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Filmes

Café Society: Homenagem ao cinema a la Woody Allen


8 de setembro de 2016 - 15:00 - Flávio Pizzol

Eu posso estar sendo realmente babaca, mas acredito que todo cinéfilo que se preze tem quase a obrigação de conhecer a filmografia de Woody Allen. Eu até entendo quem não gosta dos filmes do diretor, mas é inegável que o seu amor por Nova York, seu estilo de filmagem aberto ao improviso e seus roteiros cheios de diálogos sarcásticos foram muito importantes pro cinema. E, apesar de alguns tropeços, não existe nada mais interessante para os fãs do que ver Woody falando sobre a história desse mesmo cinema mais uma vez.

O longa, que se passa entre Los Angeles e Nova York na década de 30, leva o espectador para dentro de um universo marcado por bastidores conturbados, festas glamourosas e empresários poderosos. É nesse contexto que o jovem Bobby (Jesse Eisenberg) viaja para trabalhar com seu tio, um poderoso agente da indústria cinematográfica, e acaba desiludido por um triângulo amoroso bem complicado e, de certa forma, típico de comédias românticas.

É um desenvolvimento típico de outros longas de Woody Allen, esbarrando em diversas situações que lembram Annie Hall, Manhattan, Meia-Noite em Paris, Celebridades, Tiros na Broadway, A Era do Rádio e tantos outros longas escritos por ele. Talvez seja exatamente por isso que alguns erros pouco comuns nos seus textos chamem tanta atenção, principalmente nas entradas desnecessárias e repetitivas do narrador. Por mais que eu seja apaixonados pelos textos dela, preciso admitir que a insistência em falar mais do que mostrar e a inclusão de uma subtrama previsível sobre o irmão do protagonista me incomodaram bastante.

Os últimos minutos de filme também não me agradam muito, mas é necessário aceitar que “a vida é uma comédia escrita por um roteirista sádico”. Essa frase dita por Bobby em certo momento da trama brinca diretamente com Allen e deixa claro que o restante do filme é fruto de um roteiro típico dele, ou seja, uma comédia de costumes leve, recheada de referências e reflexões sobre o mundo em diálogos super rápidos. Existe um em especial  que discute as diferenças entre o judaísmo e o cristianismo de uma forma cínica, brilhante e deliciosamente hilária.

Já na direção, eu realmente acho que esse deve ser o seu filme mais cuidadoso visualmente desde Meia-Noite em Paris, que – coincidentemente ou não – também se passava em parte na década de 30, homenageando vários escritores que mexeram com o cinema. Indo na contramão daquela tática de ligar a câmera e deixar rolar, Café Society passa a impressão de ter planos mais calculados e meticusos, incluindo algumas sequências sem cortes bem elaboradas.

Um filme muito bonito e bem pensado que tira o máximo da participação do italiano Vittorio Storaro, o diretor de fotografia responsável por Apocalypse NowO Último Imperador e O Último Tango em Paris. Storaro sabe como brincar com o glamour de Hollywood com o reflexo constante das luzes em tudo, reforçar todas as homenagens pensadas pelo roteiro e, logicamente, criar um composição de cores realmente absurda entre vestidos de gala, luzes de palco e as cores magníficas do entardecer na cidade.

Enquanto isso, o elenco só precisa de muito para completar a história de forma competente, já que é só aproveitar o roteiro rico e imensamente divertido de Woody Allen. Jesse Eisenberg se encaixa com perfeição no estilo ingênuo e apaixonado de Bobby, funcionando como um alter-ego do próprio diretor em muitos momentos. Steve Carell encontra o tom perfeito para não deixar que seu Phil Stern seja caricato ou babaca ao extremo e Kristen Stewart comprova que consegue ser uma boa atriz quando é comandada por um grande diretor.

Além deles, Jeannie Berlin (The Night Of), Ken Stott (O Hobbit: Uma Jornada Inesperada), Corey Stoll (Homem-Formiga), Stephen Kunken (Ponte dos Espiões) e Blake Lively (Águas Rasas) merecem um bom destaque no longa. Inclusive, eu realmente acho que a última seja melhor atriz, tenha mais beleza e aproveite sua presença em cena com mais facilidade do que Kristen. E eu tenho que admitir que isso me impediu de entender os motivos que levaram Bobby a trocar uma pela outra.

O resultado, como todos já devem ter entendido, é um filme divertido, cheio de diálogos complexos e homenagens ao cinema em cada giro de câmera. Café Society certamente escorrega em alguns problemas de roteiro, mas isso não o impede de se apoiar nos cenários incríveis e na fotografia divina para virar um dos filmes mais bonitos da carreira de Woody Allen. Quem não está acostumado com esse tipo de filme pode ficar um pouco mais incomodados com o estilo ou certos problemas, mas os fãs do nova-iorquino só vão precisar relaxar e curtir sem preocupação nenhuma.