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Uma guerra vencida pela motivação


Eu sou um fã convicto de filmes que abordam fatos históricos, principalmente quando os mesmos adaptam (ou nos apresentam, nesse caso) cenários pouco conhecidos. Indicado ao Oscar em seis categorias, Até o Último Homem entra justamente nessa categoria ao contar a história de Desmond Doss com o heroísmo, a fé, a crueldade e a motivação que suas poderosas decisões merecem.

Logicamente, o longa segue um jovem e tímido membro da Igreja Adventista que se alista para atuar como médico em plena Segunda Guerra Mundial e “fazer sua parte” após Pearl Harbor. Seus princípios o levam a ser classificado como objetor de consciência (pessoa cujos valores morais e éticos são incompatíveis com o exército), sofrer toda forma de preconceito durante o treinamento, enfrentar a corte marcial por desacato e, somente após isso, provar o valor de sua coragem ao salvar a vida de vários soldados sem encostar em nenhuma arma.

Sem forçar nenhuma mudança drástica na estrutura das biografias de guerra, o roteiro de Robert Schenkkan (All the Way) e Andrew Knight (Promessas de Guerra) gira em torno de três atos muito bem divididos: a apresentação de Desmond, sua passagem pelos campos de treinamento antes da guerra e, por fim, sua atuação na violenta Batalha de Okinawa. Cada uma dessas partes reúne uma quantidade bem grande de resoluções e frases de efeito recorrentes no gênero, mas isso não importa tanto assim quando a história, no geral, é bem contada.

Os personagens possuem arcos de transformação críveis e bem definidos, o contexto da guerra é muito bem apresentado sem precisar de muletas narrativas e a força da história consegue ser transmitida sem nenhum problema quando aposta nos seus questionamentos morais. Sou obrigado a aceitar que o desenrolar do texto acaba sofrendo com a narrativa episódica comum em biografias com conteúdos extensos e abre mão de fatos que poderiam enriquecer o todo, mas ainda entrega o suficiente para apresentar esse cenário de aceitação religiosa e motivação.

Andrew Garfield (O Espetacular Homem-Aranha) encontra a alma do seu personagem e carrega o filme com uma mistura incrível de ingenuidade e coragem, enquanto os enquadramentos de Mel Gibson (A Paixão de Cristo) e a fotografia de Simon Duggan (Warcraft) fazem de tudo pra exaltar sua presença quase divina em cena. A luz o ilumina de cima pra baixo durante quase toda a batalha, suas orações ressoam no meio das explosões, suas inspiração “cura” a cegueira de um dos soldados e até seu posicionamento na sequência final reflete a retirada de Jesus após a crucificação. Isso não é a toa e faz parte tanto da religiosidade presente na vida do diretor quanto da própria personalidade de Desmond.

O filme é dele e, sob esse ponto de vista, pode ser justificável que os coadjuvantes sejam colocados de lado ou usados apenas como trampolim para Garfield brilhar. Os únicos que ganham algum pequeno destaque – e correspondem – são Teresa Palmer (Quando as Luzes se Apagam) como a típica esposa de soldado, Hugo Weaving (V de Vingança) como o pai traumatizado com as guerras do passado, Luke Bracey (Caçadores de Emoção: Além do Limite) como o típico soldado que não aprova os ideais do protagonista e Vince Vaughn (Os Estagiários) como sua imitação um pouco mais carismática de R. Lee Ermey em Nascido para Matar.

Gibson sabe como comandar as atuações, desenvolver os dois primeiros atos de uma forma decente e brincar com as referências cristãs, entretanto os maiores méritos de seu trabalho surgem quando a produção se assume como um filme de guerra. Sua recriação do campo de batalha em terras japonesas injeta adrenalina na conclusão da história e não poupa o espectador da brutalidade da guerra, incluindo corpos mutilados, soldados pegando fogo e explosões que ficam em cima da linha tênue do exagero e só conseguem ser atravessadas pela força transcendente de Desmond. Em outras palavras, é um show visual e sonoro que joga o espectador no centro da guerra de uma forma assustadora e extremamente imersiva.

No final das contas, Até o Último Homem funciona tanto como um ótimo filme de guerra quanto como uma daquelas produções que vão ser exibidas em palestras motivacionais no mundo inteiro. Pode até ficar muito parecido com outros grandes longas do gênero em vários momentos ou escorregar no roteiro, mas entrega uma atuação poderosa de Andrew Garfield, prende o espectador no seu ritmo intenso e ainda apresenta um ponto de vista esperançoso no meio dos horrores tão cruéis da guerra. Um resultado muito acima da média e merecedor das suas respectivas indicações ao Oscar.


OBS 1: Cheguei a conclusão definitiva de que não existe pessoa melhor do que Mel Gibson para dirigir filmes que misturem fé e violência.


Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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