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Séries

Chernobyl é o terror da nossa história

A realidade dos fatos assusta pelo realismo e nos deixa perplexos


10 de junho de 2019 - 00:44 - felipehoffmann

Chernobyl é a mais nova minissérie da HBO que conta a história do maior desastre nuclear da humanidade. Como que a negligência humana, o desdém das autoridades e a ambição armamentista criaram o terror mais factual da nossa era.

 

Chernobyl é o tipo de série que causa medo pela sua realidade. O terror terreno se espalha feito a radiação impregnada no ar daquela região. O medo é tão presente e tão factível que só o olhar de espanto consegue nos conectar com a série.

Contada em apenas cinco episódios a minissérie parece nos dizer que é o suficiente para impactar pelos danos das avarias humanas. O desastre nuclear de Chernobyl foi exclusivamente fruto da ambição governamental soviética somada à negligência dos diretores da usina. Eles sabiam dos riscos que corriam, mas optaram pelo inseguro e pela morte de, pelo menos, 90 mil pessoas, direta e indiretamente, decorrente da explosão e do vazamento da radiação.

Bom seria se essa série nem existisse. Se não houvesse roteiro do desastre capaz de transmitir tamanha dor. Se o dia 26 de abril de 1986 não estivesse nos livros de história.

 

chernobyl zonas de exclusão

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Fato é que, em parte pelo desastre de Chernobyl, o processo de abertura política da então União Soviética se acelerou, culminando na Glasnost. E, claro, serviu de exemplo para outras construções nucleares e a não repetição de uma receita trágica.

Em 2011, por exemplo, a usina nuclear de Fukushima, no Japão, também explodiu decorrente do superaquecimento de um de seus reatores, após um terremoto de 8,9 seguido de um tsunami. Nenhuma morte.

Todo esse processo, da explosão ao descaso e suas consequências, estão presentes na minissérie Chernobyl. O grande acerto da HBO aqui foi escolher um tom de horror que toda a situação realmente passou. Um terror terreno que espanta pela realidade.

O medo estampado na cara dos soviéticos do alto escalão contrasta terrivelmente com a inocência da população exposta à radiação. Soma-se tudo com uma trilha sonora que ousa rasgar o violino e criar um suspense até dentro de um sorriso e pronto. Chernobyl te encanta.

 

chernobyl radiacao mortes

 

Sua avaliação absurdamente alta nos sites de reviews é um retrato de sua capacidade. A minissérie vem crescendo no boca a boca e criando conflitos ao melhor estilo Guerra Fria.

Se ela é unanimidade para o mundo, para alguns russos é um problema. Recentemente, segundo a Vice, eles anunciaram uma série mostrando o ponto de vista soviético do acidente, longe do olhar hollywoodiano da situação. Veremos.

Na leitura americana da coisa, destaca-se a incrível produção de design de todo o ambiente. Um dos méritos de Chernobyl é justamente essa representação fidedigna de toda situação e passear pela cultura russa é absurdamente crível na minissérie. E mesmo que todos os diálogos da temporada sejam em inglês, não tira o realismo do ambiente retratado.

Aliás, um grande acerto da HBO foi justamente a escolha dos diálogos em inglês. Dada a devida suspensão de descrença, isso abrange a produção para outros públicos e certamente a coloca no radar das grandes premiações de 2019.

 

chernobyl jared harris

 

Craig Mazin (Todo Mundo em Pânico III), criador e roteirista da série, já passeou pela comédia, pela fantasia, ação e besteirol. Mas foi no drama onde parece que se encontrou. Chernobyl é dramática no ponto certo e seu roteiro é peça chave nisso. E dá pra colocar muito desse texto na conta de Jared Harris (Mad Man). O ator está incrível e mostra toda sua capacidade, passeando pelo medo da imensidão do desastre, junto da necessidade de explicação de um cientista para os leigos.

Grande parte do terror que a série estampa vem dos olhos de Harris e isso também assusta quem assiste.

Chernobyl foca no passado e mira no presente, nos ajudando, indiretamente, a imaginar como situações como essas são completamente plausíveis e que um desastre pode acontecer num estalo de dedos. O terror terreno da minissérie assusta demais pelo realismo e isso nenhum livro de história vai poder tirar. Que o dia 26 de abril de 1986 nunca se repita.