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Filmes

Crítica: As Viúvas é o filmaço da vez!

Será que teremos Viola Davis pro Oscar mais uma vez?

4 de dezembro de 2018 - 12:21 - Flávio Pizzol

Quem já conhece a filmografia de Steve McQueen (12 Anos de Escravidão) sabe que seus filmes sempre flertam com temas e situações pesadas, complexas e realistas o suficiente pra impactar. É uma pegada brutal que permite contar histórias que fogem do senso comum e certamente teve grande influência na escalada do diretor após o interessante Shame e o seu violento relato sobre a escravidão nos EUA. Quando esse talento como contador de histórias se reuniu com sua direção inventiva, passou a ser impossível ignorar McQueen e, depois de cinco anos de trabalho com curtas e clipes, é muito prazeroso ver tudo isso voltar à tela grande com o poderoso As Viúvas.

Para isso, ele decidiu criar uma versão moderna de uma série dos anos oitenta e mergulhar no universo do crime de Chicago através da história de quatro mulheres, sem nada em comum, que precisam se unir depois que seus maridos criminosos morrem e deixam um dívida milionária para trás. A solução, nesse caso, é mudar seus estilos de vida, enfrentarem os cobradores e organizar um assalto ousado antes que elas também acabem mortas.

Não posso negar que a premissa é forte e bastante interessante, porém eu não comecei falando da carreira do diretor à toa: o trabalho de McQueen atrás das câmeras é, sem dúvida nenhuma, o elemento mais impressionante de um longa que pode ser facilmente considerado, apesar de sua crueza, um deleite para os olhos de qualquer cinéfilo. McQueen sabe como trabalhar as diferenças sociais que constroem a trama a partir do contraste entre a sujeira das ruas e do apartamento impecável de uma das protagonistas, abusa dos planos sem cortes (um deles de tirar o fôlego e deixar a boca no chão) para injetar fluidez nas sequências e brinca com o que a linguagem cinematográfica pode oferecer em termos de significados. Um exemplo está num longo diálogo sobre política dentro de um carro que é filmado inteiramente pelo lado de fora, apontando as câmeras pras ruas com o objetivo de mostrar a realidade no lugar das palavras corruptas do personagem em questão.

Além disso, Steve McQueen tem pleno domínio do ritmo que seu longa precisa ter e a edição do longa – realizada por Joe Walker (A Chegada) – segue à risca todos os comandos do diretor. Ela corta a grande maioria das sequências na hora exata, adiciona as medidas certas de drama, ação e energia e faz com que As Viúvas seja um dos melhores trabalhos de montagem desse ano, principalmente por prender o espectador de maneira quase instantânea nessa trama complexa e cheia de informações. Observe, por exemplo, como a cena de abertura usa a transição entre perseguição policial e cenas íntimas de cada casal para cativar o público tanto pela ação desenfreada, quanto pelo teor dramático. É o tipo de escolha brilhante que ganha ainda mais força com uma organização narrativa que vai deixando as cenas em si e o longa como um todo mais tenso e magnético a cada minuto.

No entanto, tudo isso só funciona porque o roteiro que McQueen co-escreve com a ótima Gillian Flynn (Garota Exemplar) é igualmente bem construído. Não reinventa a roda, nem apresenta nada tão inovador para o sub-gênero dos filmes de assalto, mas tem muitas qualidades que merece ser exaltadas. O desenvolvimento de boa parte das protagonistas é marcado por arcos completos e poderosos, o vilão construído na figura de um mero capanga rouba os holofotes e passa todo o medo necessário com o olhar (graças, obviamente, a expressividade absurda de Daniel Kaluuya) e as reviravoltas conseguem surpreender sem precisar recorrer a um didatismo que trate o espectador como burro. Isso sem contar que a longa experiência de Flynn com grandes personagens femininas se junta com a sensibilidade de McQueen e resulta num material empoderado e cheio de momentos de pura catarse onde as mulheres podem ser elas mesmas e liberar aquele sofrimento que se acumulou após tanto tempo em segundo plano.

É o tipo de roteiro que qualquer atriz gostaria de ter nas mãos, já que o próprio texto de As Viúvas exige que elas sejam mulheres fortes e passem esse poder para o espectador através da atuação. E, mesmo que seja prejudicada por uma curva de desenvolvimento mais tímida, Viola Davis (Um Limite Entre Nós) deixa claro os motivos que a tornaram um exemplo perfeito desse combo através da postura impecável de uma Veronica multifacetada que se divide de um jeito bastante emocional entre os momentos onde a “máscara de durona” é derrubada pela solidão e aqueles onde seu poder se torna incontestável. É um trabalho que poderia figurar no Oscar tranquilamente, caso a Academia decida elevar Viola ao posto de Meryl Streep da vez.

Ela, por incrível que pareça, não detém o posto de única mulher poderosa do elenco e é seguida de perto por Michelle Rodriguez (Velozes e Furiosos 8) e Elizabeth Debicki (Guardiões da Galáxia Vol. 2). A primeira tem o papel mais óbvio das três, mas consegue lembrar o público que consegue atuar além da cafonice que a marcou franquia de carros rápidos e estressados. Já a segunda possui um arco mais claro: sai do ponto A representado pelo relacionamento abusivo do marido e da mãe e chega no ponto B como ser superior em uma evolução narrativa que a atriz carrega com muita firmeza. Por fim, ainda temos a ótima adição de Cynthia Erivo (Mr Selfridge) à gangue, roubando de maneira primorosa o lugar de uma quarta viúva que tem apenas um papel específico a ser cumprido.

Ao mesmo tempo em que elas dominam a narrativa com um todo, a subtrama política ocupa seu infeliz espaço como a parte mais problemática de As Viúvas. Alguns pontos da história são sim importantes pro contexto da trama e pra construção de Chicago como um personagem da trama, porém esse não é um filme de política e o próprio deixa isso claro quando decide, propositalmente, tratar o resultado da tão comentada eleição com certo descaso. E isso não é um problema nem cria uma ponta solta, mas realmente enfraquece algumas cenas sobre tal resultado que se espalham pelo decorrer da projeção. Momentos que, repito, fazem sentido pro contexto, mas poderiam ser mais enxutos para não quebrar a trama. Mesmo assim, essa linha narrativa ganha força com algumas onde o foco recai sobre as boas atuações de Colin Farrell (O Lagosta) e Robert Duvall (O Juiz).

E o fato de McQueen conseguir extrair o melhor até mesmo daquele que seria o seu maior escorregão é justamente um dos muitos motivos que colocam As Viúvas entre uma das melhores produções do ano. Um filme preciso, intenso, poderoso e brilhantemente dirigido que prende a atenção com câmeras inventivas, um roteiro com mais nuances emocionais que uma montanha-russa e atuações magnéticas que impressionariam qualquer ser humano. Isso dentro de uma trama que relata o crime com a brutalidade necessária e lança um olhar fresco sobre um gênero através da união de mulheres fortes. Em outras palavras: As Viúvas é tudo o que a gente quer ver nas telonas e, com total merecimento, no Oscar.