AODISSEIA
Séries

Crítica: Arrow (6ª Temporada)

De volta ao passado...

1 de junho de 2018 - 01:56 - Flávio Pizzol

Assim como The Flash (e todas as outras séries do universo televisivo da DC), Arrow é uma produção muito inconstante. Para se ter uma ideia, depois de uma primeira temporada bacana, o show estrelado pelo Arqueiro Verde foi da perfeição épica do segundo ano para o fundo do poço e voltou de maneira surpreendente na temporada passada. E, ironicamente, foi justamente o brilhante trabalho realizado no ano passado que aumentou – e muito – as expectativas para uma sexta temporada que voltou ao passado, se dividiu entre novos acertos e antigos pecados e encerrou-se de maneira bastante tediosa e repetitiva.

A história, que veio com a proposta de usar um vilão mais organizado para completar o ciclo de destruição de Oliver Queen e sua equipe, começou surpreendentemente bem. Posicionou as peças com agilidade, diminuiu o uso dos poderes, apresentou episódios sólidos e, princialmente, começou a construir um vilão com potencial. Cayden James – interpretado com brilhantismo por Michael Emerson (Person of Interest) – carregava a inovação de não ser um antagonista mascarado ou ninja e ainda ampliava o destaque de Felicity como melhor opção na hora do embate, abrindo espaço para refrescar Arrow com novas tramas e elaborar uma queda tão crível quanto a planejada por Prometheus no quinto ano.

Ao mesmo tempo, os roteiristas decidiram usar os episódios fillers (a clássica encheção de linguiça) com mais parcimônia, nostalgia e sabedoria. Em outras palavras, a produção diminuiu a frequência desses eventos que a maioria dos fãs desaprova, enquanto acertava ao usá-las para encerrar a a história de Slade Wilson, criar um despedida decente e agridoce para Thea Queen e ameaçar pontualmente a vida de William com o objetivo de desenvolver outros aspectos do protagonista em segundo plano. Uma volta ao passado positiva que ajudou na amarração definitiva de algumas pontas e direcionou o Arqueiro para as suas origens, incluindo até mesmo uma participação surpresa de Tommy Merlyn na reta final.

Ao mesmo tempo, Arrow não conseguiu manter o mesmo rumo da temporada anterior e voltou a ser assombrada por alguns problemas que já tinham ficado pra trás. A quantidade de subtramas paralelas inchando a história retornou com tudo, a falta de foco marcou presença como tem feito em quase todas as séries de 23 episódios e a inconsistência na evolução dos personagens recuperou seu lugar de destaque entre os problemas desse universo criado pela CW. Eu não consigo entender porque as mentes por trás dessas produções insistem em direcionar seus personagens para as mesmas decisões burras de sempre, como se a repetição e a estupidez fossem regras básicas para ser um super-herói ou um vilão cartunesco.

São problemas típicos que, infelizmente, desviam atenção do espectador daquilo que realmente interessa e prejudicam o desenvolvimento da série como um todo. No entanto, é curioso destacar que, dessa vez, a maior parte desses erros acabou sendo ofuscada por bons encerramentos de trama ou sequências-chave que devolviam ao público o prazer de acompanhar o Team Arrow, como a própria briga entre o protagonista e Diggle, seu melhor amigo. É uma saída novelesca e extremamente melodramática que, por pura sorte, encontra sua casa em Arrow e reserva momentos bastante impactantes para alguns episódios.

Mas então, se não foi essa mistura levemente desorganizada entre paternidade, caçada policial, tecnologia, mudança de manto e destruição da equipe ou a insistência em erros do passado que diminuíram tanto assim a qualidade desse ano, quem foi o responsável? Na minha opinião, a culpa fica todinha com Ricardo Diaz, o suposto vilão principal da temporada. Cheio de características que parecem ser inerentes aos vilões do universo televisivo da DC, ele é um personagem mal desenvolvido que chega na série acompanhado por uma reviravolta morna, uma motivação fraquíssima e uma interpretação que merece entrar pro hall de piores da história.

E você deve se lembrar que eu já disse nesse mesmo texto que o primeiro vilão do sexto ano era realmente bom. Eu simplesmente não sei explicar o que levou os roteiristas de Arrow a pensar que seria uma boa ideia trocar um antagonista com motivações válidas (apesar de clichês) e interpretado por alguém talentoso por alguém que quer apenas conquistar a cidade ao passo em que tenta provar no grito – literalmente – que não é mais um órfão abandonado e indefeso. Um vilão tão bom que consegue ser passado para trás pela maior parte os seus capangas e encerrar sua passagem sem botar medo real em ninguém.

A mistura de personagem mal escrito por preguiça de um grupo de roteiristas que já mostrou que sabe fazer algo bacana, com uma atuação deficiente de Kirk Acevedo (Sobrenatural: A Última Chave) que não consegue chegar ao dedinho mindinho daquele Prometheus que espalhava ameaça e temor sem precisar gritar ou espernear em nenhum momento. E as maiores provas da fraqueza do personagem podem ser resumidas em três tópicos: a) o melhor momento de Ricardo Diaz acontece na única vez em que ele surge calado e executa uma ameaça brutal apenas com o olhar; b) um dos melhores momentos da temporada, por outro lado, surge com o retorno de Adrian Chase, mesmo que na forma de alucinação, em um episódio que finalmente volta o foco somente para o protagonista; c) quando TODOS os vilões secundários são melhores do que o principal, podemos dizer que existe algo muito errado na concepção desse último.

E pra piorar, a série adiciona mais uma decisão de merda ao pacote quando decide manter a morte de Diaz em aberto, indicando que pretende usar esse embuste sem impacto mais uma vez. E pra piorar, essa escolha narrativa ainda chega junto com uma conclusão extremamente óbvia e aquém do esperado depois de um season finale magnífico no ano anterior. Eu sei que fiz mais comparações do que deveria, mas todas elas se tornaram inevitáveis no momento em que a sexta temporada caminhou na contramão de tantos acertos com subtramas desnecessárias e, acima de tudo, um vilão horroroso. Os últimos minutos, carregados por um senso de despedida e elo sacrifício clássico dos quadrinhos, até tentam gerar algum impacto, porém acaba enfraquecido perante um espectador que sabe que essa saída jamais será definitiva ou sequer marcante. Ainda assim, parece cair como uma luva em mais um ano onde Arrow fugiu de entregar sua pior temporada sem chegar nem perto do seu potencial.


OBS 1: Não sei porque o Anatoly não acabou sendo escolhido como vilão principal. Ele já possui todo um desenvolvimento que facilitaria sua construção/evolução nesse ano, tem um interprete decente e ainda adicionaria elementos emocionais fortes aos combates com o Oliver. Fica o questionamento, Brasil…