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Filmes

Critica: Boyhood – Da Infância à Juventude

15 de janeiro de 2015 - 15:00 - Flávio Pizzol

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Esse é, provavelmente, o filme mais comentado de 2014 e (mais provavelmente ainda) um dos grandes favoritos ao Oscar, visto que foi um dos grandes vencedores do Globo de Ouro. Boyhood é um filme interessante e muito bom, mas sua maior força talvez esteja no fato de ter sido gravado durante 12 anos. A questão é que só isso não tem força para fazer desse o melhor filme de todos os tempos.

Como a maioria das pessoas já deve saber que Boyhood conta a história de Mason desde sua infância até sua ida para a faculdade. Nesse período, ele precisa lidar com o pai ausente, com o vários casamentos e términos da mãe, com sua irmã, amigos e seus relacionamentos amorosos e términos. Enfim, fatos comuns da vida de qualquer pessoa nesse período da vida.

A maneira como Richard Linklater escreve e dirige essa história é o grande diferencial do filme. Em primeiro lugar, temos o impressionante fato do filme ter sido produzido durante 12 anos, onde Linklater reunia o elenco e gravava por pouco mais de uma semana a cada ano. Deve ter trabalho gigantesco lidar com um grande elenco e toda a pré-produção por todo esse tempo, mas o resultado é recompensador. Ver os atores envelhecerem e amadurecerem é algo espetacular, que dá uma força diferente para uma história sobre crescimento que poderia ser totalmente clichê.

Em segundo lugar, todo o trabalho de Linklater é completamente intimista. O texto vai se adaptando às épocas e a câmera funciona como uma parte daquela família. É exatamente isso, porque ele não está ali como um documentarista. Ele está ali como parte da família, afinal ele criou, formou e viu aquela família crescer. Não estamos falando de um documentário sobre uma família real e sim sobre uma ficção, que consegue reproduzir a vida de um garoto e de sua família de maneira impressionante.

Esse é um tipo de trabalho que se aproxima muito da trilogia Antes (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite), então não é algo novo para o diretor. Ainda assim, aqui ele resolveu elevar ao máximo seu exercício de estilos e misturou tudo o que é comum aos seus filmes. Temos muitos diálogos improvisados, um ótima sonora que acompanha a vida dos personagens, um pouco de metalinguagem e até seus constantes planos-sequência. E ainda devemos considerar, que toda essa mistura foi desenvolvida ao longa de 12 anos de muita experiência e de muitos filmes.

O roteiro também se desenvolve muito bem, captando bem os grandes momentos da geração. Eu, particularmente, me identifiquei facilmente com Mason e com seus gostos. Ele lia Harry Potter, assistia Dragon Ball e tantas coisas que também fizeram parte da minha vida. Mas aos poucos o filme foi perdendo o fôlego, talvez por conta da cultura de faculdade nos EUA ser um pouco diferente da nossa.

Ou, simplesmente, o filme perde seu fôlego por ser muito longo. Por mais que você entenda os personagens e mergulhe na história, as quase três horas de duração demoram a passar e cansam. Isso faz com que as partes do personagem mais velho, que poderia gerar discussões e situações mais densas e fortes, perde a força e se torna um momento bem chato. A questão é que eu achei o início muito mais envolvente e poderia ter permanecido assim se algumas partes não tão necessárias fossem cortadas.

Esse talvez seja o problema que mais me incomodou e eu realmente acho que ele atrapalha um pouquinho o desenvolvimento do filme. Por outro lado, tem uma coisa que eu vi muita gente criticando, mas que me ajudou a comprar toda a ideia do filme. Muitas pessoas falaram que o filme não tem história ou que não acontecia nada durante boa parte do tempo, mas essa é a maior consequência de representar a vida com tamanha fidelidade. Existem vários momentos onde tudo demonstra que vai ter algum acontecimento, você fica esperando aquilo acontecer e nada acontece. Não vivi tanto tempo assim, mas já sei que isso é a vida. A não ser que você seja o Tom Cruise.

Se isso fosse só um filme normal, esses momentos virariam catarse ou uma cena de ação, mas Boyhood fosse completamente do que pode ser chamado de normal. Um dos maiores exemplos disso é a cena onde ele viaja para a faculdade com a namorada. O diálogo com o pai por vídeo-chamada, a conversa com a mãe e as atitudes dele ao volante me falavam que ele ia bater, mas nada acontece. Nenhum filme perderia a chance de fazer uma batida de carro, mas Linklater não faz o comum.

E é exatamente o fato desse não ser um filme comum e de sua produção ser complicada e inovadora, que ele ganha tantos elogios. E boa parte desses são merecidos, principalmente quando se fala do elenco, que também teve que se adaptar a um cronograma diferenciado de gravação, aos muitos takes únicos e aos constantes improvisos. Ethan Hawke e Patricia Arquette já estão em parte acostumados com tudo isso e mandam muito bem, tendo sido indicados e premiados com méritos. Mas eu não admito que os jovens atores sejam tão pouco comentados, já que eles fazem um trabalho muito bom. Mesmo não sendo atores de tanto calibre e talento, Ellar Coltrane e Lorelei Linklater fazem um bom trabalho e seguram o filme de maneira digna.

Como já disse, Boyhood é muito interessante e que merece boa parte dos prêmios que está ganhando, principalmente os ligados à direção de Linklater. É um filme completo, mas não é perfeito. O fato dele ir perdendo a força e se tornar cansativo não é bom, principalmente depois de já ter acertado na difícil tarefa de prender o espectador no seu início. Vale os elogios e merece ser assistido, mas não pode ser tão super valorizado.

OBS 1: Os filmes favoritos de Mason de um certo ano foram Trovão Tropical, Batman e Segurando as Pontas. Concordo plenamente com seu bom gosto cinematográfico.

OBS 2: É sério. A trilha sonora desse filme é espetacular, tocando e citando clássicos da música americana que merecem ser contemplados.