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Filmes

Crítica: Bumblebee – Um clássico da Sessão da Tarde

E, consequentemente, o melhor filme de Transformers já feito...


31 de dezembro de 2018 - 14:25 - Flávio Pizzol

Se existe alguma franquia recente que podemos afirmar com certeza que está saturada, o nome dela é Transformers. Talvez a bilheteria consideravelmente alta ainda disfarce o tamanho do estrago, mas a verdade é que nem o público, nem a crítica e tão pouco os produtores estavam satisfeitos com os rumos repetitivos e confusos que os filmes tomaram nos últimos anos. É nesse contexto que uma mistura de spin-offprequel e filme-solo surgiu como solução para renovar os ares, dar uma cara nova para a franquia. E o escolhido pra liderar tal empreitada foi, obviamente, o mais carismático e simpático dos Autobots: Bumblebee.

A trama, assim como no longa original, usa a guerra em Cybertron como ponto de partida para que os Autobots busquem refúgio na Terra. A diferença é que, dessa vez, Bumblebee é o único que chega ao nosso planeta num primeiro momento, aceitando a missão de proteger o local e preparar o terreno para a chegada de seus compatriotas. Em outras palavras: o longa remonta o começo de tudo de uma maneira mais contida, substituindo a quantidade assustadora de robôs, as explosões e o jeito Michael Bay de dirigir por uma ótima protagonista feminina e um singelo – e acertado – clima oitentista.

E o longa não deixa que essa vibe fique restrita ao campo das ideias e faz o favor de aproveitar ao máximo tudo o que o espírito dessa década tem para oferecer. Mais do que isso, o roteiro de Christina Hodson (responsável pelo futuro longa das Aves de Rapina) acerta ao inserir aspetos ligados intimamente aos anos 80 como partes essenciais da trama e dos seus protagonistas. O amor que Charlie possui pelos carros e pela música da época, por exemplo, se tornam elementos mais do que importantes quando ela descobre, se conecta e passa a compreender o Bumblebee. E, por mais que todos esses “conectores” sejam bastante simples em termos narrativos, a maneira como tudo está interligado e encaixado sem extravagância é um ponto muito forte do longa.

Além disso, a organização da história funciona. Hodson apresenta todas as peças com segurança e agilidade, posiciona as aparições dos vilões com cuidado, dá tempo pro público se conectar tanto com a Charlie quanto com o Bumblebee e entrega um clímax que surpreende por não ser apressado ou longo demais (como acontecia na franquia original). Inclusive, a ligação criada entre o espectador e os personagens permite que o terceiro ato cresça sem precisar exagerar na loucura e na guerra. Ou seja, o longa mantém seu espírito contido, mas consegue mexer com o público porque a ameaça aos protagonistas é real, aproveitando justamente que, dessa vez, as pessoas se importam muito mais com quem está no centro da batalha.

A direção de Travis Knight (em sua estreia com live-action depois do ótimo Kubo e as Cordas Mágicas) também aproveita esse clima oitentista e o jeito contido para entregar um trabalho diferente sem deixar de lado a identidade da franquia. A direção de arte, a trilha musical e essa aventura mais comedida são os elementos que ditam o tom do longa e Knight usa isso como combustível pra emular um filme de época, trabalhando tanto com efeitos práticos (herança das técnicas mais artesanais do stop-motion) quanto com uma câmera que, na maior parte do tempo, não se movimenta de maneira tão frenética. Pode incomodar os poucos fãs conservadores que sobraram, entretanto, além de combinar com a proposta de Bumblebee como um todo, isso reflete em cenas de ação mais claras, simples e compreensíveis. É incrível, por exemplo, ver um robô se transformar em carro, avião e voltar a sua forma original no meio de uma luta sem que a imagem fique sequer bagunçada.

Na mesma levada, a atenção que Travis dá ao personagem-título é outro acerto invejável. Contando com os já citados acertos do texto, a direção conduz a personalidade de Bumblebee até um ponto que mistura um pouco de animais de estimação com uma vibe muito próxima dos dróides de Star Wars. Ele não deixa de ser um robô, mas os ótimos efeitos visuais (incluindo o incrível design do rosto) permitem que o mesmo transmita emoções com mais facilidade e isso, por motivos mais do que óbvios, facilita a relação dele com os seres humanos. O jeito de agir, a comunicação e a lealdade presente na sua amizade com Charlie remetem diretamente a um cachorro, e a verdade contida na ligação instantânea entre os dois faz com que seja impossível não se apaixonar e embarcar de vez na história.

E, nesse ponto, Hailee Steinfeld (Quase 18) é uma peça mais do que importante, já que a conexão do público com os dois protagonistas também passam pela força, pelo carisma e pela emoção transmitida na sua atuação. No entanto, o mais legal é notar como Charlie é uma personagem feminina forte que supera todos os seus dilemas, medos e questionamentos sem precisar se sexualizar, masculinizar ou depender de um par romântico (viu como isso é possível, Michael Bay?). E, considerando que a franquia sempre foi comandada por homens que seguiam um perfil conservador quando o assunto era mulheres em longas de ação, esse é um elemento inédito que mostra como a adição de visões diferentes através de roteiristas e diretores é algo mais do que válido ou importante. É uma escolha necessária.

No entanto, apesar do valor gigantesco de Charlie, seria um tanto quanto injusto falar só de Steinfeld quando todo o elenco funciona dentro dos seus respectivos papéis. John Cena (Não Vai Dar), por exemplo, é canastrão e carismático na medida certa para interpretar o Agente Burns. O jovem Jorge Lendeborg Jr. (Com Amor, Simon) também funciona como  o nerd que se transforma em amigo, parceiro de batalha e possível interesse romântico. E, por fim, a família da protagonista encontra o tom certinho nas atuações de Pamela Adlon (Better Things), Stephen Schneider (You’re the Worst) e Jason Drucker (Diário de um Banana: Caindo na Estrada).

E o jeito como o elenco funciona junto é, de certa forma, o que resume Bumblebee, já que todas as peças se encaixam com louvor. Da proposta de renovar um franquia desgastada ao apresentar o começo de tudo lá nos anos 80 até o jeito contido de contar a história de amizade entre uma jovem e seu robô (bem Gigante de Ferro mesmo) são acertos que o roteiro a direção utilizam da melhor maneira para entregar um longa que, mesmo escorregando no segundo ato cheio de subtramas e na quantidade de conveniências usadas pelo roteiro, chama a atenção e diverte o espectador através do básico. Usando palavras tão simples quanto o filme em si: apesar de não ser perfeito, Bumblebee é uma divertida viagem ao universo de Transformers que cumpre seus objetivos de dar novos ares a franquia e ser um legítimo clássico da Sessão da Tarde.


OBS 1: Falando em Sessão da Tarde, a referência ao Clube dos Cinco é ótima!