AODISSEIA
Filmes

Crítica: As Boas Maneiras

Um terror de primeira com identidade brasileira

4 de março de 2018 - 19:52 - Flávio Pizzol

Já falei inúmeras vezes sobre minha ânsia de ver mais filmes de gênero sendo produzidos no Brasil, No entanto não vou insistir nesse papo mais uma vez, porque As Boas Maneiras deixa claro que, mesmo demorando uns quatro anos para sair do papel, é possível fazer um grande filme de terror nacional. Melhor ainda, a produção demonstra que um pouco de vontade nos permite construir um filme lúdico e folclórico que mantém a identidade brasileira e flerta com aspectos sociais – bem na linha de Corra! -, enquanto dá uma aula de como misturar diversas técnicas, construir o clima de tensão e homenagear o horror clássico.

Dividindo propositalmente o longa em duas partes bem distintas, a dupla de roteiristas e diretores Marco Dutra (O Silêncio do Céu) e Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole) acompanham uma gravidez cercada por segredos monstruosos, sexualidade aflorada, questionamentos sobre raça e uma sensação de desconforto vai além daquele presente na típica relação entre patroa e empregada. Depois de certas reviravoltas que não merecem ser reveladas e uma passagem de tempo, a história usa o folclore puramente brasileiro para, finalmente, se transformar num monstruoso conto de origem.

O script, que começou a ser desenvolvido a partir de um sonho do diretor, cria um universo onde o horror adulto e sangrento se mistura com aquela fantasia ingênua que acompanha os contos infantis, apropriando-se de clichês e referências de ambos os “gêneros” – Chapeuzinho Vermelho e Alien certamente estão entre os mais óbvios – sem perder a chance de adicionar um humor pontual e condizente com a personalidade do brasileiro. Esses momentos representam um precioso momento de respiro dentro de uma trama densa e cercada de sangue, personagens misteriosos que se revelam aos poucos e muita imprevisibilidade.

E, nesse último caso, você pode ter certeza que Marco e Juliana sabem exatamente qual história querem contar e como/onde podem quebrar as expectativas do público durante o percurso. Dessa forma, as peças do quebra-cabeça são apresentadas na hora correta, os diálogos escondem várias pistas em suas entrelinhas, o desenvolvimento da trama transita entre gêneros (ou melhor, sub-gêneros) com fluidez, a amarração das pontas não decepciona e o último corte chega na hora exata. O filme prende tanto a atenção que passa voando, surpreende em diversos momentos e pega o espectador desprevenido inclusive na maneira como ressignifica certas canções populares que surgem em cena.

No entanto, é impossível negar que todos os acertos do roteiro de As Boas Maneiras estão intimamente ligado ao trabalho da dupla como diretores. São as escolhas estéticas e técnicas (até a animação entra na roda) utilizadas por esses dois amantes do cinema que injetam vida a essa versão fantástica do nosso mundo, onde os horizontes são literalmente pintados pelo quadrinista Eduardo Schaal, alguns personagens podem ultrapassar levemente a linha da caricatura e, acima de tudo, monstros lendários podem viver entre nós. Tudo é permitido aqui e, entre tantas escolhas possíveis, a direção usa isso a seu favor no desenrolar da narrativa, na criação dos efeitos visuais de grande qualidade e no design de som – e trilha original – que ressalta os sentimentos de cada personagem nos mais diversos momentos do longa.

Além disso, eles mostram total domínio da construção dos distintos climas de tensão que preenchem cada metade da história. A primeira trabalha as diferenças raciais e de classe através um desconforto proposital e constante entre as protagonistas, mas a sacada da dupla de diretores está na maneira como as motivações por trás dessa sensação vão alterando com sutileza até atravessar a tela e chegar no público através de algumas sequências bem sangrentas. Já a segunda parte, por sua vez, foge desse apelo gore para trabalhar (acertadamente) com um terror mais clássico que esconde o monstro até a hora certa, aposta na sugestão do medo para criar o clima necessário e aproveita ao máximo os detalhes da transformação final.

É nesse momento de construção de clima, principalmente na sugestão, que a direção de arte, o figurino e a maquiagem se tornam peças-chave de As Boas Maneiras: o animatrônico do monstro exala estranheza, a “desmontagem” gradual da aparência falsa de Ana acompanha a revelação dos seus segredos, os objetos do quartinho de Joel ajudam a mostrar como são as noites da criança sem que elas precisem ser efetivamente reveladas antes da hora e por aí vai. É um trabalho bonito, sensível, detalhista e muito bem conectado com todo o contexto pensado para o longa.

Pra completar os show de acertos que compõe As Boas Maneiras, Dutra e Rojas encontra o trio de protagonistas perfeitos em Marjorie Estiano (Sob Pressão), Isabél Zuaa (Joaquim) e no estreante Miguel Lobo. A primeira surge completamente fora da sua zona de conforto, enquanto os outros dois entregam uma relação entre mãe e filho cheia de ternura que carrega aqueles que, na minha opinião, são os momentos mais difíceis do longa. O garoto, especialmente, possui um papel muito complicado para sua idade e o constrói com uma intensidade que permanece mesmo nas cenas que usaram captura de movimentos.

E, por fim, essa quantidade de acertos que tentei listar sem entregar grandes segredos da trama (acredite quando digo que essa foi a parte mais difícil do trabalho) tem poder suficiente para colocar As Boas Maneiras entre os melhores filmes do festival e, provavelmente, do ano. Por mais que o visual flerte um pouquinho com os visuais de filme B, o longa é um terror de classe A que possui um texto redondinho, efeitos de primeiro mundo e uma riqueza de gêneros, camadas e temáticas que não é tão comum quanto parece. E o mais importante de tudo: mesmo sem estar interessado nos grandes sustos, As Boas Maneiras incomoda e surpreende como qualquer produção de terror do mundo deveria fazer.


OBS 1: O filme foi assistido no 58º Festival Internacional de Cartagena e deve estrear, oficialmente, no Brasil em junho.

OBS 2: A transição da morte do gato para “Chora, me Liga” é uma das melhores e mais hilárias coisas que já vi no cinema nacional.