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Filmes

Cães do Espaço (Space Dogs): E se nós vivemos no mundo deles e não o contrário?

Documentário conceitual sobre cães de rua que foram para o espaço.


6 de outubro de 2019 - 21:20 - Tiago Soares

Experiências com animais são sempre difíceis de ver. Ao mostrar vários cachorros sendo preparados para serem enviados ao espaço, Elsa Kremser e Levin Peter tentam suavizar tal empreitada ao mostrar cachorros livres pelas ruas de Moscou. O contraste e ambiguidade se mostram eficientes no início, mas vão se tornando chatos, desinteressantes e extremamente desfocados com o passar do documentário.

“Cães do Espaço” (Space Dogs) conta a história de uma lenda que assola a cidade de Moscou, capital da Rússia. O primeiro ser vivo enviado ao espaço foi Laika, uma cachorra que acreditam ter retornado as ruas como fantasma que assola todos os seus habitantes, sejam eles humanos ou não. Com poucas palavras, os diretores pretendem trazer um relato da perspectiva dos descendentes do animal, intercalando com imagens de arquivo da era espacial soviética.

Devido a tamanha discrepância entre as histórias, parece que estamos vendo dois filmes distintos, já que existe continuidade na narrativa espacial, ao contrário da trama canina, onde o tédio vence. Acompanhar dois cães de rua comendo, sendo expulsos de lugares, cheirando coisas e mordendo carros, não chama tanto a atenção, mesmo com a brutalidade deste universo particular. Fica a impressão de que somos meros coadjuvantes no mundo de seres compassivos e agressivos na mesma medida.

Não podemos reclamar da originalidade do relato cru de Kremser  e Peter. Uma parte da Terra se torna o espaço, sem precisar necessariamente mostrá-lo (com exceção do início enigmático). O realismo apresentado também cumpre sua função documental, mas muito conceito não atrai totalmente nossos olhos e nossa atenção durante pouco mais de 90 minutos. Apesar de belas imagens em certos momentos e de uma crítica sutil a vaidade e ambição humana, Cães do Espaço opta pelo cinema contemplativo, do silêncio, onde na verdade, havia muito o que falar.

* Filme visto na 43º Mostra de São Paulo