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Crítica: Capitã Marvel não foge da fórmula, mas voa alto

Arroz, feijão, nostalgia, gatos famintos e mulheres empoderadas...

7 de março de 2019 - 13:54 - Flávio Pizzol

Há pouco menos de um ano, a cena pós-créditos de Vingadores: Guerra Infinita revelava para todo mundo que, mesmo destruída, a Terra ainda tinha uma carta na manga para a luta contra Thanos. Uma super-heroína que tinha poder suficiente para chegar com o pé na porta durante o maior desastre que o planeta já enfrentou. Uma personagem que, apesar de sua grandiosidade, ainda estava esperando tanto um chamado de emergência, quanto um filme de origem pra chamar de seu. Uma mulher empoderada que finalmente ganhou nome, sobrenome e codinome numa aventura que cumpre seu papel de introduzir uma nova peça no tabuleiro do MCU, criar conexões com o todo e divertir o espectador que espera ansioso pelo Ultimato. Essa é a Capitã Marvel!

E, cumprindo seu papel da dar boas-vindas a nova “dona da porra toda”, o longa volta no tempo e leva o público para um viagem direta para os anos 90 com o objetivo de apresentar Carol Danvers, uma ex-piloto humana que vive como uma agente Kree até cair na Terra e descobrir que sua vida pode ser muito mais do que sempre acreditou. Isso faz com que ela se junte a um jovem Nick Fury que ainda enxerga perfeitamente para compreender os segredos que cercam seu passado, descobrir sua identidade e ainda salvar o mundo das consequências que acompanham uma guerra intergaláctica.

Todos elementos que possuem um papel decisivo dentro dessa engrenagem  cujo o grande propósito é ser um filme de origem para uma heroína que deve ganhar cada vez mais espaço o universo. Diante desse peso que sempre estará conectado a personagem, o roteiro escrito pelos diretores Anna Boden, Ryan Fleck (ambos responsáveis por Se Enlouquecer, Não se Apaixone) ao lado de Geneva Robertson-Dworet (Tomb Raider: A Origem) escancara a sua vontade de ser minimamente inventivo. Isso resulta em algumas brincadeiras com flashbacks, memórias e linhas temporais que injeta um toque de novidade na construção do clima do mistério em torno da protagonista, no entanto fica visível que muitas dessas ideias acabam sendo polidas pelo lado funcional do longa. Afinal de contas, Capitã Marvel ainda é um filme que precisa preencher lacunas do MCU.

Isso justifica – em partes – o didatismo exagerado dos primeiros minutos e a “queda” na Fórmula Marvel, principalmente no terceiro ato. As explicações estão ali porque precisam inserir o público nesse contexto preenchido por mundos, personagens e conceitos inéditos, mas não incomodam tanto dentro de um roteiro que apoia tudo isso na boa dinâmica entre os personagens. Já o uso da receitinha de bolo que consagrou os filmes de super-heróis no cinema trás consigo alguns elementos que atrapalham mais, incluindo os vilões genéricos (uma perda depois de Killmonger e Thanos) e uma reviravolta que, além de nascer clichê, não recebe o melhor desenvolvimento possível. É possível resolver o grande mistério de Capitã Marvel nas primeiras cenas e isso acaba tirando parte do fôlego da produção na transição para o clímax.

Por sorte, o longa se recupera rapidamente e deixa claro que a fórmula não passa de um mal necessário, permitindo que aquela inventividade citada lá em cima ajude o texto a encontrar algum equilíbrio entre novidades e repetições. Isso significa que mesmo escorregando em algumas escolhas ruins ou parecendo tímido antes de engrenar, o roteiro faz como a Capitã Marvel e se levanta para mostrar que a base do filme é mais forte do que os erros pontuais. Vide o tom muito balanceado, o clima de anos 90 que injeta uma cor a mais em alguns momentos, o humor certeiro e, principalmente, o relacionamento entre os personagens.

Não é à toa que o trio formado por Carol, Nick Fury e Maria Rambeau pode ser considerado a alma do longa. O relacionamento dos dois últimos com a protagonista tem a função complexa de nos apresentar a essa grande heroína pelos olhos (ba dum tss) ora de um agente ainda inocente que abraça o lado cômico, ora de uma amiga de longa data, reforçando tanto a busca por humanidade, quanto a necessidade de entender seu passado. Tudo isso abre espaço para que o longa pegue emprestado elementos típicos dos filmes de duplas policias (como Máquina Mortífera) para dar gás ao primeiro ato, mergulhe sem medo no contexto dramático que traz a tona algumas questões de representatividade e use os coadjuvantes com uma escada que leva Danvers a sua transformação definitiva na personagem mais poderosa do MCU.

Esse é o momento onde Brie Larson (O Quarto de Jack) se liberta de todas as contenções propostas pelo roteiro para, literalmente, brilhar. É verdade que ela parece estar desconfortável ou um pouco abaixo das capacidades de uma vencedora do Oscar em diversos momentos, mas também é notável que o caminho percorrido constrói uma personalidade forte, irreverente e bastante sarcástica que recebe uma conclusão merecida e poderosa onde a personagem pode finalmente aproveitar seus poderes. Ao mesmo tempo, é importante ressalvar que o resultado não seria o mesmo sem a química ente o trio e as atuações carismáticas de Samuel L. Jackson (Vidro) e Lashana Lynch (Bulletproof).

E, apesar da construção genérica de todos os antagonistas, o mesmo pode ser dito das atuações que preenchem o “outro lado”, visto que os vilões cumprem seu papel formulaico como contrapontos da Capitã Marvel. Ben Mendelsohn (Jogador Nº 1) não foge da persona vilanesca que alavancou sua carreira, porém surpreende ao apresentar vislumbres mais sensíveis e cativantes por baixo da pesada maquiagem skrull. A premiada Annette Bening (Mulheres do Século 20) também se esforça para dar corpo à Inteligência Suprema, mas parece mais deslocada do que o restante do elenco. E até mesmo Jude Law (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald) e sua equipe mostram algum valor de entretenimento, mesmo atuando no automático em 100% das cenas.

Parte disso pode ser fruto de uma direção que prefere jogar no seguro do que tentar deixar marcas autorais no Universo Marvel. Isso pode ser um pouco decepcionante depois das viagens espaciais de Gunn ou Waititi, mas não significa necessariamente que o resultado é ruim. Muito pelo contrário. Boden e Fleck não assumem grandes riscos ou piram quando estão em outras realidades, mas injetam um bem-vindo toque indie nas cenas de diálogo, entregam cenas de ação que, mesmo sem grande inventividade, cumprem seu papel dentro de um longa de origem e, acima de tudo, compreendem o peso da personagem dentro e fora do Universo. E, se a Capitã Marvel rouba a cena de uma vez por todas no final, parte da “culpa” também é deles.

É verdade que eles não conseguem evitar que o roteiro fique mais preso do que deveria na Fórmula Marvel, que algumas cenas de ação soem pouco impressionantes em comparação com outros filmes, que os efeitos visuais não estejam sempre impecáveis ou que a montagem crie momentos “soltos” dentro de toda organização narrativa. É impossível negar tudo isso, mas é ainda mais difícil negar que o longa compensa muito bem esse pequenos escorregões com uma aventura cativante, um gato cheio de surpresas e várias conexões que devem mexer com os fãs de longa data. E mais importante do que tudo isso: Capitã Marvel completa com êxito sua missão de apresentar uma protagonista feminina que entende o heroísmo; que erra e cai várias vezes, mas levanta cada vez mais forte; que não precisa provar nada para ninguém; e que pode ser o modelo perfeito para a criação de garotas cada vez mais fortes e empoderadas. Seja bem-vinda, Capitã Marvel!


OBS 1: A Goose é incrível.

OBS 2: Por mais que o filme não seja “panfletário”, o olhar da filha de Maria no final do longa já resume e comprova tudo que ele quer falar sobre representatividade.

OBS 3: A abertura é inesperada e emocionante. Preparem os lencinhos…

OBS 4: E a primeira cena pós-créditos (são duas no total…) é de arrepiar todos os pelos de quem está ansioso por Vingadores: Ultimato.