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Filmes

Crítica: Christopher Robin pode não ser inesquecível, mas é muito fofo

Ursinho Pooh e sua turma retornam com muito carinho e lições necessárias.

20 de agosto de 2018 - 13:45 - Flávio Pizzol

A Disney cravou seu nome na história do cinema (e do mundo) quando, há muito tempo, transformou suas animações nas versões “reais ” dos contos de fadas medievais, fazendo com que as gerações mais novas ignorem completamente que Cinderela, A Bela e a Fera e Alice possuem antepassados literários muito mais violentos e assustadores. De uns anos pra cá, a vontade de manter esse status levou o estúdio a reapresentar esse material – que já está preparado e embalado pra entrega – para novos públicos através de grandiosas adaptações live-action de suas histórias mais famosas. Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível chega para ser a nova adição dessa proposta que garante o retorno dos investimentos com uma mistura de transposições fiéis e apresentação de novos pontos de vista.

A nova história da turma que vive no Bosque dos Cem Acres se encaixa obviamente na segunda opção, considerando que a trama acompanha uma versão adulta e sem imaginação de Christopher Robin (chamado de Cristóvão no Brasil) que trocou sua família pela pressão do trabalho. Ao mesmo tempo, o misterioso sumiço de parte do amigos de Pooh leva o ursinho para a cidade grande com o objetivo de pedir ajuda ao seu antigo amigo humano, tirando-o da sua rotina e ensinando as lições preciosas que não podem faltar em uma fábula desse tipo.

Apesar de ser bastante simplória, a ideia funciona porque consegue reunir todos os aspectos clássicos que compõem o gênero, indo desde os “animais” falantes até as lições de moral que obrigatoriamente surgem no clímax. Nesse caso, é provável que o maior acerto de Christopher Robin seja abraçar essa vocação de filme clássico da Disney para garantir que a nova roupagem não fugisse dessa maneira infantil, ingênua e um tantinho metalinguística de contar histórias que parece se encaixar melhor com a calmaria do Ursinho Pooh do que com qualquer outro personagem. Ele transmite uma sensação de acolhimento que acaba se tornando o grande trunfo do longa.

A única decisão arriscada tomada pelo roteiro de Alex Ross Perry (Cala a Boca Philip), Tom McCarthy (Spotlight: Segredos Revelados) e Allison Schroeder (Estrelas Além do Tempo) está na atualização do status físico dos personagens “animados”: quem antes era tratado apenas como fruto da imaginação de um criança, agora pode ser visto por qualquer ser humano. Isso cria um certo incômodo naqueles que conhecem as histórias e todos os seus pequenos segredos, mas a manutenção da ligação de cada elemento com a mente de Christopher Robin afasta essa sensação e, no fim das contas, a substituição acaba funcionando por gerar boas piadas no decorrer da trama.

O que realmente faz falta é um pouquinho mais de cuidado com a apresentação e posterior desenvolvimento da história. Os dois primeiros atos se perdem no meio de muitas subtramas desnecessárias (que nem são devidamente encerradas), se apoia numa série de coincidências criadas com o propósito único de levar a narrativa para a frente e enfraquece a construção de uma base que tinha potencial pra ser bem mais forte. Não posso negar que um bando de crianças conversando me atrapalhou muito durante esses mesmos momentos, mas eu refleti bastante sobre o filme e percebi que esses outros fatores me impediram sim de mergulhar efetivamente na história. Algo que, apesar do papo paralelo, aconteceu depois da deliciosa sequência em que ele enfrenta o “efalante”.

E a verdade é que as coisas mudam bastante a partir daí. O terceiro ato é mais encaixado, direto, divertido e fofinho, ganhando muitos pontos com a chegada oficial de uma série de mensagens sobre liberdade e família que engrandecem as coisas. Parte desse acerto vem, é claro, de um roteiro que finalmente encontra a direção no meio da névoa, mas uma outra parte muito importante vem do trabalho de direção de um nomes mais versáteis do mercado atual: Marc Foster (Em Busca da Terra do NuncaMais Estranho que a Ficção007 – Quantum of Solace e Guerra Mundial Z). Ele acerta na recriação visual da época, controla o ritmo cm muita habilidade, trabalha bem os aspectos metalinguísticos e lúdicos que movimentam a trama e, principalmente, mostra ter a sensibilidade perfeita para conduzir uma história tão doce, icônica e clássica por natureza.

Por fim, não podemos ignorar que muitas das peças que completam as engrenagens são trazida pela evolução dos personagens principais e pelo ótimo trabalho do elenco. Ewan McGregor (Fargo) é a melhor escolha possível para interpretar Christopher Robin e mostra isso tanto na versão rabugenta e obcecada que inicia o filme, quanto naquela mais encantadora e alegre que rouba a cena depois da última reviravolta. Hayley Atwell (Capitão América: O Primeiro Vingador) e Bronte Carmichael (On Chesil Beach) não tem muito material para fugir do comum, mas também crescem e aparecem no clímax.

Isso sem contar com os nobres habitantes do Bosque dos Cem Acres. A computação gráfica impecável ajuda a construir um visual que conquista as crianças de cara e levar todos os trejeitos da turma para a tela, enquanto o roteiro acerta ao deixar as melhores cenas do filme em suas mãos. É verdade que o Tigrão e o Leitão poderiam ter feito mais do que uma série de piadinhas bobas com suas características, mas acompanhar a trajetória pelo ponto de vista de Pooh e Bisonte possui seu valor graças ao bom aproveitamento que o longa faz das personalidades de cada um. O ursinho fica dividido entre a ingenuidade de quem quer ajudar sem saber como e aquele tom de voz que transmite uma paz inexplicável, ao passo em que o pessimismo do burrinho rouba a cena com algumas das melhores tiradas cômicas da narrativa.

Além disso, ninguém pode desmentir o fato de que ver esses quatro personagens finalmente reunidos em uma aventura durante o terceiro ato é o que ativa a nostalgia de uma vez por todas e entrega, apesar dos escorregões citados, o filme que todo mundo queria ver. Uma produção fofa que reunisse a família no cinema, encantando as crianças com sua roupagem colorida e oferecendo lições valiosas para os mais velhos. Eu fiquei com essa sensação de que o texto poderia ter sido mais direto e investido mais cedo nos elementos que injetam tanta energia positiva nos últimos trinta minutos, mas também saí com a alma tranquila por ter certeza de que Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível conseguiu reproduzir uma parte importante da minha infância de um jeitinho fofinho e carismático.