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Critica: Capitão América 2 – O Soldado Invernal


11 de abril de 2014 - 22:50 - Flávio Pizzol

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A Marvel volta aos eixos e ensina os outros estúdios a fazerem um puta filme de super-herói. Capitão América 2 é bem produzido, dinâmico, intenso e muito bem amarrado (como filme solo e dentro do universo completo). Tudo faz com que essa continuação seja o “Dark Knight” da Marvel e se iguale – e talvez até supere – o próprio Vingadores.

Depois de Vingadores, Steve Rogers está atuando como um verdadeiro agente da SHIELD, mas tudo começa a dar errado quando a organização se mostra comprometida por décadas de infiltrações planejadas pela HIDRA. Isso é só o ponto de partida para analogias com sistemas de vigilância mundial, vazamento de dados e outros assuntos atuais que dão um frescor e uma urgência que os filmes da Marvel estavam precisando.

Todo esse tom de suspense e espionagem digno dos anos 80/90 é a melhor sacada do filme. Isso faz com que o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely se enquadre de de maneira perfeita com o Capitão, que não é um super-herói malabarista ou extremamente poderoso, como Hulk, Homem de Ferro e Thor. Ele é um agente, um herói de chão que funciona muito bem nesse tipo de história, principalmente por abrir espaço para seu desenvolvimento como personagem.

Desenvolvimento esse que se dá através dos muitos questionamentos políticos e internos feitos pelo filme. A principal característica do Capitão é o seu lado bom e honesto (até demais…), que é utilizado da maneira correta, sem que o personagem soe falso demais. Esse tipo de desenvolvimento faz falta na Marvel e é por isso que essa continuação pode ser o marco para que a Casa das Ideias mude algumas coisas que estavam soando fracas e repetitivas nas suas produções.

Com a melhora dos personagens e do desenvolvimento do filme, podemos dizer que esse é o filme mais sério, intricado e tenso da Marvel. Diferente de Homem de Ferro 3, que também prometia uma abordagem similar e pisou na bola, Capitão 2 cumpre toda essa urgência e seriedade que estava evidente nos trailers, principalmente os últimos que eram voltados para a morte de um certo personagem.

Mas se eu falo que o filme é sério, surgem as mesmas perguntas que vinham sendo feitas pelos fãs desde o primeiro trailer: E o humor característico da Marvel? Ele está presente no filme, mas é usado de maneira mais pontual e suave, ou seja, de maneira completamente oposta a Thor 2. Enquanto esse último usava a fórmula Homem de Ferro de fazer uma piada a cada segundo e quebrar cada cena dramática com uma tirada, Capitão 2 não abusa do humor e aproveita cada momento mais contemplativo e parado para desenvolver os personagens e a dinâmica entre eles, que é justamente onde está a maior parte da comédia. A relação entre o Capitão, o Falcão e a Viúva Negra tem muitas piadas divertidas, principalmente relacionadas à idade do herói.

No fim das contas, esse roteiro é o mais bem construído da Marvel. A dinâmica é intensa, as piadas entram na hora certa, os vilões são perigosos de verdade, as reviravoltas perfeitas e as consequências  são drásticas para a continuidade do universo.

Além de um roteiro bem escrito e nem um pouco didático, outro fator que surpreende positivamente é a direção do filme. Eu tenho que admitir que não botava muita fé nos irmãos Anthony e Joe Russo, principalmente por eles terem a série de comédia “Community” (que é muito boa, por sinal) como principal trabalho da carreira. Minha dúvida girava em torno de como eles lidariam com a ação gigantesca e avassaladora da Marvel e eu tenho que dizer que queimei minha língua.

Os dois lidam muito bem com tudo no filme, desde o clima tenso até a já citada ação poderosa, passando pelo humor pontual, que deve ser influência dos dois. O desenvolvimento da história é ditado a pulsos firmes pelo irmãos, que, aliados a uma edição precisa, lidam perfeitamente com as várias histórias, camadas e reviravoltas do filme.

As cenas de ação são espetaculares, sendo as mais bem elaboradas e estruturadas desde a união dos heróis em Os Vingadores. Só não digo que superam estas porque unir muitos heróis e poderes pode ser mais complexo que o esperado (é só observar a confusão que Bryan Singer faz nos filmes dos X-Men). Mas devo dar meu braço a torcer e aceitar que as cenas do Capitão são eletrizantes e bem coreografadas pra caralho.

Não poderia separar uma cena de ação e exaltá-la, mas um bom exemplo do que falei é a primeira cena de ação, que se passa em um navio. A mistura entre takes abertos e fechados (quase claustrofóbicos, como na cena do elevador) lembra a urgência requerida por Capitão Phillips, assim como a câmera de mão que os cineastas mais novos tanto usam. Além dos ótimos movimentos de câmera, essa cena é concluída com um grande porradeiro entre Chris Evans e George St.Pierre, o lutador profissional campeão do UFC.

Toda a ação do filme tem uma característica que também deve ter vindo com os diretores. Além da câmera de mão, pode-se observar uma grande quantidade de efeitos práticos nas cenas mais complexas. Essas cenas são bem elaboradas e editadas, lidando com muitos elementos ao mesmo tempo, mas sem abusar dos efeitos especiais. Mesmo a última e maior cena não usa muito esse artifício.

As atuações sempre são difíceis de analisar em um filme de super-herói. A maior parte do elenco atua no automático, porque o desenvolvimento dos personagens é raso ou por não precisar de tanto esforço mesmo. Nesse filme não é diferente, mesmo com os personagens complexos, reviravoltas e o tom tenso.

Chris Evans é um dos destaques, mesmo que diga em entrevistas que não queira mais atuar. Ele realmente entendeu Steve Rogers e mergulhou fundo no íntimo do herói, algo que não foi possível na apresentação do herói em “O Primeiro Vingador” e no fim da Fase 1 em “Os Vingadores”. Além da parte dramática ter melhorado, pode-se perceber uma grande melhora na parte física do personagem que está mais completa.

Outros destaques vão para a linda Scarlett Johansson, que está mais leve nas cenas de ação e mais centrada no restante do tempo, e para Anthony Mackie. O Falcão é uma ótima adição a história e merece – e deve – ser melhor desenvolvido nos próximos filmes. Entre muitas piadas com Steve, Mackie manda muito bem nas cenas de ação voadoras.

Assim como o sidekick voador do Capitão, o Soldado Invernal aparece pouco e é muito mal desenvolvido. Sebantian Stan entra mudo e sai quase calado, mas deixa muitas brechas para o retorno de seu personagem na última cena pós-créditos.

O elenco principal é fechado pelos veteranos Samuel L. Jackson e Robert Redford. O primeiro tem sua maior participação em um filme da Marvel, tendo inclusive sua própria cena de ação, mas continua distribuído seu jeito fanfarrão e leve visto em outras participações. O outro faz um vilão complexo, forte e memorável, usando toda a sua experiência em filmes de suspense e espionagem, como “Três Dias em Condor”.

Um filme tenso e importante para a saga, mas que não deixa de ser um filme de super-herói. Tudo está no lugar e funciona como uma grande engrenagem que prende a atenção de iniciantes, fãs e de super-fãs por suas mais de duas horas de filme e acrescenta tensão e perigo para os próximos filmes. Se não é melhor, Capitão América 2 se iguala facilmente a qualquer outro filme da Casa das Idéias.

OBS 1: Falando em acrescentar elementos ao universo cinematográfico da Marvel, um dos melhores easter-eggs do filme é a citação de Bruce Banner e Stephen Strange (nome real do Doutor Estranho, que é um possível novo filme solo da Marvel) como possíveis perigos para o mundo. Será que teremos o Hulk vilão? E quão grandes seriam os poderes místicos do Doutor?

OBS 2: É interessante como o filme se conecta perfeitamente como os últimos episódios da série Agents of Shield, que teve um ótimo episódio essa semana. Uma coisa interessante é que, no 16º episódio, o Agente Sitwell cita que vai embarcar em um navio e esse é o lugar onde se passa a primeira cena de ação do filme. Isso estabelece que as ações do filme e do 17º episódio ocorreram quase simultaneamente.

OBS 3: Nesse mesmo episódio também vemos Fitz, um dos integrantes do grupo do Agente Coulson, falar que criou uma espécie de laser. E, adivinhem, esse é o mesmo laser usado por Fury e Maria Hill em dois momentos do filme.

OBS 4: Outro ótimo easter-egg pode ser encontrado no túmulo de Nick Fury. Lá pode-se ver uma certa citação bíblica de Ezequiel que ficou famosa em Pulp Fiction, de Quentin Tarantino.

OBS 5: Os irmãos Russo não esqueceram das suas origens e deram uma ponta muito legal para Danny Pudi, o interprete do nerd Abed em Community. #SixSeasonsAndaMovie