AODISSEIA
Filmes

Critica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


30 de janeiro de 2015 - 12:00 - Flávio Pizzol

Vencedor de muitos prêmios até aqui, Birdman – e seu subtítulo completamente desnecessário – é um dos grandes favoritos ao Oscar. Não é o filme perfeito ou a obra máxima do cinema, como muitos têm considerado, mas todo seu exercício técnico e metalinguístico transformam essa dramédia em um filme realmente interessante.

O longa segue Riggan Thompson, um ator famoso por ter interpretado um super-herói, chamado Birdman, em sua trilogia cinematográfica. Cansado do personagem, ele recusa o papel em um quarto filme e cai em um limbo a partir daí. O público começa a seguir Riggan quando ele está prestes a estrear uma peça, que ele mesmo dirigiu e roteirizou, com o objetivo de colocar sua carreira nos holofotes mais uma vez. Mais isso pode ser mais difícil do que o esperado, já que ele vai ter que lidar com seus familiares, críticos, colegas de bastidores e a voz do herói, que funciona como seu alter-ego problemático.

A grande força do filme é exatamente essa confusão gerada pela mistura entre ficção e realidade, que está presente em todas as estâncias do filme. Ela marca presença dentro da história, onde os atores se confundem com seus personagens e Riggan troca constantemente de lugar com Birdman, entretanto é a sua relação metalinguística com a realidade que dá corpo e graça ao filme. E essa metalinguagem vai muito além ver o paralelo entre as carreiras do protagonista e Michael Keaton ou das óbvias comparações entre Birdman e Batman.

É em cima dessa metalinguagem que o roteiro, escrito pelo diretor mexicano Alejandro González Iñarritu em parceria com Armando Bo, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, constrói todo seu drama. Tudo se desenvolve de maneira simples e autoexplicativa, através de diálogos rápidos e um humor sutil que mais incomoda do que gera gargalhadas. É por isso que eu não considero esse filme uma comédia propriamente dita, porque até as situações mais surreais e cômicas possíveis são cercadas por uma grande carga dramática. Todavia essa mistura também funciona muito bem e se encaixa dentro da proposta do filme.

O único problema do roteiro é querer ser um pouco mais do que pode, ou seja, ser pretensioso. Acho que quem vai assistir esse tipo de filme já tem um conhecimento prévio sobre o que vai encarar, mas a metalinguagem, nesse caso, acaba indo um pouco além do que deveria quando é usada como base para muitas críticas. Até poderia ter funcionado, se não fossem tantos assuntos criticados. Ao tentar ironizar e cutucar a indústria cinematográfica, os blockbusters, as redes sociais, os críticos profissionais e até o capitalismo, Birdman cai na sua própria armadilha e não se aprofunda o bastante em nenhum desses temas criticados.

Se o roteiro peca um pouquinho, a direção de Iñarritu é irretocável. Não digo que as técnicas utilizadas sejam essenciais ou inovadoras, porque seria mentira. Hitchcock e muitos outros diretores já usaram a proposta técnica desse filme muito antes e Birdman funcionaria muito bem se fosse filmado de outra maneira, entretanto é inegável que a câmera flutuante e a ilusão dos planos-sequências dão um charme muito maior ao filme.

Aliado a um trabalho brilhante de fotografia e edição, o diretor mexicano cria, através de vários takes únicos e cortes precisos, a sensação de que estamos vendo um filme filmado com um único plano. Boa parte dessa trabalho mágico é realizado pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar por Gravidade no ano passado) e pelos editores Douglas Crise e Stephen Mirrione, que se preocupam em cortar as sequências em pontos específicos, usando muito bem o cenário e a iluminação. Lubezki foi novamente indicado aos prêmio máximo do cinema com total justiça, mas acredito que a edição ser esquecida seja um grande erro da academia.

A trilha sonora e os efeitos especiais ainda apoiam muito bem o exercício técnico e visual do filme. Existem muitas cenas onde os efeitos tomam conta do espaço de cena sem obrigar o diretor a mudar sua técnica, demonstrando que toda a produção comprou a ideia e trabalhou em cima desse exercício técnico sufocante proposto por Alejandro.

Já a trilha é a responsável por repassar todos os seus sentimentos mais profundos, enquanto acompanha as caminhadas dos personagens por entre ruas e corredores. O mais interessante é que a música, formada prioritariamente por sons de percussão e bateria, acaba virando um espécie de gag visual nas mãos de Iñarritu, que posiciona certeiramente um baterista que acompanha a trilha em vários trechos, não importando se ele deveria ou não estar ali.

O elenco também funciona de maneira excepcional. A escolha de Michael Keaton para encabeçar o elenco se mostra certeira tanto pela aplicação metalinguística, quanto pela capacidade de atuação do veterano. Considerando a escolha do ator, já era esperado que a produção trabalhasse essa dificuldade de separação entre Keaton e Riggan, por isso o que realmente surpreende é a capacidade do ator de se sair bem nas cenas dramáticas e melhor ainda nos momentos onde o humor negro se sobressai.

Ao seu lado, Edward Norton (interpretando praticamente ele mesmo) e Emma Stone também possuem um bom tempo de tela e justificam suas indicações ao Oscar. Inclusive, eu gostaria que Norton levasse a estatueta para casa, pois ele é um grande ator que nunca foi agraciado com essa honra. Entretanto, esse ano a estatueta certamente (e com justiça) vai para J.K Simmons, por Whiplash.

O restante do elenco coadjuvante, formado por Andrea Riseborough, Naomi Watts e Zach Galifianakis, tem menos tempo de tela, mas isso não significa que eles não merecem elogios. Todos eles encontram pelo menos um momento para brilhar, com destaque para Watts, que tem uma ótima química explosiva com Norton, e Galifianakis, que tem aqui um dos seus personagens mais contidos e bem construídos.

Um filme muito interessante que merece todos os elogios que vem recebendo. Aquele pequeno problema de roteiro não atrapalha o desenvolvimento do filme, nem tira o valor de acompanhar uma produção tão interessante. Uma metalinguagem certeira, visual espetacular e atuações preciosas marcam um dos grandes filmes do ano. Merece ser visto.

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