AODISSEIA
Filmes

Crítica: Uma Aventura Lego 2 – Everything Still Awesome

Tradução: Animação escorrega, mas continua sendo uma experiência incrível

9 de fevereiro de 2019 - 00:58 - Flávio Pizzol

Quando estreou em 2015, Uma Aventura Lego trouxe consigo um grau considerável de desconfiança. Ninguém sabia muito bem o que esperar dessa animação marcada tanto por trailers surtados, quanto pela possibilidade considerável de ser um projeto voltado apenas para inserções publicitárias de uma das marcas infantis mais poderosas do mundo. No entanto, contra todas as expectativas, o que a dupla de roteiristas e diretores Phil Lord e Chris Miller (Anjos da Lei) entregou foi um filme divertido, metalinguístico e extremamente criativo que ainda funcionava como uma ode à criatividade infantil após sua reviravolta magistral. Um formato que conquistou o mundo, virou tendência para TODOS os brinquedos e seguiu o caminho natural de Hollywood: ganhou uma continuação.

Dessa forma, a trama desse segundo longa avança cinco anos no tempo para apresentar as consequências do apocalipse gerado por peças diferentes e poderosas, incluindo um mundo desértico e cidadãos desolados pela brutalidade dos dias. A única pessoa que não parece ter sido afetada pela combinação entre poeira e destruição, insistindo sempre no seu otimismo incorrigível, é o grande Emmet Brickowski. Entretanto, quando um novo ataque alienígena termina com Lucy sendo sequestrada, nosso protagonista precisa evoluir para salvar seus amigos e o mundo Lego outra vez.

Uma ideia bem fundamentada que aproveita o que foi construído (não resisti a esse trocadilho) no primeiro longa e expande o universo dentro de sua temática, brincando desde o início com diversas coisas que fizeram sucesso lá atrás. Uma delas – a criação de mundo bizarros – é justamente o que dita o ritmo de Uma Aventura Lego 2 com a apresentação de um futuro muito parecido com o de Mad Max. Todavia, mesmo sendo uma peça importante da narrativa, esse clima passa rápido, já que uma das grandes mudanças do segundo filme reside no seu tom mais infantil.

E, por mais que não seja possível afirmar se essa foi ou não uma imposição do estúdio, a escolha do veterano Mike Mitchell (Shrek para Sempre e Trolls) para o cargo de diretor se encaixa perfeitamente na proposta. Ele sabe como aproveitar as características da produção, brinca mais com as cores e evolui a fluidez dos movimentos com precisão, porém retira um pouco da agilidade e complexidade que cercavam algumas piadas do longa original. Não é o suficiente pra quebrar a fórmula da franquia, mas resulta em uma produção que, querendo ou não, substitui o estilo despirocado de Lord e Miller por um visual mais contido e controlado esteticamente. Em outras palavras, o estranhamento gerado pelas caixas originais de Lego surgindo na tela são evitados em nome de piadas mais diretas, enquanto a parte artística evolui de uma maneira mais simplória.

Mas calma: antes de reclamar, fique sabendo que essa pequena alteração de tom não atrapalha o pacote completo, porque o texto em si continua nas mãos afiadas da dupla que nos presenteou com Homem-Aranha no Aranhaverso. Isso significa que Phil Lord e Chris Miller replicam os elementos essenciais da franquia sem medo e acertam mais uma vez na organização de um pacote que tem potencial pra agradar tanto as crianças, quanto seus acompanhantes adultos. Dessa forma, Uma Aventura Lego 2 cumpre seu objetivo de hipnotizar e divertir os pequenos, enquanto o roteiro se destaca de verdade no humor autorreferencial, nas piadas que misturam edição e música, e na caracterização do universo onde o filme se encontra. O destaque fica para o aumento da participação da família humana de uma maneira que expande até mesmo as maneiras de brincar com Lego e para a já esperada metralhadora de referências a personagens e franquias que inclui Liga da Justiça, Matrix, Jurassic World, Bruce Willis e muito mais.

Inclusive, vale avisar que algumas dessas referências/homenagens podem revelar segredos da trama, considerando que esse plot não é tão surpreendente quanto o anterior. Ainda assim, se você fugir dos spoilers, vai conseguir aproveitar as reviravoltas graças a evolução dos personagens que te reconquistam instantaneamente com doses de carisma e bom-humor. E eles crescerem é o que essa continuação faz de mais importante, afinal estamos falando das engrenagens que movimentam não só esse longa, como uma franquia toda. Assim Emmet (Chris Pratt) cresce como personagem junto com seu ótimo arco de “transformação”, Lucy (Elizabeth Banks) ganha algumas camadas e dilemas a mais pra lidar e até a família live-action ganha pequenos momentos de conclusão. Já o Batman (Will Arnett), mesmo tendo o arco mais óbvio, se destaca e rouba os holofotes, mantendo o espírito autorreferente do seu filme-solo e ganhando até mesmo uma hilária rixa com o Superman (Channing Tatum).

E, apesar das novas desconfianças que surgiram com essa continuação, a mistura proposta por Lord, Miller e Mitchell funciona bem no geral. Está, sem nenhuma dúvida, um degrau abaixo do primeiro longa quando o assunto é criatividade, já que não existe personagem inédito que consiga recuperar o efeito de novidade que existia ali. E, mesmo não apresentando nenhuma grande inovação narrativa ou visual, Uma Aventura Lego 2 ganha pontos com o roteiro sólido, acerta em cheio na maioria das piadas, consegue ser inventivo dentro dosa seus limites de tom, gruda mais uma ótima música na cabeça do espectador e expande o universo como uma continuação deve fazer. Ou seja, usa as peças de Lego com cuidado e maestria pra montar uma experiência que continua incrível.


OBS 1: Bruce Willis tem um boneco Lego com visual de John McClane e participa de, no mínimo, duas ótimas piadas. Nada nunca superará isso…

OBS 2: Uma Aventura Lego 2 tem mais músicas que o primeiro e usa tal elemento com genialidade na construção da vilã, na continuação espiritual de sua música-tema e até nos créditos.