Bird Box é um limiar entre drama materno e aventura às cegas

bird box

A falta de um dos nossos sentidos é sempre um bom tema a ser explorado. Seja de forma sutil, como em A Forma da Água, ou em casos mais extremos como em Ensaio sobre a Cegueira ou Um Lugar Silencioso. A maneira como tudo isso é abordado varia de filme para filme, porém é inegável a complexidade do assunto. Bird Box se enquadra nesse aspecto, contudo parece esquecer a ausência da visão num mundo pós apocalíptico e entrega um filme dividido entre uma aventura familiar e o desespero da morte iminente.

Viver sem uma referência sinestésica é um assunto complexo e, se bem desenvolvido, rende bons dramas. Por isso a referência a Um Lugar Silencioso. O longa de John Krasinski (The Office) parte de uma premissa semelhante e usa muito bem a falta de ruídos para criar um suspense agonizante e um senso de urgência imediato. Não é o caso de Bird Box. O pano que tapa as vistas parece ser trivial e não um incômodo em situações adversas. Ou pelo menos o filme não passa dessa forma durante esses momentos. Se o axioma de Bird Box é o indivíduo não enxergar, caso contrário ele enlouquece, tudo parece ser muito fácil de lidar e os problemas eventuais, simples de resolver.

Espanta em certo ponto perceber isso. Bird Box foi feito por excelentes mãos. Susanne Bier, que comanda a direção do longa, já dirigiu o premiado The Night Manager, Eric Heisserer, roteirista do aclamado A Chegada também é responsável pela produção. Além de um elenco recheado, com Sandra Bullock (Gravidade), Trevante Rhodes (Moonlight), John Malkovich (Na Linha de Fogo) e Sarah Paulson (12 Anos de Escravidão).

 

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Bird Box não desenvolve seus personagens e deixa tudo para Sandra Bullock brilhar. Ela sim tem camadas e mais camadas de histórias que a levaram àquela situação. Malorie, sua personagem, vive em constante dilema sobre maternidade e seguir lutando num mundo destruído. A cena inicial é bem representativa quanto a isso. A mãe fala de forma efusiva com suas crianças, deixando claro o perigo do mundo lá fora.

O problema é que todas as atitudes dos outros personagens soam como justificativa para Malorie seguir sua história. É preciso trabalhar sua suspensão de descrença para aceitar que um motorista consegue se livrar de forma magistral de um carro no meio do caminho, mesmo sem ver um tostão a sua frente. Ou mesmo depois de uma jornada perigosa rio abaixo, a mãe e as crianças perdidas, irão achar a porta salvadora que as livram do perigo.

Esse perigo que molda os acontecimentos de Bird Box é um ponto interessante. Tal qual os personagens, não vemos os monstros e poder trabalhar essa subjetividade é um ponto a favor. Não transcrever visualmente a criatura deixa tudo mais misterioso mas, pelos desenhos na mesa que hora vimos, ou pelo comportamento das pessoas quando infectados, lembram bastante os monstros de H.P Lovecraft.

 

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Aliás, quem quiser aprofundar na obra sombria do autor, sugiro ler perturbador O Despertar de Cutchulu, lançado pela Draco.

Outro aspecto favorável do Original Netflix é usar o salto temporal para dar mais dinâmica ao longa. A narrativa alternada disfarça a trajetória de Malorie e das crianças, mostrando do início do apocalipse até a congruência com a tal aventura no barco. Não fosse isso, o ritmo episódico de Bird Box poderia deixar tudo pior, como acontece em Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald. Até funciona quando lemos um livro. Não quando vemos um filme.

Bird Box busca ser um drama intimista e voltar para o olhar materno todas as adversidades que um mundo destruído pode apresentar. Entretanto falha em construir momentos de tensão e perigo com todos esses elementos. Apesar de boas atuações e de se apresentar mais como uma aventura em busca de um lugar seguro, não consegue captar a atenção e a essência de um universo destruído por suicídios em massa e mortes horrendas. Pelo menos foi que pude enxergar do filme.

 

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