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Premiado em inúmeros festivais internacionais, entre eles o de Veneza, Toronto, Rio, Nantes, Hamburgo e Adelaide. Boi Neon é o primeiro trabalho de Gabriel Mascaro dirigindo atores, algo que não aconteceu em seus trabalhos anteriores: “Doméstica” (2012) e “Ventos de Agosto” (2014). É fácil definir Mascaro como o tal “diretor de cinema de arte”, como dizem alguns: “Aquele filme que só o diretor e sua mãe entendem”. Isso não quer dizer que seus filmes anteriores sejam ruins, talvez não de fácil compreensão. Felizmente, o cineasta abre mão da “arte pela arte” e nos apresenta uma linda obra extremamente simples.

Acompanhamos a história de Iremar, um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste, ao lado de Galega e a pequena Cacá. Iremar tem o grande sonho de se tornar estilista, como ele mesmo diz: no “fabrico de roupa”. Por onde passa Iremar recolhe revistas, panos e restos de manequins, algo mostrado com bastante tranquilidade e sutileza pelo diretor.

Mascaro opta por planos abertos sempre, nunca focando no rosto dos personagens e nem fazendo o jeito “novelão” plano/contra-plano. É como se ele deixasse a câmera sempre filmando no tripé e fosse fazer outra coisa, enquanto acompanhamos a história. Nós somos os interessados, nós bisbilhotamos e tiramos nossas conclusões da vida de Iremar e sua trupe. É interessante notar que uma cena começa serena com personagens conversando sobre algo natural, para em seguida os mesmos explodirem e tudo mudar de figura com um piscar de olhos, sem cortes, sem aproximação, apenas de longe, observando.

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Naturalidade essa, retratada no roteiro do próprio Mascaro onde a simplicidade reina. O “pernambuquês” forte, pode fazer alguns desavisados deixarem passar muitas coisas, eu, como filho de cearenses, entendia tudo e achava “massa” (legal, foda). A química entre os atores também é muito boa, Juliano Cazarré (Adauto Forever), faz um personagem brilhante. A timidez do moço perante a grandiosidade no mundo da moda, só é desafiada por seus colegas de vaquejada. Muito longe de ser nosso herói incorruptível, Yremar (com “Y”, que segundo ele é seu nome artístico), faz coisas erradas, é babaca e machista muitas vezes, mas tem um coração mole, e transmite um sentimento de mudança, a cada empolgação com que fala de sua paixão.

Galega (Maeve Jinkings) é outra que vive em constante conflito com os outros. Uma mulher dirigindo um caminhão boiadeiro, além de atuar como mecânica, em uma realidade machista no interior do Sertão. Além dela, sua filha Cacá (Alyne Santana), que sonha em ter um cavalo e tem os melhores diálogos de Boi Neon, a menina é o elo que conecta todos e tem uma das cenas mais bonitas do nosso cinema. Com a chegada de Júnior (Vinicius de Oliveira) o ajudante vaidoso, com o cabelo de “Wesley Safadão“, um pouco de inveja surge em Iremar, que se achava um único artista da trupe.

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A fotografia de Diego Garcia, explora o sertão e suas lindas paisagens, mesmo nas cenas noturnas. A trilha sonora de Otávio Santos, Cláudio N & Carlos Montenegro age de forma poderosa, no mesmo instante em que a frustração de cada um é sentida, por ver seus sonhos serem afogados, pelo perdão das palavras “pela bosta do boi”. Mas a mesma gera momentos de descontração, quando “Meu Vaqueiro, Meu Peão” música da banda cearense Mastruz com Leite ecoa e particularmente me traz momentos de nostalgia.

A crítica sutil a cultura das vaquejadas também está lá, mas não é o foco de Boi Neon. Talvez colocar algumas cenas desconexas em certos pontos e filmar longos planos pode deixar alguns desconfortáveis, mas não chega a ser um problema. No final, Boi Neon não é um típico filme americano do “tudo vai dar certo no fim”, na verdade, só prova que Gabriel Mascaro quis filmar a realidade, mesmo que muitas vezes ela seja cruel, apesar disso, a beleza da simplicidade ainda está lá. No coração do Sertão.

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Boi Neon

9.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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