AODISSEIA
Filmes

Breve Miragem de Sol: A solidão da noite…

...e o cansaço do dia.


31 de outubro de 2019 - 19:45 - Tiago Soares

O início de “Breve Miragem de Sol” se assemelha bastante a uma trama policial devido a câmera nervosa, e a junção entre luz e cores noturnas. Começando com um longo e belo plano dentro de um táxi, o recém divorciado Paulo trabalha exaustivamente como taxista nas noites do Rio de Janeiro. Matando um leão por dia para pagar a pensão do filho de 10 anos, o motorista encontra, por acaso, a companhia de Karina, uma enfermeira que traz a sua vida algum significado e carinho.

Abusando dos closes ups, o diretor Eryk Rocha quer emular o desânimo e a rotina de Paulo na atuação incômoda de Fabrício Boliveira. Os passageiros entram, saem e mudam a todo instante, dando a sensação de que o tempo está passando. Numa conversa casual, o protagonista conhece Karina e é uma pena que todo o naturalismo presente na conversa com a excelente Barbara Colen tenha sido perdido para dar lugar a diálogos robóticos e forçados. Além disso, a inclusão de inserções radiofônicas com um viés político é gratuito, e deixa a produção sem identidade.

Paulo precisa lidar com a solidão e o cansaço constante. Precisa sobreviver ao caos que é a noite carioca e suas ruas tortuosas. Quando encontra aquilo que poderia ser um novo amor, o diretor prefere sexualizar a figura do homem negro ao invés de tratá-la com carinho, como se Paulo tivesse apenas isso a oferecer. O silêncio constante no carro também afeta nosso interesse pela história, quando usado de forma errada. Não conhecemos Paulo, nem seus anseios e hobbies, só o vemos no táxi dirigindo e depois em casa, como se não houvesse vida além disso.

Salvo a maravilhosa trilha sonora que vai desde Caetano Veloso a clássicos franceses, “Breve Miragem de Sol” não sabe bem o que quer, entrelaçando a história do motorista de táxi com o momento atual do Rio de Janeiro sem o foco necessário.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo