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Séries

Crítica: Boneca Russa – A vida é uma caixinha de linhas do tempo

Série da Netflix vai além da comédia e fala sobre depressão e propósito.


11 de fevereiro de 2019 - 14:53 - Tiago Soares

Obras que se utilizam do plot de viagem no tempo, trabalham a todo momento com termos relacionados a moralidade. O protagonista revive um dia ou mais de seu passado a ponto de aprender alguma coisa com ele, mas…o que é ser de fato bom ou ruim? É nesta tecla que “Boneca Russa”, nova série da Netflix bate. Criada por Leslye Headland (Heathers), Amy Poehler (Parks and Recreation) e Natasha Lyonne (Orange is The New Black), a série conta a história de Nadia (vivida pela própria Lyonne) que morre no dia no seu aniversário e acaba voltando num looping até o início de sua festa ao som da viciante”Gotta Get Up” de Harry Nilsson.

Nadia logo percebe que não está sozinha e na companhia do metódico e viciado em rotina Allan (Charlie Barnett) busca o sentido e propósito daquele loucura. A relação de Nadia e Allan é uma das coisas mais interessantes e bem trabalhados da série, pois ambos são completamente opostos. Não há teor sexual ou química, apenas dois estranhos tentando se encontrar em seus próprios mundos. Feitiço do Tempo (com Bill Murray e seu dia da marmota) já falaram sobre se tornar uma pessoa melhor, mas Russian Doll (no original) quer ir além.

Da comédia, a história parte para um drama existencialista que fala sobre depressão, traumas de infância e feridas muitas vezes abertas por outras pessoas que nem estão mais entre nós. Conceitos de ficção científica são trabalhados, como linhas do tempo alternativas e inúmeras teorias, que dão uma sensação de urgência a narrativa. Os personagens correm contra o tempo, pois tudo que os rodeia está sumindo de uma maneira misteriosa e é aí que a produção levanta um debate sobre a importância de quem nos cerca.

Com seus 8 episódios dirigidos apenas por mulheres, as criadoras Headland e Lyonne, além de Jamie Babbit (Silicon Valley), Boneca Russa traz um ar dos anos noventa na sua câmera que quando não está em close-ups, persegue os personagens a cada passo. Uma fotografia beirando o neo-noir (já que a maior parte da produção de passa a noite) também é bastante inventiva, além é claro das cenas cômicas, a maioria delas nas mais variadas formas de morrer da dupla.

Terminando de maneira satisfatória e sem necessidade de uma possível segunda temporada, Boneca Russa funciona muito mais no formato minissérie. Recheada de boas atuações, principalmente de sua protagonista, a série transita entre o drama e a comédia. A viagem no tempo acaba ficando em segundo plano para dar lugar a uma trama enxuta – que mesmo com um tema considerado batido, encontra seu lugar numa das melhores produções do ano.


Obs: Este texto foi escrito ao som da música que inferniza Nadia em seu looping e irei deixá-la logo abaixo pois é maravilhosa: