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“Beans” usa de um conflito histórico real, para trazer um coming of age que vai além das questões raciais


Estamos acostumados a acompanhar filmes de amadurecimento com personagens em sua maioria brancas, que seguem a cartilha básica de algum sonho: uma profissão, uma mudança de cidade, um garoto, enfim. Não há mal algum em gostar dessa fórmula, eu adoro. Mas, é muito gostoso quando um coming of age sai da zona de conforto, como “Beans”.

Baseado em eventos reais, o filme narra o impasse de 78 dias que ocorreu no Québec na década de 90 entre duas comunidades Mohawk e as forças do governo. O impasse, citado na mídia como a Crise Oka, durou três meses e chamou a atenção de todo o país enquanto protestos ocorriam contra a expansão de um campo de golfe em uma floresta e num cemitério. No meio disso está Beans, uma garota Mohawk de 12 anos.

Montando sua linha do tempo com a história da menina, e imagens de arquivo do conflito, o filme da estreante Tracey Deer mistura a delicadeza da mudança de fase, com a violência de uma guerra emergente. Não que o crescimento seja fácil, já que em certos momentos, essa agressividade parece transparecer também na rotina da pequena Beans.

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Foto: Divulgação

A pureza dá lugar ao objetivo, a ingenuidade é substituída pela dureza, muito graças a nova e nada solidária amiga da protagonista, April (Paulina Alexis), que a prepara para o mundo real a seu modo. Beans vai de uma garota doce a uma adolescente rebelde (com muita causa), mas isso não a isenta de momentos que abalam sua índole, e muitos menos mudam seu interior. Algo perfeitamente normal para alguém que está crescendo e aprendendo.

Muito disso se deve a criação que teve, e as atuações potentes da protagonista vivida por Kiawentiio e sua mãe Lily (Rainbow Dickerson) em comovente interpretação. A direção não foge do convencional, tornando “Beans” um filme redondinho, sabendo criar tensão e medo quando necessário, ao mesmo tempo em que constrói momentos de ternura.

A medida que enfrenta o racismo, nossa heroína aprende a xingar, a se maquiar, a fugir de casa, além de ser influenciada, positiva e negativamente falando, tudo isso com uma câmera confidente, tornando o espectador uma espécie de cúmplice.

Foto: Divulgação

Criando uma identidade, Beans entende o conflito e direciona sua raiva, entendendo a diferença entre seus deveres e desejos. O filme extrai seus melhores momentos quando separa bem suas causas, mas quando tenta correlacionar as tramas, falha numa espécie de forçação de barra.

Isso não chega a atrapalhar a estreia sólida de Deer, que tem um elenco fluído e visceral em suas mãos, fazendo de “Beans” um filme sobre a dor e o prazer de crescer.


Filme visto na 44ª Mostra de São Paulo. Saiba mais sobre o evento AQUI.

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Beans

9.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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