AODISSEIA
Filmes

Bird Box é um limiar entre drama materno e aventura às cegas

O que os olhos não veem os passarinhos contam

26 de dezembro de 2018 - 13:26 - felipehoffmann

A falta de um dos nossos sentidos é sempre um bom tema a ser explorado. Seja de forma sutil, como em A Forma da Água, ou em casos mais extremos como em Ensaio sobre a Cegueira ou Um Lugar Silencioso. A maneira como tudo isso é abordado varia de filme para filme, porém é inegável a complexidade do assunto. Bird Box se enquadra nesse aspecto, contudo parece esquecer a ausência da visão num mundo pós apocalíptico e entrega um filme dividido entre uma aventura familiar e o desespero da morte iminente.

Viver sem uma referência sinestésica é um assunto complexo e, se bem desenvolvido, rende bons dramas. Por isso a referência a Um Lugar Silencioso. O longa de John Krasinski (The Office) parte de uma premissa semelhante e usa muito bem a falta de ruídos para criar um suspense agonizante e um senso de urgência imediato. Não é o caso de Bird Box. O pano que tapa as vistas parece ser trivial e não um incômodo em situações adversas. Ou pelo menos o filme não passa dessa forma durante esses momentos. Se o axioma de Bird Box é o indivíduo não enxergar, caso contrário ele enlouquece, tudo parece ser muito fácil de lidar e os problemas eventuais, simples de resolver.

Espanta em certo ponto perceber isso. Bird Box foi feito por excelentes mãos. Susanne Bier, que comanda a direção do longa, já dirigiu o premiado The Night Manager, Eric Heisserer, roteirista do aclamado A Chegada também é responsável pela produção. Além de um elenco recheado, com Sandra Bullock (Gravidade), Trevante Rhodes (Moonlight), John Malkovich (Na Linha de Fogo) e Sarah Paulson (12 Anos de Escravidão).

 

 

Bird Box não desenvolve seus personagens e deixa tudo para Sandra Bullock brilhar. Ela sim tem camadas e mais camadas de histórias que a levaram àquela situação. Malorie, sua personagem, vive em constante dilema sobre maternidade e seguir lutando num mundo destruído. A cena inicial é bem representativa quanto a isso. A mãe fala de forma efusiva com suas crianças, deixando claro o perigo do mundo lá fora.

O problema é que todas as atitudes dos outros personagens soam como justificativa para Malorie seguir sua história. É preciso trabalhar sua suspensão de descrença para aceitar que um motorista consegue se livrar de forma magistral de um carro no meio do caminho, mesmo sem ver um tostão a sua frente. Ou mesmo depois de uma jornada perigosa rio abaixo, a mãe e as crianças perdidas, irão achar a porta salvadora que as livram do perigo.

Esse perigo que molda os acontecimentos de Bird Box é um ponto interessante. Tal qual os personagens, não vemos os monstros e poder trabalhar essa subjetividade é um ponto a favor. Não transcrever visualmente a criatura deixa tudo mais misterioso mas, pelos desenhos na mesa que hora vimos, ou pelo comportamento das pessoas quando infectados, lembram bastante os monstros de H.P Lovecraft.

 

 

Aliás, quem quiser aprofundar na obra sombria do autor, sugiro ler perturbador O Despertar de Cutchulu, lançado pela Draco.

Outro aspecto favorável do Original Netflix é usar o salto temporal para dar mais dinâmica ao longa. A narrativa alternada disfarça a trajetória de Malorie e das crianças, mostrando do início do apocalipse até a congruência com a tal aventura no barco. Não fosse isso, o ritmo episódico de Bird Box poderia deixar tudo pior, como acontece em Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald. Até funciona quando lemos um livro. Não quando vemos um filme.

Bird Box busca ser um drama intimista e voltar para o olhar materno todas as adversidades que um mundo destruído pode apresentar. Entretanto falha em construir momentos de tensão e perigo com todos esses elementos. Apesar de boas atuações e de se apresentar mais como uma aventura em busca de um lugar seguro, não consegue captar a atenção e a essência de um universo destruído por suicídios em massa e mortes horrendas. Pelo menos foi que pude enxergar do filme.