um acerto. É verdade que somos obrigados a ver Charlie Day (Quero Matar Meu Chefe 2) apostar em um trabalho ainda mais caricato e Scott Eastwood (Esquadrão Suicida) desfilar seu charme recheado com pouco talento, mas John Boyega (Star Wars: Os Últimos Jedi) e a estreante Cailee Spaeny assumem a liderança do grupo e carregam tudo nas costas com talento e uma boa dose de esforço. Burn Gorman (A Colina Escarlate) ainda retorna ao papel do Dr. Hermann Gottlieb de maneira funcional, enquanto o elenco asiático aproveita o pouco tempo de tela para cumprir seu papel de chamar a atenção dos chineses.

Ainda que a combinação dessas peças deslocadas consiga um bom resultado dentro da proposta, nenhum dos envolvidos parece ter força suficiente para salvar o longa por completo. O roteiro extremamente fraco não consegue construir qualquer empatia entre o público e os personagens, sejam eles seres humanos ou robôs, e acabam transformando uma produção com potencial em um espetáculo sem alma. A ligação entre seres humanos e Jaegers é pouco explorada, enquanto esses funcionam mais como objetos de cena do que como personagens que conseguiam até mesmo arrancar lágrimas solitárias.

As porradas, os danos e até as mortes – de qualquer espécie – passam despercebidas por um espectador que não consegue se conectar com o longa e acaba sentindo falta daquele apego sentimental que Del Toro e sua equipe tinham com o primeiro longa. Em outras palavras, Círculo de Fogo: A Revolta convence como blockbuster de ação, diverte um pouquinho e prepara um terreno fértil para um possível novo longa, porém peca em aspectos importantes, esquece de fazer os fãs vibrarem de maneira genuína e encerra, infelizmente, a projeção como uma versão mediana e sem emoção do seu antecessor.